A era da opinião cruel: por que ofender virou linguagem nas redes

A notícia parecia apenas mais uma: Quentin Tarantino atacou a atuação de Paul Dano em Sangue Negro; George Clooney respondeu com uma frase quase paternal, mas certeira, sobre vivermos “uma época de crueldade” e não precisarmos adicionar mais. O ciclo estava completo: comentário, reação, repercussão, torcida.

Mas talvez o valor do episódio não esteja na treta em si — e sim no que ela revela. Hoje, a opinião pública já não se comporta como crítica. Ela se comporta como espetáculo. E como todo espetáculo que busca audiência, precisa de um ingrediente central: impacto. Se possível, humilhação.

O que está em jogo, portanto, não é o que Tarantino pensa de Dano, nem se Clooney está certo ou errado. O que interessa é o pano de fundo: por que a cultura digital parece exigir que a fala venha acompanhada de sangue?


O palco invisível onde todo mundo atua

As redes sociais criaram uma ilusão democrática irresistível: todos podem falar. E isso, em si, é poderoso. O problema é que elas também criaram um ambiente onde falar não basta — é preciso performar.

A opinião deixou de ser um gesto íntimo, uma elaboração lenta, um “talvez”. No ambiente digital, a fala só se torna visível se cumprir um requisito técnico: gerar reação. E a reação mais fácil de produzir não é admiração; é indignação.

Por isso, o modelo ideal de discurso nas redes não é o argumento — é o golpe. A frase que atravessa. A sentença que humilha. O corte que vira clipe. A ironia que organiza uma multidão.

Nesse cenário, a crítica tradicional — aquela que investiga, compara, contextualiza — perde espaço. Ela é longa demais para o feed. Complexa demais para o algoritmo. Contida demais para uma cultura que confunde contundência com agressividade.


Da crítica ao prazer do escárnio

Há um deslocamento silencioso acontecendo: opinião virou arma social.

Quando alguém critica uma obra, uma performance ou uma decisão, o esperado seria um mínimo de cuidado: “o que está sendo avaliado?”, “com quais critérios?”, “em comparação com o quê?”. Isso é crítica: uma tentativa de compreender e julgar com base em parâmetros.

Mas o que frequentemente aparece no lugar disso é outra coisa: uma forma de linguagem cujo objetivo não é avaliar, mas reduzir. Diminuir o outro. Tirar-lhe o valor. Transformá-lo em meme.

Esse tipo de comunicação tem uma estética própria: deboche, desprezo, rótulos. Ela não quer iluminar a obra; quer apagar o autor. Ela não quer examinar a arte; quer ferir a pessoa.

E aqui surge uma confusão que está virando regra: as pessoas passaram a chamar de “sinceridade” aquilo que é, muitas vezes, sadismo social.

A lógica é perversa e funcional:

  • se você fala com cuidado, dizem que você é “passivo” ou “isentão”;
  • se você fala com agressividade, dizem que você é “autêntico”;
  • se você destrói alguém com uma frase cruel, você vira “corajoso”.

Nesse ecossistema, a crueldade não é um desvio. Ela é uma estratégia.


Por que ofender dá engajamento? A economia emocional

As redes são uma arquitetura de atenção. E a atenção é um recurso finito. Então, o debate virou uma disputa por visibilidade.

O algoritmo não mede sabedoria. Ele mede movimento: comentários, compartilhamentos, tempo de retenção. Não importa se as pessoas concordam com você; importa que elas reajam. Em termos práticos, uma frase injusta pode ser mais lucrativa do que um texto honesto.

É por isso que o tom agressivo cresce:

  • Ele cria polarização.
  • Ele divide em times.
  • Ele convoca defesa e ataque.
  • Ele acelera a conversa, mas empobrece o pensamento.

A indignação é rápida. A nuance exige tempo. E tempo é exatamente o que o feed não permite.

Existe ainda um fator humano: o prazer do escárnio. O riso coletivo tem poder de pertencimento. Ele cria comunidade. Não necessariamente uma comunidade ética — mas uma comunidade emocional.

Ao ridicularizar alguém publicamente, a massa sente que participa de algo. Sente que tem julgamento, autoridade, influência. O escárnio vira um ritual: “olhem, nós sabemos quem merece respeito e quem merece ser reduzido”.


A crueldade como sintoma de vazio

O que está por trás dessa fome de humilhação?

Uma hipótese filosófica (e incômoda) é que vivemos uma época de fragilidade subjetiva. As pessoas estão mais inseguras, mais ansiosas, mais isoladas. E, em tempos assim, destruir o outro pode oferecer uma sensação momentânea de controle.

A humilhação pública funciona como um narcótico:

  • ela dá a ilusão de superioridade;
  • substitui reflexão por “certeza”;
  • oferece catarse sem responsabilidade.

Nietzsche falava do ressentimento como uma força que transforma a impotência em moralidade: “não consigo, então condeno”. No universo digital, isso se atualiza: não consigo suportar a complexidade, então simplifico; não consigo argumentar, então ridicularizo.

Hannah Arendt alertava sobre a banalidade do mal não como monstrosidade, mas como rotina. E talvez seja isso que assusta na cultura de hoje: a crueldade não aparece como exceção. Ela aparece como brincadeira. Como entretenimento. Como hábito.

Ser cruel, agora, é socialmente permitido — desde que seja engraçado, viral e “sem filtro”.

E aí entra um ponto fundamental: a linguagem molda a ética. Quando a crueldade vira linguagem normal, ela se instala na cultura como valor. Passa a ser admirada, replicada e desejada. E com o tempo, deixa de chocar.

A perda aqui não é só moral — é estética e intelectual. Porque onde a crueldade impera, a complexidade morre. E sem complexidade, a arte, o pensamento e o debate público viram caricatura.


Conclusão: existe coragem sem crueldade

O embate entre Clooney e Tarantino pode ser lido como algo maior do que celebridades trocando farpas. Ele é um microcosmo de uma tensão contemporânea: a disputa entre a fala como reflexão e a fala como arma.

Não se trata de defender delicadeza artificial, nem de proibir crítica dura. A crítica pode e deve ser firme. Mas firmeza é diferente de humilhação. Coragem é diferente de crueldade.

Talvez o verdadeiro gesto de maturidade cultural seja reaprender o que deveria ser óbvio: é possível discordar com inteligência, criticar com rigor e ser contundente sem destruir o outro.

Porque quando ofender se torna linguagem — e humilhar se torna entretenimento — a sociedade não fica mais livre. Ela fica mais pobre.

E, no fim, nem é sobre Tarantino. Nem sobre Clooney. É sobre nós: a plateia que ri quando alguém sangra, e depois chama isso de opinião.

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