Anaconda, de Tom Gormican: análise do trailer e o que esperar do filme

Antes da estreia, antes da crítica e antes mesmo da obra, Anaconda já existe como expectativa — construída quase integralmente a partir de seu trailer. Dirigido por Tom Gormican e estrelado por Paul Rudd, Jack Black, Thandiwe Newton e Selton Mello, o filme tem estreia anunciada para 25 de dezembro de 2025 nos cinemas brasileiros.

Seu trailer não se limita a anunciar um filme, ele performa o filme. Não se trata de um apelo à curiosidade, mas de uma demonstração categórica de que a obra já sabe exatamente onde está, para onde vai e, sobretudo, como quer ser vista: com ironia, afeto e um exagero calculado até a última vírgula.

O que mais chama atenção, já nos primeiros segundos, é a postura metalinguística assumida pelo trailer. Não vemos uma floresta ameaçadora, uma equipe de cientistas desavisados ou uma cobra gigantesca emergindo das águas turvas. Vemos atores — ou, melhor, personagens interpretando atores — discutindo, improvisando, frustrando-se com a dificuldade de filmar um filme chamado Anaconda.

Essa camada extra — a da produção dentro da ficção, do cinema sobre cinema — não é mero recurso cômico; é o cerne da proposta. O trailer não esconde o mecanismo: entrega, sem rodeios, o tom de pastelão afetivo que guiará a narrativa. E, ao fazê-lo, antecipa a experiência do espectador com uma confiança quase desafiadora.

evolução

O que se vê aqui não é apenas uma escolha estética, mas um sintoma de transformação no marketing cinematográfico. Hoje, o trailer não é mais um teaser, no sentido clássico — aquele que provoca, sugere, retém. É um sample: um trecho funcional da obra, como um refrão de música no TikTok, que já entrega o gancho antes do álbum sair.

humor

Aqui, as piadas estão lá: o “bora arrepiar”, o “chega a carinha perto da cobrinha”, o “ele tá morto — ai, não!” — tudo é apresentado com a mesma cadência de um esquete de sketch comedy. O espectador sai do trailer não com dúvidas sobre o gênero, mas com uma confirmação emocional: sim, será engraçado; sim, será absurdo; sim, será consciente de sua própria artificialidade.

A relação com o legado da franquia — inaugurada em 1997 com aquele Anaconda de suspense B, com boa dose de seriedade involuntária — é tratada com um carinho irônico. O novo filme não nega o original; recicla sua estética como fetiche. A serpente não é mais um monstro naturalista, mas um objeto simbólico: o MacGuffin que justifica a aventura e o desastre logístico da produção.

O trailer transforma o que antes era medo em matéria-prima para o riso — e, ao fazer isso, converte a nostalgia em paródia afetuosa, não em zombaria vazia. Há aqui um respeito implícito pelo gênero, mesmo enquanto o desmonta.

É notável, ainda, como a autoconsciência do material se estende à própria indústria. A divisão de funções — “você filma?”, “você dirige.” — ecoa não apenas o cinema de baixo orçamento, mas também o modo como as redes sociais reconfiguraram a ideia de produção: todos são diretores, todos são atores, todos têm um take a entregar.

O trailer, nesse sentido, é um espelho do momento cultural: a metaficção deixou de ser recurso de vanguarda e tornou-se linguagem corrente — e Anaconda a assume como motor narrativo, não como adereço.

expectativa

Por fim, o que o trailer mais eficazmente constrói é uma expectativa de cumplicidade. Não se espera que o público suspenda a descrença; espera-se que ele participe da brincadeira. O medo da cobra é substituído pelo medo de estragar o plano; o perigo da floresta, pela incompetência organizada do grupo.

O que assusta não é o monstro, mas o roteiro que não fecha. Nesse deslocamento reside o humor mais fino da proposta: o filme sabe que vivemos numa era em que o maior terror não é ser engolido por uma serpente, mas não ter conteúdo para postar quando ela aparecer.

E, assim, ao terminar o trailer — com aquele “corre” ecoando sobre uma trilha que mistura tensão de aventura e batida de comédia pastelão —, o espectador já não aguarda um filme. Ele aguarda um evento compartilhado: um encontro com a própria cultura do entretenimento, mastigada, exagerada e, enfim, devolvida com um sorriso torto e um beijo na cabeça da cobrinha.

A serpente já sibilou. Resta ver se ela vai engolir ou apenas abraçar.


Entre o trailer e a estreia, dezembro de 2025.

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