Dark Horse: O que Esperar Quando o Cinema Escolhe Não Ver

Este artigo é um ensaio crítico e interpretativo, escrito a partir dos materiais, anúncios e imagens que circulam publicamente sobre o projeto Dark Horse, antes de seu lançamento oficial. Não se trata de uma análise do filme concluído, mas de uma leitura sobre expectativas, enquadramentos narrativos e escolhas simbólicas que já se revelam no discurso promocional.

O texto a seguir não analisa um filme pronto, mas o imaginário que se constrói antes da estreia — quando o cinema já começa a escolher o que mostrar e, sobretudo, o que deixar fora do quadro.

Entre fé, martírio e enquadramento ideológico no cinema político contemporâneo

Nem toda câmera testemunha. Algumas escolhem adorar.

Quando Cyrus Nowrasteh anunciou Dark Horse, um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro estrelado por Jim Caviezel, não estava apenas propondo um retrato — estava erguendo um altar. O cinema, essa arte que nasceu da promessa de capturar o real, há muito aprendeu que toda lente é também um filtro. E todo enquadramento, uma decisão moral.

Dark Horse promete contar a história da campanha presidencial de 2018 no Brasil, com foco no atentado de Juiz de Fora que quase tirou a vida do então candidato. Promete mostrar o “improvável”: um político marginalizado que se tornou presidente. Mas o que significa “mostrar” quando o diretor já decidiu, antes mesmo de ligar a câmera, que seu protagonista é um herói?

A questão não é se o filme será tecnicamente competente. Nowrasteh sabe fazer cinema. A questão é: o que fica de fora quando o olhar se recusa a piscar?

Este não é um artigo sobre Bolsonaro. É sobre o cinema como dispositivo ideológico. Sobre a diferença entre retratar e santificar. Sobre o que acontece quando a sétima arte abdica da dúvida e se entrega à certeza. Porque, no fim, Dark Horse não será apenas um filme — será um sintoma. E sintomas, ao contrário de obras de arte, não pedem para serem interpretados. Eles revelam.

O que esperar, então? Espere um melodrama vestido de épico. Espere música orquestral onde deveria haver silêncio. E espere close-ups que transformam política em martírio. Espere, sobretudo, que o cinema faça aquilo que faz de melhor quando esquece sua vocação: mentir com a verdade.

Quem é Cyrus Nowrasteh e Por Que Isso Importa

Antes de Dark Horse, antes de Bolsonaro, havia uma assinatura.

Cyrus Nowrasteh não é um cineasta qualquer.

É co-roteirista de A Paixão de Cristo (2004), o filme de Mel Gibson que transformou a crucificação em espetáculo visceral e arrecadou mais de 600 milhões de dólares globalmente. Depois, dirigiu The Stoning of Soraya M. (2008), drama sobre uma execução por apedrejamento no Irã — obra que, sob o pretexto da denúncia, constrói um Oriente Médio unidimensional, bárbaro, desprovido de nuances.

O padrão é claro: Nowrasteh faz cinema de causas absolutas. Seus filmes não investigam — testemunham. Não questionam — acusam ou absolvem. Sua linguagem visual é a do melodrama religioso: close-ups de sofrimento, trilhas épicas, fotografia dourada que transforma personagens em ícones. Não há espaço para ambiguidade. Há apenas luz e trevas.

Quando um diretor assim escolhe filmar Bolsonaro, não está escolhendo um tema. Está escolhendo um santo.

O Casting Como Discurso: Jim Caviezel e a Herança Simbólica de Jesus

A escolha de Jim Caviezel não é casting. É teologia visual.

Caviezel é, para toda uma geração de espectadores conservadores, o rosto de Cristo. Depois de A Paixão de Cristo, sua carreira se tornou inseparável dessa iconografia. Ele carrega consigo não apenas uma persona, mas uma auréola simbólica. Quando aparece em tela, não é apenas um ator — é uma citação.

Colocá-lo no papel de Bolsonaro é um ato semiótico deliberado. A mensagem não precisa ser dita: está inscrita na escolha. Este homem foi perseguido. E este homem sofreu. Este homem ressuscitou.

O cinema sempre soube que rostos carregam histórias. Nowrasteh sabe que Caviezel carrega mais: carrega uma narrativa de martírio e redenção que antecede qualquer diálogo. A câmera não precisará convencer ninguém de que Bolsonaro é um mártir. Basta filmar Caviezel sangrando em Juiz de Fora. O resto, a memória coletiva faz.

Aqui, o casting não serve à verossimilhança. Serve à transubstanciação. Bolsonaro deixa de ser político. Torna-se símbolo.

A Narrativa Prometida: 2018, Juiz de Fora e a Construção do Mito

O filme promete recontar 2018. Mas 2018 não existe mais — foi substituído por sua própria lenda.

A campanha presidencial brasileira daquele ano foi um evento multifacetado: redes sociais, fake news, polarização extrema, assassinato de Marielle Franco, prisão de Lula, ascensão de um candidato que prometia “limpar” o país. Foi caos, foi algoritmo, foi raiva coletiva. Foi muitas coisas ao mesmo tempo.

Dark Horse promete focar no atentado de Juiz de Fora, quando Bolsonaro foi esfaqueado durante um ato de campanha. O gesto de Adélio Bispo — oficialmente tratado como confuso, solitário, declaradamente sem motivação política clara — tornou-se, na narrativa bolsonarista, a prova de uma conspiração. O sangue virou argumento. O ferimento, profecia cumprida.

Nowrasteh não precisará inventar nada. A estrutura narrativa já está pronta: o herói improvável, rejeitado pelo establishment, atacado fisicamente, ressurgindo mais forte. É a jornada do herói de Campbell, é o martírio cristão, é o western americano. É mito puro.

O problema não é que essa história seja falsa. O problema é que ela é incompleta. E o cinema de Nowrasteh não completa — ele rasura.

O Que Fica de Fora: O Silêncio Como Escolha Estética e Política

Todo enquadramento é também um corte.

Se Dark Horse vai mostrar Bolsonaro sangrando em Juiz de Fora, vai mostrar também os milicianos que o apoiaram? E se vai mostrar sua ascensão, vai mostrar as fake news que a impulsionaram? Se vai mostrar sua retórica anti-establishment, vai mostrar os generais ao seu lado?

Silêncio.

Ausência não é neutra. Quando um filme sobre um político omite corrupção, omite discursos de ódio, omite conexões com milícias e grupos paramilitares, não está apenas “escolhendo um foco”. Está construindo uma hagiografia.

O cinema sempre teve essa capacidade perigosa: fazer o parcial parecer completo. Uma trilha orquestral no momento certo, um close no olhar certo, e o espectador esquece que há um mundo fora do quadro. Esquece que entre o atentado e a eleição houve disparos em massa de desinformação. Esquece que o “outsider” tinha aliados no Exército, nas igrejas, nas corporações.

Nowrasteh sabe disso. E usa isso.

O silêncio, aqui, não é falha técnica. É método narrativo. O que não aparece em tela não existe. E o que não existe não pode ser julgado.

Melodrama, Hagiografia e a Estética da Redenção

Há uma gramática visual da santidade. Nowrasteh a domina.

O cinema religioso não filma personagens — filma ícones. A luz vem sempre de cima, dourada, envolvendo o rosto como promessa de transcendência. A câmera se move devagar, reverente, como quem entra numa catedral. O som — cordas, metais, coros — não acompanha a ação: anuncia seu significado.

Em A Paixão de Cristo, cada chicotada era filmada como sacramento. Em The Stoning of Soraya M., cada pedra era um argumento moral. O sofrimento não era apenas mostrado — era consagrado. A dor virava prova de pureza.

Dark Horse seguirá o mesmo manual. Espere câmera lenta no momento da facada. Espere close no sangue escorrendo. E espere música que transforma violência em martírio. Espere montagem que justapõe o atentado com imagens de multidões, como se o corpo ferido gerasse, por simpatia mística, um movimento popular.

Essa não é linguagem documental. É liturgia.

O melodrama, gênero que o cinema erudito despreza, é também o mais eficaz na construção de consensos emocionais. Porque o melodrama não argumenta — ele sente por você. A trilha diz quando chorar. O enquadramento diz quem amar. A edição diz o que significa.

E quando a forma já decidiu tudo, o conteúdo se torna irrelevante.

O Público-Alvo e a Política do Olhar

Dark Horse não foi feito para críticos. Foi feito para fiéis.

Existe, hoje, um mercado global de cinema conservador. Filmes como God’s Not Dead, Unplanned, Sound of Freedom — obras que funcionam menos como entretenimento e mais como afirmação identitária. Seu público não vai ao cinema para ser surpreendido. Vai para ser confirmado.

Esse é o público de Dark Horse. Cristãos conservadores americanos que veem em Bolsonaro um aliado na “guerra cultural”. Brasileiros bolsonaristas que enxergam no filme a validação internacional de sua narrativa. Espectadores que já decidiram, antes de entrar na sala, o que o filme vai dizer.

O cinema, aqui, não é arte — é trincheira.

E isso tem consequências estéticas. Quando o público já concorda com a tese, o filme não precisa convencer. Precisa apenas emocionar. Pode abdicar da complexidade, da ambiguidade, da dúvida. Pode ser, sem culpa, um manifesto.

O problema não é que existam filmes assim. O problema é quando eles se disfarçam de biopics. Porque um biopic, tradicionalmente, é um gênero que promete investigar uma vida. Dark Horse não vai investigar. Vai canonizar.

E canonização não admite perguntas.

O Perigo do Cinema Que Não Questiona

Pode o cinema ser propaganda?

A pergunta não é nova. Eisenstein fez O Encouraçado Potemkin para glorificar a Revolução Russa. Riefenstahl fez O Triunfo da Vontade para glorificar Hitler. Ambos são, tecnicamente, obras-primas. Ambos são, eticamente, devastadores.

A diferença entre arte e propaganda não está na técnica. Está na relação com a verdade.

Arte admite contradição. Propaganda, não. Arte permite que o espectador discorde. Propaganda exige que ele se curve. Arte constrói perguntas. Propaganda oferece respostas prontas, embaladas em emoção e música épica.

Dark Horse será propaganda?

Talvez a pergunta esteja mal formulada. Talvez o problema não seja se o filme será propagandístico, mas se isso ainda importa. Porque vivemos numa era em que a distinção entre arte e propaganda se dissolveu. Onde cada filme é também um posicionamento político. Onde assistir já é, de algum modo, escolher um lado.

Mas há algo que permanece irredutível: a arte que perdura é aquela que resiste à certeza. Os filmes que envelhecem bem são os que deixam brechas, os que admitem a falha, os que filmam o herói mas também sua sombra.

Dark Horse não terá sombras. Ou melhor: terá apenas a sombra dos inimigos. E isso, no fim, é o que o torna não apenas ideológico, mas artisticamente estéril.

Porque um filme que já sabe tudo não tem nada a descobrir. E um cinema que não descobre nada não é cinema — é apenas projeção.

Entre a Expectativa e o Inevitável

O que esperar de Dark Horse?

Espere competência técnica. Nowrasteh sabe compor um plano, sabe conduzir uma cena, sabe quando a música deve entrar. Espere atuação comprometida — Caviezel acredita no que faz, e isso transparece. E espere fotografia cuidadosa, edição eficiente, ritmo que sustenta a atenção.

Espere, também, a total ausência de complexidade.

Dark Horse será um filme tecnicamente sólido e intelectualmente vazio. Será emocionante para quem já acredita e insuportável para quem duvida. Não haverá espaço para ambivalência. Não haverá um único plano que permita ao espectador pensar: e se?

Isso não é falha de execução. É escolha deliberada. Nowrasteh não quer fazer um filme sobre Bolsonaro. Quer fazer um filme a favor de Bolsonaro. E essa preposição muda tudo.

O MartÍrio do Carrasco

Há uma violência silenciosa nesse gesto. Porque quando o cinema decide não ver, quando escolhe filmar apenas o martírio e nunca o carrasco que seu herói pode ser, ele não está apenas omitindo — está reescrevendo. E reescrever a história com imagens é mais perigoso do que reescrevê-la com palavras. Porque imagens não argumentam. Elas aderem.

Um espectador pode discordar de um texto. É mais difícil discordar de um close, de uma trilha, de um rosto banhado em luz dourada. O cinema opera abaixo da consciência crítica. Ele sente antes de pensar. E Dark Horse sabe disso.

O filme será um sucesso entre seu público. Será ignorado ou desprezado pela crítica. Será, nos próximos anos, citado como exemplo de cinema ideológico. E tudo isso já estava previsto antes mesmo da primeira cena ser filmada.

O que esperar, então?

Espere o inevitável: um melodrama hagiográfico que transforma política em fé, que transforma um homem em símbolo, que transforma cinema em altar. Espere um filme que não quer ser interrogado, apenas venerado.

E espere que, depois dos créditos finais, a verdadeira discussão comece. Não sobre o filme em si, mas sobre o que significa fazer cinema numa era em que a verdade se tornou uma questão de lealdade.

Epílogo: O Olhar Como Ato Ético

Filmar é escolher o que merece ser visto.

Há uma responsabilidade nesse gesto. Porque a câmera não apenas registra — ela consagra. O que é filmado ganha existência simbólica. O que é omitido, desaparece.

Nowrasteh escolheu ver um mártir. Escolheu não ver o resto.

E talvez seja isso, no fim, o que Dark Horse nos ensina: que o cinema nunca é inocente. Que toda lente é também um argumento. Que o olhar, longe de ser passivo, é sempre um ato ético.

Resta saber se ainda somos capazes de olhar de volta.

Um teaser/trailer inicial de Dark Horse já circula nas redes e no YouTube, mostrando Jim Caviezel caracterizado como Jair Bolsonaro em cenas da campanha e do atentado de Juiz de Fora, indicando a estética e o tom dramático que a produção pretende adotar antes de um lançamento oficial programado para 2026. YouTube

Nota:“Até dezembro de 2025, Dark Horse segue em produção e tem previsão de estreia para 2026, mas não há ainda um anúncio oficial de lançamento amplo ou confirmação total de distribuição global. Movimentos legais recentes e a polarização em torno de sua figura protagonista podem influenciar o caminho da obra antes de sua chegada às telas.”

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