Lei Rouanet: o que é de verdade (e por que o cinema vira alvo fácil)

Por que a Lei Rouanet virou palavrão no Brasil

Você já percebeu como a expressão “Lei Rouanet” virou um gatilho?
Basta alguém mencionar e a discussão desaba no mesmo roteiro: de um lado “defensores da cultura”, do outro “caçadores de mamata”. Quase ninguém para para fazer o básico: entender.

E aqui está o ponto incômodo: essa briga raramente é sobre a lei. É sobre o que ela representa.

Quando a palavra “Rouanet” é citada, muitas pessoas não reagem com pensamento — reagem com reflexo. E reflexo não nasce do nada: nasce de narrativas repetidas até virarem senso comum.

O cinema, nesse cenário, vira alvo perfeito. Por quê? Porque é visível, popular e tem rosto. Escândalo precisa de rosto. E filme entrega isso pronto.


O que a Lei Rouanet realmente é (sem rodeios e sem truques)

A Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991) é uma política de incentivo à cultura baseada principalmente em renúncia fiscal.

Na prática:

  • um projeto cultural é apresentado;
  • se for aprovado, ele pode captar patrocínio;
  • quem patrocina pode abater parte do imposto, dentro de regras.

Isso é importante: não é um “Pix do governo” para artista. É um mecanismo legal, com análise, limites e prestação de contas.

Sim: existem distorções, concentração e falhas. Mas o debate vira guerra por um motivo simples: é mais fácil ter raiva do que ter clareza.


Lei do Audiovisual e Lei Rouanet: o cinema usa qual?

Aqui entra uma correção essencial:

Muita gente pensa que cinema só usa Lei do Audiovisual — e faz sentido, porque ela é específica do setor.
Mas a verdade é:

  • o audiovisual tem mecanismos próprios, como a Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993);
  • e, dependendo do projeto, o cinema/audiovisual também pode estar dentro da Lei Rouanet.

Ou seja: não é “Rouanet ou Audiovisual” como se fosse uma guerra.
São instrumentos diferentes, com usos diferentes — e muitas vezes complementares dentro do ecossistema cultural.


Quem paga a conta: governo, empresas ou você?

A pergunta que decide se o debate vai ser sério ou emocional é essa.

A resposta correta é:

  • o Estado abre mão de parte do imposto (renúncia fiscal);
  • empresas/pessoas destinam esse recurso a projetos aprovados.

Então sim: há interesse público, porque envolve política fiscal. Mas isso não autoriza o salto lógico infantil de:

“Se tem incentivo fiscal, então estão roubando dinheiro do povo.”

Nem tudo que te irrita é corrupção. Às vezes é só você reagindo a uma imagem mental construída pra te irritar.

E aqui vem a pergunta que desmonta o teatro:

Se incentivos fiscais para cultura são “absurdos”, por que outros incentivos fiscais bilionários passam quase despercebidos?

Percebe? O problema nem sempre é o imposto. É o símbolo.


Como um filme entra no incentivo (e por que não é “dinheiro fácil”)

O cinema vira alvo porque parece glamour. Mas cinema é trabalho. Muito trabalho.

Um filme envolve:

  • roteiro e pré-produção
  • equipe técnica
  • equipamentos, locações
  • transporte, alimentação
  • edição, som, finalização
  • divulgação e distribuição

No fim, cinema é também indústria — cadeia produtiva. E cadeia produtiva tem uma coisa que o Brasil finge esquecer quando convém: empregos.

A narrativa do “dinheiro fácil” vive de um truque: mostrar só a ponta visível (celebridade) e esconder todo o resto (trabalhadores).


A semiótica do escândalo: como nasce o mito da “mamata”

Aqui entra a parte mais importante: a polêmica é fabricada.

O roteiro do escândalo costuma ser assim:

  1. escolhe um tema que já irrita (imposto + desigualdade);
  2. escolhe um alvo com imagem forte (artista conhecido);
  3. cola uma palavra-arma (mamata, privilégio, esquema);
  4. corta detalhes técnicos;
  5. repete até virar “verdade”.

A semiótica explica: quando uma palavra vira gatilho, ela deixa de informar e passa a programar comportamento. A pessoa não pensa. Ela reage.

Lei Rouanet vira signo de injustiça social.

Mas muitas vezes isso é uma armadilha: você acha que está combatendo privilégio, mas está apenas repetindo um enredo pronto.


Por que o cinema apanha mais que outras artes

Cinema é vitrine. É imagem. É trailer. E mídia.

Um projeto cultural local quase nunca vira escândalo.
Um filme com nome conhecido vira.

Porque o cinema dá o que o “linchamento simbólico” precisa: um rosto para odiar.

E o Brasil, quando decide odiar, é cruel e seletivo:

  • se o artista é desconhecido, “não faz nada”
  • se fica conhecido, “virou elite”
  • se recebe incentivo, “é mamateiro”

O alvo muda. O ódio fica.


O problema real: concentração e o efeito “sempre os mesmos”

Agora sim: o debate sério.

A crítica mais consistente à Lei Rouanet não é “se existe ou não”.

É: quem acessa?

Há problemas reais como:

  • concentração regional (eixo mais rico);
  • maior facilidade para projetos com visibilidade;
  • mercado favorecendo quem já tem estrutura.

Em outras palavras: a lei pode reproduzir desigualdades.

Isso precisa ser dito com honestidade, porque dá um tapa nos dois lados:

  • quem defende como se fosse perfeita está blindando falhas
  • quem ataca como se fosse “roubo” está vendendo ficção

O mecanismo tem utilidade — e tem distorções.
E discutir isso com maturidade é raro… porque dá menos ibope.


E se a Lei Rouanet acabasse amanhã?

A promessa parece tentadora: “acabou a mamata”.

Mas a realidade seria outra.

Se a Lei Rouanet acabasse do dia para a noite:

  • muitos projetos médios e pequenos morreriam;
  • iniciativas culturais perderiam fôlego;
  • o mercado passaria a decidir quase tudo;
  • e cultura viraria ainda mais “produto de retorno rápido”.

E aí a pergunta fica desconfortável:

você quer viver num país em que cultura só existe quando dá lucro imediato?

Porque isso cria um país de fórmulas.
E fórmula não é cultura: é repetição com maquiagem.


O que você pode fazer como leitor (sem cair em narrativas prontas)

Da próxima vez que te jogarem “Lei Rouanet” como isca, teste com 5 perguntas:

  • “Você sabe o que é renúncia fiscal?”
  • “Você sabe a diferença entre aprovação e captação?”
  • “Você tem fonte ou só print?”
  • “Você está criticando o mecanismo ou humilhando o artista?”
  • “Você quer entender ou quer vencer discussão?”

Essas perguntas fazem um milagre: elas quebram a propaganda.

Porque propaganda odeia o leitor que pensa.


Conclusão: a briga não é sobre a lei. É sobre o que ela significa

A discussão da Lei Rouanet revela algo maior:
o Brasil prefere um vilão do que um debate sério.

E isso é perigoso.

Quando um termo vira insulto, ele deixa de informar e passa a controlar. E quem controla o sentido de uma palavra controla o comportamento coletivo.

Então, sim: critique a lei. Mas critique com dados.
Defenda, mas com transparência.

E, acima de tudo, desconfie da indignação automática — porque ela raramente é espontânea.

A pergunta final não é “quem ganhou”.

É:

quem te ensinou a odiar isso?
E por quê?

Talvez você queira ver...

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