O verdadeiro horror, aquele que se aloja nas pregas do inconsciente, raramente tem rosto. Ele é fluido, insinuante, capaz de se contorcer por frestas que a lógica julga impenetráveis. Em 1998, em um lançamento de salas rapidamente esquecido e posteriormente redescoberto no home video, o diretor Stephen Sommers, às vésperas de revolucionar o blockbuster de aventura com A Múmia, ofereceu uma imagem perfeita para esse medo arquetípico: um tentáculo.
Não um monstro inteiro, com biografia e motivações, mas sua extensão anônima e multiplicada. Tentáculos (Deep Rising), mais do que um simples filme-catástrofe com criatura marinha, é um artefato cultural sintomático. Ele opera na tensão entre a ambição tecnológica do final do século XX e o retorno de um pânico atávico. E a natureza, perturbada em seu sono abissal, responde não com um rugido, mas com um estrangulamento silencioso e úmido.
Analisar esta obra é, portanto, decifrar como o “trash” e o banal podem, em sua linguagem própria, encapsular uma poderosa alegoria sobre a arrogância humana e o caráter informe do verdadeiro trauma.
História do Filme
O ano é 1998.
O cinema comercial respira os últimos suspiros de uma era. Os filmes-catástrofe tradicionais, como Twister (1996) e Inferno de Dante (1997), ainda ecoam nas bilheterias, mas um novo paradigma se anuncia: Armageddon e O Impacto Profundo, lançados no mesmo ano, elevam a escala de destruição ao cosmos, dependendo massivamente de uma CGI ainda em adolescência.
Neste terreno de ninguém, entre o prático e o digital, entre o catástrofe “natural” e a ficção científica, Tentáculos (estreou em 30 de janeiro) emerge como um produto híbrido e peculiar, financiado com um orçamento modesto (estimado entre 45 e 65 milhões de dólares, valor considerável mas distante dos super blockbusters da época).
Elenco e Criação
O filme apostou em um elenco peculiar, centrado na versatilidade de Treat Williams, que performa o herói cínico, John Finnegan. Ao seu lado, Famke Janssen traz o charme em ascensão, e figuras marcantes como Wes Studi e Kevin J. O’Connor compõem o grupo de sobreviventes. A ausência de grandes estrelas hollywoodianas reforça o status do projeto como um produto de gênero destinado ao mercado de vídeo, dependendo mais do conceito e do ritmo do que do apelo de seus atores.
A direção ficou com Stephen Sommers, um cineasta que até então navegava no infantil (The Adventures of Huck Finn) e (O Livro da Selva), buscando uma assinatura própria.
O processo criativo, conforme entrevistas da época, era claramente um laboratório para Sommers. Ele mesmo escreveu o roteiro, uma pastiche deliberado de lugares-comuns: um grupo de mercenários tenta assaltar um luxuoso transatlântico em sua viagem inaugural, apenas para descobrir que o navio foi tomado por uma criatura abissal de múltiplos tentáculos.
A inspiração confessada vinha dos monstros marinhos dos filmes B dos anos 50 e do cinema de creature features, mas com uma ambição técnica de fim de século. Os efeitos, entregues à recém-consolidada Industrial Light & Magic (ILM), misturavam maquetes práticas sofisticadas do navio com a então incipiente animação digital para os tentáculos – uma fusão que, vista hoje, marca o último suspiro de uma artesania física antes da hegemonia total do pixel.
Recepção
A recepção crítica foi, na melhor das hipóteses, morna, e na pior, inexistente.
Muitos grandes veículos simplesmente ignoraram seu lançamento direto para vídeo. Quando notado, foi tratado como entretenimento descartável, um “filme de criatura” competente mas sem maior profundidade. O público, no entanto, começou a cultivá-lo em sessões de home video e matinês televisivas, encontrando em suas falhas de CGI e em seu ritmo desenfreado um charme peculiar.
Tentáculos não foi um fenômeno, mas sedimentou-se como um item de culto, uma pedra fundamental no caminho que levaria Sommers, apenas um ano depois, ao estrondoso sucesso de A Múmia, onde ele refinaria essa mesma fórmula de ação, horror e humor com um orçamento muito mais robusto e confiança plena.
A Anatomia de uma Criatura
O transatlântico Argonautica, maior e mais luxuoso do mundo, é atacado em sua viagem inaugural.
A ameaça é uma criatura abissal inspirada na lula gigante (Architeuthis), ampliada a proporções monstruosas, com dezenas de tentáculos dotados de ventosas e um bico central capaz de triturar aço. A criatura, despertada por testes nucleares no fundo do mar, não começa suas vítimas: dissolve-as internamente com uma enzima para depois sugar o líquido resultante.
A solução final dos protagonistas é tão prosaica quanto letal: atrair a criatura para dentro do navio e destruí-lo em uma explosão final
Forma sem Forma, Ataque sem Rosto
O poder perturbador de Tentáculos reside na escolha de seu antagonista.
Diferente de Godzilla ou King Kong, monstros com fisionomia, presença e quase uma tragédia pessoal, a criatura aqui é essencialmente anônima. Vemos suas partes, nunca seu todo.
O tentáculo, como signo, é a antítese da forma humana – não tem braços definidos, não tem rosto, não tem um centro único a ser atingido. Ele é pura extensão, uma ameaça distribuída e líquida. Na cena seminal do ataque ao barco dos mercenários, o horror não vem de uma investida frontal, mas de uma invasão simultânea por múltiplos pontos.
Tentáculos irrompem pelo teto, pelas janelas, pelo piso, transformando o espaço seguro em um labirinto de membros constritores. Não há linha de frente, não há retaguarda. O medo é da perda de coordenadas, do ataque que pode vir de qualquer direção porque é, ele mesmo, multidirecional.
O Corpo Violado: A Estética da Invasão e da Perda de Controle
Sommers traduz essa semiótica em uma estética visceral e específica.
A câmera frequentemente adota um ponto de vista baixo, quase rastejante, ou se transforma no próprio tentáculo, avançando em tracking shots agressivos pelos corredores do navio. O som design é crucial: o ruído úmido das ventosas se agarrando ao metal, o estalido do bico, o som de esmagamento de ossos e o silvo da enzima dissolvente criam uma textura auditiva de digestão.
A violência não é clean ou heroica. Quando um tentáculo captura uma vítima, o corpo humano é envolvido, constrito, penetrado (numa clara metáfora sexual invertida) e depois reduzido a um saco de líquido. É uma negação da morte em combate. O humano não é derrotado; é processado, convertido em nutriente por uma biologia incompreensível.
O contraste é gritante: os mercenários estão equipados com armas de alto calibre, sonares e tecnologia de ponta. O monstro responde com ventosas, força bruta e ácido. A supremacia tecnológica esbarra em uma eficiência biológica primordial e absolutamente avassaladora.
Stephen Sommers como Autor de Atração: Do “Trash” ao Blockbuster
Tentáculos funciona como um laboratório a céu aberto para a assinatura que consagraria Sommers.
Aqui, vemos em estágio bruto seus principais elementos: o ritmo frenético que não concede pausas para respiro, a mistura de gêneros (terror corporal, comédia de ação, aventura marítima) e, sobretudo, as “set pieces” de destruição criativa.
O navio Argonautica não é apenas um cenário, é um playground gigante para a criatura demolir. Salões de baile e cassinos são sistematicamente desmontados pelos tentáculos. O olhar da câmera de Sommers não é o de um investigador que desvenda o mistério, mas o de um espectador investigado pelo caos.
O que em Tentáculos pode soar como efeitos especiais limitados ou um roteiro repleto de clichês (“Nós afundamos o barco errado!”), em A Múmia será refinado e elevado à potência máxima, transformando falhas em estilo.
A lição que Sommers aprendeu aqui, e que aplicaria com maestria depois, é que o público aceita a lógica interna do absurdo, desde que o espetáculo seja entregue com energia contagiante e um certo olho para o detalhe físico – mesmo que digital.
A Alegoria do Reprimido: Natureza vs. Arrogância Tecnocientífica
Para além do entretenimento pulsante, Tentáculos esconde, em suas entranhas de filme B, uma alegoria potente sobre o fim do século XX. A criatura não surge do nada; é despertada por testes nucleares subterrâneos. Ela é, portanto, a materialização de um retorno do reprimido. A arrogância tecno-científica humana, que acredita poder perfurar e bombardear as profundezas impunemente, gera o seu próprio sintoma monstruoso.
O monstro é a Natureza respondendo, como uma força incomensurável, antiga e indiferente, que processa a civilização como mero biomassa.
O transatlântico Argonautica, ápice do luxo e da engenharia humana, torna-se o estômago de uma digestão cósmica. Esta não é uma narrativa de conservação, mas de punição. O filme captura, de forma quase inconsciente, a ansiedade ecológica de uma era que começava a entender as consequências de suas ações, mas ainda as visualizava através da lente cataclísmica do cinema de gênero.
O horror não está no desconhecido, mas no conhecido que foi perturbado e voltou transformado em pesadelo.
Tentáculos sobrevive e fascina não apesar de suas imperfeições, mas, de certa forma, por causa delas.
Sua CGI hesitante e seu roteiro cheio de convenções são a tela crua sobre a qual se projeta a potência pura de seu signo central: o tentáculo como metáfora do medo líquido, do trauma sem rosto, da retaliação ambiental informe. Stephen Sommers, neste laboratório, aprendeu a linguagem do espetáculo que o consagraria.
O filme é a ponte entre a artesania dos monstros práticos e a fluidez digital dos que estariam por vir. Ele nos lembra que, antes de os monstros ganharem complexidade psicológica e motivações simpáticas, eles existiam como funções puras: a função de aterrorizar, de esmagar, de devorar.
Em um mundo cultural onde o horror é cada vez mais codificado e narrativizado, há uma verdade arquetípica perturbadora na simplicidade brutal e na lógica digestiva do monstro de Tentáculos. Ele não quer conversar. Só quer sugar.
Por Que Assistir (ou Não) a “Tentáculos” Hoje?
Assistir a Tentáculos é uma experiência arqueológica do entretenimento popular.
Para o espectador que busca um cinema de ideias complexas e personagens profundos, o filme será um exercício de frustração. Seu roteiro é funcional, seus diálogos são descartáveis e seu desfecho é previsível.
No entanto, para quem se interessa pela história material do cinema, pelo processo criativo e pela semiótica do horror, é uma mina de ouro. É a chave para entender a evolução de Stephen Sommers e a transição de uma era de efeitos especiais para outra.
É um estudo de caso sobre como um conceito visual poderoso pode sustentar um longa-metragem e encapsular os medos de seu tempo.
Recomenda-se vê-lo com os olhos do semiologista, não do crítico literário. Aprecie a eficácia de suas sequências de ação, a inventividade de sua criatura prática. E também a forma quase primitiva como ele traduz ansiedades coletivas em puro cinema de atração.
É um filme para ser pensado, mas não necessariamente levado a sério.
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.