Anaconda como brincadeira séria: Selton Mello, meta-cinema e o prazer de filmar
Em conversa com Isabela Boscov, Selton Mello fala sobre Anaconda sem nunca tratá-lo como apenas mais um filme. Pelo contrário: o projeto surge como uma espécie de brincadeira consciente — dessas que só funcionam quando feitas por quem conhece profundamente as regras do jogo.
O novo Anaconda, dirigido por Tom Gormican (O Peso do Talento), não é continuação nem remake do filme de 1997. É uma história original sobre quatro amigos frustrados com os rumos da própria vida que decidem refilmar, “do jeito certo”, um antigo sonho juvenil. A escolha do título não é nostalgia vazia: é ironia, comentário e afeto ao mesmo tempo. Cinema falando de cinema.
Selton entra nessa engrenagem como Carlos Santiago, um domador de cobras que, curiosamente, jamais vê uma cobra sequer durante as filmagens. Tudo é CGI. O detalhe, que poderia soar como frustração, vira anedota — e reforça algo central na fala do ator: cinema é imaginação, jogo, acordo entre quem filma e quem assiste.
É nesse ponto que Selton se destaca. Segundo a própria Boscov, há um trecho do filme em que ele “engole” o resto do elenco. Não por estrelismo, mas por repertório. Anos de comédia, direção e dublagem criaram um ator que domina tempo, ritmo e intenção. Não por acaso, ele é o único ali que também se dirige.
A arte de atuar
Ao longo da conversa, Selton retorna várias vezes à ideia de que atuar é brincar. Ele aprendeu isso cedo, ainda criança, quando interpretar era tão natural quanto inventar mundos com brinquedos. Essa leveza atravessa toda a sua trajetória — inclusive quando assume projetos densos, como Sessão de Terapia ou O Palhaço. O trabalho é sério, mas o método não é pesado.
Anaconda também representa um momento simbólico: Selton dublando a si mesmo em português e espanhol, depois de ter passado a adolescência dando voz a personagens estrangeiros. Há algo de fechamento de ciclo aí — o dublador que agora ocupa a tela globalmente, sem deixar de ser quem é.
A entrevista se expande para além do filme. Selton fala de formação de público, da importância do cinema infantil, da circulação dos filmes brasileiros e da necessidade de continuidade nas políticas de incentivo. Fala com entusiasmo de Chico Bento, com carinho de cineastas que admira e com lucidez sobre o fato de que, no Brasil, o cinema parece sempre recomeçar do zero.
No fim, Anaconda vira quase um detalhe. O que fica é o retrato de um artista em movimento, interessado em desafios novos — seja Hollywood, Chile, espanhol, inglês ou Machado de Assis. Um ator-diretor que parece ter entendido algo essencial: levar o cinema a sério não significa perder o prazer de brincar com ele.
Este artigo foi inspirado em entrevista concedida por Selton Mello a Isabela Boscov.
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Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.