Ensaio sobre a Cegueira: análise do livro e do filme (Saramago e Fernando Meirelles)

Aviso: este artigo discute cenas de violência sexual presentes na obra.

Quando José Saramago publicou Ensaio sobre a Cegueira em 1995, dificilmente imaginaria o impacto duradouro que sua alegoria sobre a fragilidade humana teria nas décadas seguintes. Em 2008, treze anos depois, o cineasta brasileiro Fernando Meirelles aceitou o desafio de transpor para as telas uma narrativa considerada por muitos como “inadaptável”.

O resultado foi uma obra cinematográfica que, embora fiel à essência do texto original, estabelece sua própria linguagem visual para explorar a metáfora da cegueira branca. Este artigo propõe uma análise crítica e semiótica comparativa entre o romance e sua adaptação cinematográfica, investigando como cada meio traduz a mesma história por meio de seus próprios códigos narrativos.

Neste artigo você vai entender como a “cegueira branca” funciona como metáfora social no livro e como Fernando Meirelles transforma essa ideia em linguagem visual, comparando escolhas estéticas, simbologia e recepção crítica.

Resumo em 5 pontos

  • A cegueira branca simboliza excesso de luz/informação sem compreensão ética
  • O filme transforma reflexão filosófica em experiência sensorial e visual
  • O manicômio é signo da falência institucional e da política do abandono
  • A degradação corporal vira linguagem cinematográfica (arte + câmera + luz)
  • A obra se renova como alegoria social no mundo pós-pandemia

O desafio de adaptar Saramago

José Saramago, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, desenvolveu um estilo narrativo único, caracterizado por parágrafos extensos, diálogos sem travessões e uma pontuação que desafia convenções. Sua prosa densa e filosófica apresenta um desafio formidável para qualquer adaptação audiovisual. Como traduzir para a linguagem cinematográfica uma obra que se constrói fundamentalmente através da palavra escrita e de reflexões interiores?

Fernando Meirelles, já reconhecido internacionalmente por “Cidade de Deus” (2002), enfrentou este desafio com uma abordagem que privilegia a experiência sensorial. O diretor brasileiro compreendeu que não poderia simplesmente ilustrar o livro, mas precisaria encontrar equivalentes visuais para a riqueza narrativa de Saramago.

A obra literária narra a história de uma epidemia de “cegueira branca” que atinge uma cidade não identificada. As autoridades isolam os primeiros infectados em um manicômio abandonado, onde rapidamente se estabelece um microcosmo da sociedade em colapso. Entre os internos, apenas uma mulher – a esposa de um médico – mantém a visão, tornando-se testemunha e guia em um mundo que descende ao colapso.

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

Este paradoxo saramaguiano – a cegueira de quem vê – constitui o cerne temático que tanto o livro quanto o filme buscam explorar, cada um com suas ferramentas específicas.

Temas e escolhas estéticas

A metáfora da cegueira: do texto à imagem

No romance, Saramago descreve a cegueira não como escuridão, mas como “um mar de leite”. Esta inversão simbólica – a cegueira como excesso de luz, não como sua ausência – é fundamental para a construção alegórica da obra. O autor português utiliza esta metáfora para explorar a ideia de que a sociedade contemporânea, apesar de toda informação disponível, é incapaz de verdadeiramente “ver” sua própria condição.

Meirelles enfrenta o desafio de representar visualmente esta cegueira branca através de técnicas cinematográficas específicas. O diretor opta por uma fotografia superexposta em momentos-chave, criando uma estética visual que comunica ao espectador a sensação de desorientação. César Charlone, diretor de fotografia, utiliza lentes especiais e filtros para criar uma imagem estourada, onde os contornos se perdem em um brilho excessivo.

Enquanto Saramago constrói sua alegoria através de longas reflexões filosóficas e digressões narrativas, Meirelles precisa condensar estas ideias em imagens e ações. O filme, por necessidade, simplifica certas complexidades do texto, mas encontra equivalentes visuais poderosos para os temas centrais.

Desumanização e animalização

Tanto o livro quanto o filme exploram o processo de desumanização que ocorre quando as estruturas sociais entram em colapso. Saramago descreve em detalhes perturbadores a degradação das condições no manicômio, com corredores transformados em latrinas e corpos abandonados.

Meirelles traduz esta degradação através de uma progressiva mudança na paleta de cores e na direção de arte. O manicômio, inicialmente apresentado em tons brancos e clínicos, gradualmente se transforma em um espaço escuro, sujo e caótico. A câmera, que no início do filme apresenta enquadramentos mais estáveis, adota um estilo progressivamente mais instável, com movimentos bruscos e composições desequilibradas.

A animalização dos personagens, tema recorrente em Saramago, é expressa no filme através da linguagem corporal dos atores e de escolhas específicas de mise-en-scène. Julianne Moore, interpretando a mulher do médico, mantém uma postura mais ereta e movimentos mais deliberados, em contraste com os outros personagens que progressivamente adotam posturas mais curvadas e movimentos erráticos.

Poder e opressão: do texto à encenação

Um dos aspectos mais impactantes tanto do livro quanto do filme é a representação das dinâmicas de poder que emergem no manicômio. O grupo de cegos que se autoproclama dono da comida e estabelece um regime de terror, exigindo primeiro objetos de valor e depois mulheres em troca de alimentos, representa uma alegoria brutal sobre como o poder se estabelece e se mantém através da violência.

Saramago dedica longas passagens à descrição deste microcosmo político, explorando as nuances psicológicas e sociais desta dinâmica. O autor utiliza esta situação para uma reflexão mais ampla sobre as estruturas de poder na sociedade contemporânea, sem oferecer respostas fáceis ou julgamentos simplistas.

Meirelles, por sua vez, condensa esta dinâmica em cenas de forte impacto visual e emocional. A sequência em que as mulheres são abusadas pelos “cegos malvados” é filmada com uma abordagem que evita a exploração gratuita, focando nas expressões faciais e na linguagem corporal das vítimas e agressores.

A escolha de Gael García Bernal para interpretar o líder dos “cegos malvados” adiciona uma camada interessante à adaptação. Seu carisma natural como ator cria um antagonista complexo, cuja liderança não se baseia apenas na brutalidade, mas também em uma certa sedução perversa – aspecto que o livro explora através da caracterização de um personagem mais adaptado à condição, o que reforça sua posição de domínio dentro daquele microcosmo.

Decodificando símbolos

A simbologia da luz e da visão

Sob uma perspectiva semiótica, tanto o livro quanto o filme operam com sistemas de signos complexos relacionados à visão, à luz e à percepção. Como observa Roland Barthes em “Elementos de Semiologia“, os signos visuais podem operar em diferentes níveis de significação, do denotativo ao conotativo e ao mítico.

A “cegueira branca” funciona como um significante que, no nível denotativo, representa uma condição física, mas que nos níveis conotativo e mítico expande-se para simbolizar a alienação social, a indiferença moral e a incapacidade de reconhecer a própria condição humana.

Umberto Eco, em “A Estrutura Ausente“, discute como a adaptação entre diferentes sistemas semióticos necessariamente envolve transformações e equivalências, não simples traduções literais. O filme de Meirelles exemplifica esta teoria ao encontrar equivalentes visuais para os símbolos literários de Saramago.

Um exemplo notável é o tratamento dado à personagem da mulher do médico. No livro, sua condição de única pessoa que mantém a visão é explorada através de suas reflexões interiores e da descrição de seu olhar sobre o mundo em colapso. No filme, Meirelles utiliza técnicas cinematográficas específicas – como o ponto de vista subjetivo, a profundidade de campo e o foco seletivo – para comunicar esta mesma condição.

A semiótica do espaço: do manicômio à cidade

Os espaços físicos funcionam como sistemas semióticos tanto no livro quanto no filme. O manicômio, com sua arquitetura institucional e sua progressiva degradação, opera como um signo da falência das instituições sociais. A cidade anônima, por sua vez, representa a universalidade da condição descrita – não é um lugar específico, mas potencialmente qualquer lugar.

Meirelles filmou em locações no Brasil, Canadá e Uruguai, criando deliberadamente um espaço urbano não identificável, que poderia ser qualquer metrópole contemporânea. Esta escolha visual reforça a universalidade da alegoria de Saramago.

A transição entre o espaço claustrofóbico do manicômio e o espaço aberto mas igualmente hostil da cidade estabelece um contraste semiótico poderoso. No livro, esta transição é marcada por longas descrições da paisagem urbana degradada. No filme, Meirelles utiliza planos abertos e uma paleta de cores desaturada para comunicar o mesmo sentimento de desolação em um espaço aparentemente ilimitado.

Ironia e alegoria: do texto à imagem

A ironia, elemento central da escrita de Saramago, apresenta um desafio particular para a adaptação cinematográfica. Como traduzir para imagens o tom irônico do narrador saramaguiano?

Meirelles encontra equivalentes visuais para esta ironia através de justaposições e contrastes. Em uma cena memorável, os cegos famintos disputam comida em um supermercado luxuoso, cujos produtos de marca ainda estão perfeitamente organizados nas prateleiras – uma ironia visual sobre a abundância inacessível.

A alegoria política, que em Saramago se constrói através de reflexões explícitas sobre poder e sociedade, no filme se manifesta através de escolhas visuais específicas. A representação das autoridades – sempre distantes, comunicando-se através de alto-falantes, nunca realmente presentes – estabelece visualmente a crítica às instituições que o livro desenvolve textualmente.

Como observa Tzvetan Todorov em “Teorias do Símbolo“, a alegoria opera estabelecendo correspondências entre um sistema de signos concretos e um sistema de ideias abstratas. Tanto o livro quanto o filme de “Ensaio sobre a Cegueira” estabelecem estas correspondências, embora através de meios semióticos distintos.

Impacto e Recepção: Do livro ao filme, da crítica ao público

A recepção crítica

O romance de Saramago foi amplamente aclamado pela crítica literária internacional, sendo considerado uma de suas obras-primas e contribuindo para sua conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. A crítica destacou a força de sua alegoria política e a originalidade de sua abordagem narrativa.

O filme de Meirelles, por outro lado, recebeu uma recepção mais mista. Estreando no Festival de Cannes em 2008, a adaptação dividiu críticos. Enquanto alguns elogiaram a ousadia visual e a fidelidade temática ao livro, outros consideraram que o filme não conseguia capturar a profundidade filosófica do texto original.

A crítica A.O. Scott, do New York Times, escreveu que o filme “traduz a prosa labiríntica de Saramago em imagens viscerais, mas perde algo da dimensão reflexiva do romance”. Por outro lado, Roger Ebert elogiou a adaptação, afirmando que “Meirelles encontrou uma linguagem visual que honra a intenção de Saramago sem se tornar escrava do texto”.

Esta divergência crítica reflete, em parte, o desafio fundamental de adaptar uma obra literária tão singular para o meio cinematográfico. Como observa Robert Stam em “A Literatura através do Cinema“, as adaptações são inevitavelmente julgadas por critérios de “fidelidade” que frequentemente ignoram as especificidades de cada meio.

Atualidade e relevância contemporânea

Tanto o livro quanto o filme adquiriram nova relevância no contexto da pandemia de COVID-19. A representação de uma sociedade em colapso diante de uma doença misteriosa, as medidas de isolamento impostas pelas autoridades e a fragilidade das instituições sociais encontraram ecos perturbadores na realidade global pós-2020.

Como observa a pesquisadora brasileira Roberta Furtado Muniz: “O livro de Saramago, com seus personagens sem nome, evidenciando a desumanização deles diante da cegueira de todos em volta, sem que haja distinção entre eles, nos faz pensar nos tantos nomes que se apagaram ao nosso redor após a pandemia da Covid-19.”

Esta atualização do significado da obra demonstra sua qualidade alegórica atemporal. Como afirma Umberto Eco, as grandes obras literárias são “máquinas de gerar interpretações”, cujos significados se renovam em diferentes contextos históricos.

A adaptação cinematográfica, por sua vez, oferece uma visualidade que, paradoxalmente, tornou-se mais familiar após a experiência coletiva da pandemia. As imagens de cidades desertas, instituições sobrecarregadas e pessoas isoladas, que em 2008 podiam parecer excessivamente distópicas, adquiriram uma concretude perturbadora.

Conclusão: Entre a palavra e a imagem

A análise comparativa entre o romance de Saramago e o filme de Meirelles revela tanto os limites quanto as potencialidades da adaptação cinematográfica. Cada meio artístico possui suas próprias ferramentas semióticas e suas próprias estratégias narrativas para construir significados.

O romance privilegia a interioridade, a reflexão filosófica e a construção gradual de uma alegoria complexa através da palavra escrita. O filme, por sua vez, traduz esta mesma alegoria para o domínio do visual e do sensorial, condensando e transformando o material original.

Como observa Linda Hutcheon em “A Theory of Adaptation“, adaptar não é simplesmente reproduzir, mas reinterpretar e recriar. Neste sentido, o filme de Meirelles não deve ser julgado apenas por sua fidelidade ao texto de Saramago, mas também por sua capacidade de encontrar equivalentes cinematográficos para a experiência literária.

A força tanto do livro quanto do filme reside em sua capacidade de utilizar a metáfora da cegueira para provocar uma reflexão sobre nossa própria condição contemporânea. Como diz a personagem da mulher do médico no romance:

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

Esta provocação – sobre nossa incapacidade de realmente ver o mundo e a nós mesmos – permanece igualmente potente nas duas obras, apesar das diferenças formais e estéticas. É nesta capacidade de fazer-nos questionar nossa própria visão que reside o verdadeiro poder desta história, seja ela contada através das palavras de Saramago ou das imagens de Meirelles.

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