O título é a primeira e mais perfeita mentira. O Pacificador – duas palavras que prometem conciliação, um agente que desarma conflitos. Mas o que o filme de Mimi Leder, lançado em 1997, apresenta não é a figura do mediador, e sim do reator.
Seu protagonista, o tenente-coronel Thomas Devoe (George Clooney), não pacifica coisa alguma; ele corre, atira, intercepta e, quando necessário, executa. A “paz” que ele busca manter é um estado negativo: a ausência de uma explosão nuclear em solo americano. Esta contradição semântica não é um acidente, mas a tese central da obra.
Em um mundo recém-saído da ordem binária da Guerra Fria, onde o grande inimigo desintegrou-se, o que emerge não é a harmonia, mas um vácuo de sentido – e é nesse vazio que brota, orgânica e traumática, uma nova forma de ameaça.
O Pacificador é menos um thriller de espionagem e mais um fóssil cinematográfico de uma era de transição: o instante em que o terrorismo deixa de ser uma tática política marginal para se tornar a linguagem principal do caos pós-moderno, um monstro nascido das entranhas do próprio trauma que a guerra deixou para trás.
O Filme no Limiar do Século
O Pacificador chegou aos cinemas em setembro de 1997, um produto de alto custo (orçamento estimado em US$ 50 milhões) da DreamWorks SKG, o estúdio fundado por Spielberg, Katzenberg e Geffen que buscava seu lugar entre os gigantes de Hollywood.
A direção foi confiada a Mimi Leder, uma cineasta vinda da televisão (onde revolucionou a linguagem visual da série ER), em um momento raro em que uma mulher assumia as rédeas de um blockbuster de ação geopolítica. O roteiro, de Michael Schiffer (O Último dos Moicanos), foi polido por um elenco de peso: George Clooney, no ápice de sua fama pós-ER, e Nicole Kidman, já consagrada, encabeçavam o projeto, ao lado do romeno Marcel Iureș, que trouxe uma densidade sombria e trágica ao vilão Dušan Gavrić.
O filme foi filmado em locações que eram, elas mesmas, personagens: as ruínas reais da cidade de Sarajevo, ainda marcada pelo cerco mais longo da história moderna (1992-96), e Washington D.C., o centro do poder que tentava entender o novo mundo.
A recepção crítica na época foi morna – muitos o trataram como mais um thriller competente, mas convencional. Arrecadou cerca de US$ 110 milhões mundialmente, um desempenho sólido sem ser estrondoso. No entanto, seu verdadeiro contexto não é apenas o do mercado cinematográfico, mas o geopolítico.
Lançado após a Primeira Guerra da Chechênia (1994-96) e no rescaldo imediato do Massacre de Srebrenica (1995), O Pacificador capturou a ansiedade de uma década que, sem a lente simples da bipolaridade, via conflitos étnicos ressurgirem com uma ferocidade medieval, enquanto armas de destruição em massa da extinta URSS começavam seu preocupante périplo por mercados obscuros.
Ele não retratava uma ficção distante; espelhava as manchetes nervosas de um planeta em reconfiguração traumática.
A Anatomia de uma Crise Ficcional
A trama de O Pacificador opera com uma precisão de relógio geopolítico, e entender seus mecanismos é decifrar sua mensagem.
Um comboio militar russo transportando ogivas nucleares é emboscado nos Bálcãs. As ogivas são roubadas por Dušan Gavrić, um nacionalista sérvio radical cuja família foi morta durante a guerra. Seu plano não é um ataque militar clássico, mas um ato de terror espetacular: detonar uma das bombas em Nova York, durante um grande evento ligado às Nações Unidas, transmitindo o horror ao vivo para o mundo.
Para impedi-lo, uma força-tarefa conjunta e desconfiada é formada: o pragmático e violento tenente-coronel americano Thomas Devoe e a idealista diplomata do Conselho de Segurança da ONU, Julia Kelly (Nicole Kidman), precisam colaborar com seus antigos inimigos russos. O artefato em questão é crucial: não é uma ogiva estratégica convencional, mas uma arma nuclear reempregada de forma improvisada, concebida não para vencer uma guerra, mas para transformar a destruição em espetáculo — semear o caos absoluto e a dor como evento midiático.
A Desintegração dos Símbolos da Guerra Fria
A primeira imagem poderosa do filme é a queda de um bombardeiro estratégico russo — evocando o Tu-160, a ‘Andorinha Branca’, nas montanhas dos Bálcãs. A cena é fundadora: o símbolo máximo do poderio aéreo soviético, outrora destinado a cruzar os céus do Ártico para ameaçar o Ocidente, jaz destruído em um território esquecido.
Ele não foi abatido em combate, mas sucumbiu à desordem pós-imperial. Sua carga – as ogivas – deixa de ser um instrumento de dissuasão estatal para se tornar um objeto de pilhagem, um signo flutuante cujo significado muda radicalmente: de garantia de destruição mútua a mercadoria suprema no mercado negro do caos.
É nesse vácuo de significado que a aliança entre Devoe e os russos se constrói. Não se trata mais da oposição cristalina entre EUA e URSS, um jogo de xadrez com regras conhecidas. Agora, são parceiros incômodos, unidos pela necessidade de caçar um fantasma que é, em parte, criação do próprio colapso do mundo soviético.
O inimigo não é um Estado, mas um trauma incarnado, que usa os restos mortais do antigo sistema para assaltar o novo. A geopolítica deixa de ser um tabuleiro e se torna um campo minado, onde as próprias peças podem explodir.
A Câmera no Vácuo
Mimi Leder aplica aqui a gramática visual que a consagrou na televisão: um realismo jornalístico urgente.
A câmera, frequentemente handheld, não dança coreografadamente como em filmes de John Woo; ela corre, ofegante, atrás dos personagens pelos corredores do poder ou pelas ruínas de Sarajevo. Os planos em steadycam nos salões da ONU ou nas estações de comando criam uma claustrofobia burocrática. Mas é nos momentos de ação que a estética revela sua filosofia: o caos é filmado com clareza, não com corte frenético. O espectador sempre sabe onde estão os corpos no espaço, compreende a lógica do perigo.
A Figura do “Terrorista” como Trauma Incarnado
Dušan Gavrić, interpretado com uma intensidade silenciosa e ameaçadora por Marcel Iureș, representa uma ruptura radical com a figura do vilão da Guerra Fria. Ele não é um ideólogo frio movido por dogmas políticos abstratos, nem um megalomaníaco que busca dominar o mundo.
Gavrić é um arquétipo do luto transformado em veneno. Sua motivação nuclear é o trauma pessoal mais íntimo: a morte da esposa e da filha durante a guerra da Bósnia. Sua violência é, portanto, apresentada como uma resposta literal e distorcida a uma dor literal. Ele não preenche o vácuo ideológico deixado pela queda do Muro com um novo “ismo”, mas com um fundamentalismo do sofrimento.
A vingança não é um meio para um fim político; é o fim em si mesmo, uma cerimônia sangrenta para apaziguar um fantasma.
O Pacificador como Anti-Herói do Século XXI
Diante desse novo inimigo, o “pacificador” Thomas Devoe é uma figura tragicamente inadequada. Ele é o herói da velha guerra, um soldado de elite treinado para enfrentar um Estado, não um fantasma movido por uma dor infinita. Sua única resposta é a interceptação violenta, o ato físico de impedir o dedo de apertar o botão.
O filme, de forma quase profética, esboça a ética confusa e sombria que dominaria a “Guerra ao Terror” no século seguinte: a necessidade de realizar ações moralmente ambíguas – mentiras, assassinatos extrajudiciais, tortura – para prevenir um mal maior, abstrato e imprevisível. Devoe não triunfa; ele contém. Sua vitória é negativa, e seu rosto ao final não é de alívio, mas de exaustão e dúvida.
Nicole Kidman, como a diplomata Julia Kelly, representa a outra falha do sistema: a razão legalista e o direito internacional. Ela acredita em protocolos, em autorizações do Conselho de Segurança, em processos. O filme a coloca em um jogo cruel, mostrando como essas ferramentas são lentas, burocráticas e impotentes diante da urgência brutal de um homem com uma bomba. Sua falha não é pessoal, é sistêmica.
Ela simboliza um mundo que ainda tenta operar com as regras do século XX diante de uma ameaça do século XXI.
A pergunta central que O Pacificador formula, mas não responde de forma consoladora, é: como se negocia com uma lógica que não busca poder no sentido clássico (território, influência), mas a realização cerimonial da vingança?
O filme sugere que não há negociação possível. Só existe o contra-ataque físico, a corrida desesperada para desarmar o artefato antes que o relógio do trauma atinja zero. É uma visão profundamente pessimista. O novo século seria governado por corridas contra o tempo, onde o herói é apenas aquele que chega um segundo antes da catástrofe.
Conclusão: O Eco no Vácuo
O Pacificador não ocupa, e talvez nunca ocupe, um lugar no panteão dos grandes filmes de arte do século XX. Suas virtudes são as de um documento semiótico agudo, não as de uma obra-prima atemporal. Seu valor reside precisamente em sua natureza de diagnóstico febril, capturado no calor do momento de uma transição histórica que nem mesmo seus criadores compreendiam totalmente.
O filme mapeia a ansiedade de um planeta que, ao perder o roteiro binário da Guerra Fria, se viu assombrado por um espectro mais assustador: o do próprio caos como força histórica autônoma, alimentada por traumas passados e amplificada pela mídia global.
O legado que ele antecipa – o terror como espetáculo traumático, a impotência das instituições – tornou-se, infelizmente, a paisagem familiar do século XXI. Em 1997, ele podia ser lido como um thriller competente. Visto hoje, é um prólogo escrito em letras de fogo.
Por Que (ou Por Que Não) Assistir a O Pacificador Hoje?
Assistir a O Pacificador em 2026 é uma experiência arqueológica peculiar.
Deve-se assisti-lo não por sua perfeição cinematográfica, que é irregular, mas por sua acuidade sintomática. Ele é um filme-ponte, um fóssil que mostra o exato momento em que o imaginário do terror global migrou das ficções da Guerra Fria para a lógica do trauma que hoje nos é tão familiar. É um artefato indispensável para entender como o cinema processou, em tempo quase real, o nascimento de um novo mundo assustador.
Por outro lado, pode-se evitar o filme se se busca apenas entretenimento ágil ou uma narrativa heroicamente resolvida. Seu ritmo é por vezes burocrático, alguns diálogos soam datados, e a resolução, embora tensa, opera dentro de uma lógica convencional de thriller.
A verdadeira profundidade de O Pacificador não está na superfície de sua trama, mas nas sombras que ela projeta. Ele é, acima de tudo, um espelho retrovisor que reflete, com assustadora clareza, o ponto de virada onde nos perdemos – e a partir do qual ainda estamos tentando mapear o caminho.
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.