Jovem Pan, PIX e Governo Federal: a Estética da Fake News sobre o Tributo que não existia

Nem toda manchete informa. Algumas ativam.
Antes mesmo de serem compreendidas, já produzem um efeito físico: aperto no estômago, indignação imediata, impulso de compartilhar.

Foi assim com a notícia sobre um suposto tributo que entraria em vigor a partir de janeiro — um imposto que, juridicamente, nunca existiu, mas que por alguns dias passou a operar como realidade simbólica no imaginário brasileiro.

A informação circulou com todos os elementos de uma narrativa eficiente: números reconhecíveis, um vilão abstrato, uma ameaça direta ao cotidiano. Não era apenas sobre economia ou política fiscal. Era sobre algo mais íntimo: a sensação de que até os gestos mais banais — pagar, transferir, mover dinheiro — estariam sob vigilância e punição. O medo veio antes da verificação.

Quando o desmentido oficial chegou, já era tarde. A manchete havia cumprido seu papel. Não como notícia, mas como experiência emocional coletiva. O episódio revelou menos sobre impostos e mais sobre a estética contemporânea da informação: um regime em que forma, tom e encenação importam tanto quanto — ou mais do que — o conteúdo factual.

Este texto não se dedica a desmentir o que já foi negado por vias oficiais. O que interessa aqui é entender como um fato inexistente ganhou corpo, por que ele foi acreditado, e o que isso diz sobre nossa relação com mídia, tecnologia e medo. Porque, no fim, o tributo mais eficiente não foi o financeiro — foi o simbólico.

O Fato que não aconteceu

A notícia começou a circular no Brasil no início de dezembro, a partir de comentários feitos no programa Pânico, transmitido pela Jovem Pan. Durante a atração, foi afirmado que o governo federal passaria a tributar movimentações financeiras acima de determinado valor, com menções específicas a transferências via PIX, aplicação de alíquotas associadas ao Imposto de Renda e penalidades severas para quem não recolhesse o suposto tributo a partir de janeiro.

Repercussão

A fala, feita em tom de alerta, rapidamente ultrapassou o espaço do programa. Trechos editados começaram a circular em redes sociais, vídeos curtos e aplicativos de mensagens, muitas vezes dissociados do contexto original. Em poucas horas, a afirmação ganhou status de informação consolidada, ainda que não houvesse decreto, projeto de lei ou medida provisória que sustentasse a existência da cobrança.

Diante da repercussão, a Receita Federal e o Ministério da Fazenda divulgaram notas oficiais negando categoricamente a informação.

Os comunicados esclareceram que não existe tributo incidente sobre simples movimentações financeiras, que não há qualquer taxação específica sobre o PIX e que a Constituição Federal não autoriza esse tipo de cobrança. Também reforçaram que nenhuma mudança dessa natureza estava prevista para o início do ano seguinte.

Depois da Tempestade

Pouco depois, a Jovem Pan publicou uma retratação pública, reconhecendo que a informação divulgada no programa estava incorreta. A nota de correção — objetiva e institucional — afirmou que a Receita Federal não criaria tal imposto e que a informação veiculada havia sido um erro.

O episódio, no entanto, não ocorreu em um vácuo. Desde a implementação do PIX, em 2020, boatos recorrentes sobre sua possível taxação reaparecem ciclicamente, quase sempre em momentos de tensão política ou de debate sobre ajuste fiscal.

Ao mesmo tempo, discussões reais sobre reforma tributária e mudanças no Imposto de Renda criam um ambiente propício à confusão entre medidas existentes, propostas futuras e informações falsas.

Havia, portanto, um terreno fértil: um meio de pagamento amplamente popularizado, uma emissora de grande alcance, um programa conhecido por misturar humor, opinião e comentário político, e uma lógica de circulação digital que privilegia impacto emocional sobre verificação. O imposto não existiu. Mas a estrutura que permitiu que ele fosse acreditado — e compartilhado — estava plenamente instalada.

Os Números

Nada na fake news do tributo era acidental — especialmente os números. Eles não funcionavam como dados técnicos, mas como dispositivos simbólicos cuidadosamente reconhecíveis.

O valor de R$ 5.000, por exemplo, não representa apenas uma quantia monetária. Ele ocupa um lugar específico no imaginário brasileiro: é o patamar da chamada classe média funcional, o limite entre sobrevivência e conforto mínimo, o valor que sugere organização financeira sem ostentação. Ao ser escolhido, o número cria identificação imediata. A ameaça não atinge “grandes fortunas”, mas pessoas comuns.

O mesmo ocorre com a alíquota de 27,5%. Trata-se do teto do Imposto de Renda da pessoa física — um número já carregado de desgaste simbólico. Mesmo para quem não domina a legislação tributária, ele soa familiar, quase intuitivo. É o percentual que, no senso comum, representa o máximo da intervenção estatal sobre o rendimento individual. Ao ser deslocado para o campo das movimentações financeiras, esse número produz a sensação de transbordamento: não basta tributar a renda, agora se tributa o gesto.

Já a menção a multas elevadas — ainda que juridicamente inexistentes — cumpre uma função narrativa clássica: a punição exemplar. Ela não serve para explicar um mecanismo fiscal, mas para disciplinar simbolicamente o sujeito. O medo deixa de ser abstrato e passa a ter forma, valor e consequência.

Nesse contexto, os números não informam. Eles encenam. Funcionam como personagens silenciosos de uma história de vigilância e castigo.

PIX: de tecnologia a mito cotidiano

O impacto da fake news só se explica plenamente quando se entende o lugar simbólico ocupado pelo PIX no Brasil. Criado em 2020 pelo Banco Central, o sistema ultrapassou rapidamente a condição de inovação financeira para se tornar infraestrutura emocional do cotidiano. Ele está presente em pequenas compras, pagamentos informais, doações, trabalhos autônomos. É rápido, gratuito e invisível — e justamente por isso parece natural.

Com o tempo, o PIX deixou de ser percebido como ferramenta estatal e passou a ser vivido como extensão da autonomia individual. Diferente de boletos, tarifas bancárias ou crédito, ele carrega a sensação de fluidez e controle. Taxar o PIX, mesmo que apenas no plano narrativo, equivale a ameaçar algo que parecia fora do alcance da mediação política.

Por isso, a notícia não foi lida como mudança técnica, mas como ruptura simbólica. O que estava em jogo não era apenas dinheiro, mas a ideia de que até o gesto mais banal — transferir, pagar, enviar — poderia ser observado, classificado e punido. A tecnologia, nesse caso, assume o papel clássico das narrativas contemporâneas: aquilo que prometia liberdade passa a ser percebido como instrumento de controle.

O Espetáculo Informativo

A circulação da fake news também revela uma transformação mais ampla na forma como a informação é produzida e consumida. Programas como o Pânico, da Jovem Pan, operam em uma zona híbrida, onde opinião, humor, comentário político e notícia compartilham o mesmo espaço narrativo.

O problema não está na mistura em si, mas na forma como seus produtos circulam fora do contexto original.

Quando um trecho é recortado, legendado e redistribuído nas redes, ele perde a moldura que o qualificava como comentário ou opinião. Resta apenas a performance da afirmação. A frase ganha peso de anúncio; o tom de alerta vira manchete; a especulação se converte em certeza.

Nesse regime, o medo se torna altamente performático. Ele gera engajamento, cliques, compartilhamentos. É esteticamente eficaz. A informação não precisa ser comprovada para funcionar — basta ser verossímil dentro de um clima emocional já existente.

O Desmentido

Quando o esclarecimento oficial finalmente chega, ele encontra um ambiente já saturado de sentido. A nota da Receita Federal é clara, objetiva e juridicamente sólida. Mas, do ponto de vista simbólico, ela é pouco imagética, pouco emocional, pouco compartilhável. Não produz suspense, não ativa afetos, não constrói narrativa.

O pedido de desculpas da Jovem Pan, embora necessário e correto do ponto de vista institucional, sofre do mesmo problema. Ele opera no registro administrativo, enquanto a fake news operou no registro sensorial. Um fala à razão; o outro já falou ao corpo.

Cria-se, assim, uma assimetria estrutural: o medo circula como espetáculo; a verdade circula como rodapé.

Arquétipos contemporâneos do medo

A força desse episódio não reside na mentira em si, mas nos arquétipos que ela reativa. O medo financeiro é um dos mais antigos e persistentes: ele toca na sobrevivência, na dignidade, na sensação de controle sobre o próprio tempo. Quando associado à tecnologia — especialmente a uma tecnologia cotidiana e invisível — esse medo ganha contornos ainda mais profundos.

Há aqui um imaginário recorrente da cultura contemporânea: o da vigilância difusa, sem rosto definido, sem agente claramente identificável.

Não é preciso um censor explícito; basta a sensação de que tudo pode ser monitorado. O Estado surge como entidade abstrata, não como instituição concreta, e a tecnologia assume o papel ambíguo de mediadora entre liberdade e coerção.

Esse tipo de narrativa prospera porque oferece uma explicação simples para ansiedades complexas. Ela organiza o caos, aponta um inimigo, traduz incertezas econômicas em uma história compreensível. A fake news não convence por ser sofisticada, mas por ser emocionalmente coerente com o mal-estar já existente.

O leitor dentro da engrenagem

Há, no entanto, um elemento central que raramente aparece nas análises apressadas: o leitor. Ou, mais precisamente, o participante. Ao compartilhar a informação sem verificar, não se está apenas replicando um erro factual, mas participando de uma cadeia simbólica. O gesto do compartilhamento funciona como um ato de proteção — um aviso aos outros — ainda que baseado em algo falso.

Nesse sentido, a circulação da fake news não é apenas um problema de desinformação, mas de afeto coletivo. Compartilha-se medo porque se acredita estar cuidando. O pânico, paradoxalmente, se apresenta como forma de solidariedade.

Essa dinâmica revela um deslocamento importante: a confiança deixou de ser depositada em instituições estáveis e passou a circular entre pares, mediada por fragmentos de informação. O critério não é mais a veracidade, mas a afinidade emocional.

Quando o tributo é simbólico

O imposto que nunca existiu acabou cobrando um preço real. Não em reais, mas em erosão de confiança, ruído social e desgaste do espaço público informativo. O episódio expõe um regime em que a verdade factual já não é suficiente para conter narrativas eficazes, porque disputa espaço com histórias mais rápidas, mais simples e mais sensoriais.

Nesse cenário, a informação deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser forma. Tom, encenação, ritmo e enquadramento tornam-se decisivos. Não basta estar correto; é preciso ser narrativamente competitivo. A fake news venceu temporariamente não porque era melhor informada, mas porque era melhor contada.

O tributo, afinal, existiu — mas como signo. Ele se instalou na imaginação coletiva, operou como medo, gerou reação. E, ao desaparecer juridicamente, deixou para trás uma pergunta incômoda: quem controla as formas através das quais a realidade se torna visível?

Talvez a questão central não seja como evitar que notícias falsas surjam — elas sempre surgirão —, mas como reconstruir uma cultura informativa em que a verificação também seja capaz de produzir sentido, imagem e impacto. Porque, quando o medo vira manchete, a realidade passa a correr atrás da própria sombra.

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