Há algo de profundamente moderno — e ao mesmo tempo assustador — na forma como tragédias reais são transformadas em “momentos de TV”. Não basta que uma pessoa tenha se perdido numa montanha, nem que a história tenha mobilizado buscas, medo, exaustão e risco. Para o ecossistema midiático contemporâneo, sempre falta um ingrediente: o fechamento narrativo, o “arco completo”, o final digno de novela. A vida precisa caber num episódio.
E foi exatamente isso o que aconteceu quando o Fantástico exibiu o reencontro entre Roberto Farias Tomaz e Thayane Smith, duas figuras centrais do caso que repercutiu após o jovem se perder durante uma trilha no Pico Paraná, na Região Metropolitana de Curitiba. O programa apresentou a cena como “reparação” e “humanização”. Mas, se olharmos com alguma frieza, percebemos um mecanismo conhecido: o espetáculo do desastre, cuidadosamente embalado como emoção pública.
Este artigo não pretende desumanizar ninguém — muito pelo contrário. O foco aqui é revelar como a mídia organiza a realidade para que a realidade vire produto.
O caso do Pico Paraná: um fato humano com consequências reais
Vamos deixar claro: não se trata de “uma historinha”.
O caso envolve uma situação de risco físico e psicológico numa área que pode se tornar hostil rapidamente. O Pico Paraná, ponto mais alto do Sul do Brasil, é conhecido por atrair trilheiros e aventureiros — e também por exigir preparo. Condições climáticas mudam, a trilha pode confundir, a visibilidade cai, o corpo cansa e as decisões ficam erráticas.
No centro da história: Roberto Farias Tomaz, que acabou desaparecendo/perdido durante a atividade, e Thayane Smith, sua parceira de trilha, que passou a ser atacada nas redes por supostamente “tê-lo deixado para trás”. O episódio atingiu um grau de viralização típico do nosso tempo: não era só preocupação; era julgamento. Um julgamento com plateia.
Quando o Fantástico decide retornar ao caso, ele não retorna apenas por “relevância jornalística”. Retorna porque percebe um material raro: um drama real com personagens disponíveis e uma audiência predisposta à catarse.
O Fantástico e a dramaturgia do real: jornalismo ou “capítulo de domingo”?
O Fantástico tem uma tradição forte na TV brasileira: ele transita entre reportagem, entretenimento e espetáculo. Isso não é um “defeito”: é o DNA do formato. O problema é que, quando esse DNA encontra tragédias humanas, ele faz o que sempre fez — mas com efeitos colaterais.
A matéria do reencontro não funciona como simples reportagem. Ela opera como:
- introdução (recapitulação do drama)
- clímax (o reencontro e a fala esperada)
- desfecho (a “lição”, a emoção, o alívio)
É por isso que o episódio parece um “roteiro”. E é por isso que o público assiste como quem assiste a um arco moral: quem errou? quem é culpado? quem merece perdão?
Essa estrutura é típica daquilo que poderíamos chamar de televisão de reconciliação: a mídia se coloca como palco do perdão, como se o perdão precisasse ser mostrado para existir.
“Desculpa por ter deixado você pra trás”: a frase como símbolo e como produto
A frase atribuída à Thayane Smith — “desculpa por ter deixado você pra trás” — é um artefato perfeito para a TV. Ela tem tudo o que um editor procura:
- é curta;
- é emocional;
- é moral;
- é facilmente compartilhável;
- funciona como legenda, thumbnail e manchete.
A frase não é apenas uma fala. Ela vira símbolo.
Na semiótica, símbolos são poderosos porque condensam histórias complexas em um único signo. Em poucos segundos, o público entende: havia culpa; agora há desculpa; haverá redenção.
Mas a vida real raramente funciona assim.
Porque “deixar pra trás” pode significar muitas coisas — desde um ato irresponsável até um conjunto de decisões tomadas sob estresse, cansaço e insegurança. O programa, porém, não tem tempo (nem interesse) em discutir o cinza. A TV trabalha melhor com preto e branco.
E aqui está um dos pontos mais delicados: ao transformar a frase em “chave emocional”, o programa não apenas comunica um fato — ele fabrica um encerramento.
A audiência como tribunal: quando as redes sociais decidem antes da reportagem
Um dos elementos mais brutais desse tipo de caso é a forma como a internet age: não é uma plateia passiva. É um júri.
O que acontece é quase sempre o mesmo:
- um recorte do fato viraliza;
- surge a narrativa de vítima e vilão;
- o público “resolve” a história;
- a mídia entra para organizar o “episódio final”.
O tribunal digital não quer entender. Ele quer punir, expor, humilhar, “educar”. O ataque público não é um acidente do sistema: é o sistema funcionando.
E o Fantástico, ao trazer os dois personagens para um reencontro, faz algo bastante moderno: ele não só noticia o tribunal — ele capitaliza o tribunal, oferecendo uma cena que funciona como sentença emocional.
A audiência assiste e pensa: “agora sim, justiça”.
O mecanismo do desastre: como a tragédia vira conteúdo (e o conteúdo vira lucro)
Aqui vale chamar o fenômeno pelo nome: economia da atenção.
No mundo da TV (e principalmente no mundo digital), tragédia tem vantagens competitivas:
- prende o público;
- ativa instintos (medo, raiva, empatia);
- gera comentários;
- gera compartilhamento;
- cria personagens instantâneos.
O que a mídia faz é transformar o evento em uma narrativa com valor de entretenimento. E esse valor é monetizado de várias formas: audiência, publicidade, relevância social, repercussão, posição de autoridade moral.
Esse é o mecanismo do desastre:
- acontece um fato extremo (perda, risco, desaparecimento)
- o fato vira história (com protagonista e antagonista)
- a história vira disputa moral (culpa e inocência)
- a disputa vira audiência
- a audiência exige fechamento
- o fechamento vira espetáculo
Nada disso exige má intenção individual. Basta o sistema funcionando.
A tragédia não precisa ser inventada. Ela só precisa ser editada.
Pico Paraná: a montanha como cenário mítico e o corpo como prova
Outro detalhe semiótico importante: a montanha não é só um lugar. Ela é um símbolo cultural.
O Pico Paraná, no imaginário, é:
- desafio;
- risco;
- grandeza;
- limite;
- “a natureza que coloca o ser humano no lugar”.
Isso ajuda a transformar o caso em mito contemporâneo: o jovem perdido “contra a montanha”, a parceira sob julgamento, a comunidade mobilizada, o retorno, o reencontro.
E quando o Fantástico filma isso, ele amplia o sentido simbólico. A montanha vira cenário de epopeia. O corpo cansado vira prova moral. O desaparecimento vira drama.
A TV, nesse sentido, não registra: consagra.
O reencontro como catarse: por que o público precisa ver?
A pergunta mais incômoda é simples:
Por que nós precisamos assistir ao reencontro?
Do ponto de vista humano, uma conversa privada seria suficiente. Do ponto de vista ético, talvez fosse até preferível. Mas do ponto de vista midiático, a reconciliação precisa de plateia — porque a plateia participou do linchamento.
É como se o público tivesse direito ao encerramento porque o público investiu emoção, raiva e opinião. É como se a vida real fosse uma narrativa coletiva, e as pessoas envolvidas tivessem a obrigação de oferecer “explicações” e “fechamento”.
Essa é uma forma de violência suave. Não física. Simbólica.
Conclusão: o que aprendemos quando o desastre vira espetáculo?
No fim, o reencontro entre Roberto Farias Tomaz e Thayane Smith pode ser sincero. Pode ser necessário. Pode ser terapêutico. E pode ser tudo isso ao mesmo tempo.
Mas uma coisa precisa ser dita com clareza: quando a TV transforma esse reencontro em “momento”, ela não está apenas mostrando a vida — ela está reformatando a vida para caber na lógica do programa.
O espetáculo do desastre funciona assim:
- ele promete esclarecimento,
- entrega emoção,
- e organiza o caos como se o caos fosse um roteiro.
E talvez a pergunta final seja a mais importante:
quando foi que nós passamos a exigir que a dor viesse com edição, trilha e conclusão?
Porque a tragédia, na vida real, quase nunca termina em abraço. E mesmo quando termina, talvez ela não precise — nem de palco, nem de audiência — para ser verdadeira.
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.