A marcha como espetáculo: quando o sacrifício vira narrativa na política e na cultura pop

O Corpo que Anda, a Câmera que Registra

Há algo de primitivo no ato de caminhar, em grupo, sob o sol. O corpo que se move contra a inércia do poder não precisa de palavras para dizer o que quer. A marcha é, antes de tudo, um gesto: pés que batem o chão, rostos que encaram a distância, mãos que carregam cartazes.

É performance involuntária, teatro sem ensaio.

O que mudou é que a marcha contemporânea sabe que será filmada. Ela se organiza não apenas para ocupar a rua, mas para ocupar a tela. O sacrifício do corpo que caminha quilômetros sob o peso da exaustão e da história se tornou, também, narrativa visual.

Espetáculo.

Isso torna o gesto mais complexo. Porque agora a marcha não acontece apenas no espaço público: ela acontece simultaneamente em milhões de feeds, timelines, noticiários. O sofrimento é real. A câmera também. E entre um e outro, nasce uma tensão que atravessa tanto o ativismo político quanto a cultura pop: quando o corpo que marcha sabe que está sendo visto, o que muda na natureza do ato?

Este artigo investiga essa fratura. Não para julgá-la, mas para compreendê-la. Porque a marcha, mesmo mediada, segue sendo uma das formas mais viscerais de dizer não ao que nos oprime. Só que agora ela diz isso também em imagens, enquadramentos, hashtags. E isso importa — esteticamente, politicamente, filosoficamente.

Quando Caminhar Era Revolução

Antes da transmissão ao vivo, antes do smartphone erguido, a marcha já era arma política.

Ela nasceu da recusa em permanecer parado. Caminhar juntos, em direção a algo ou contra algo, sempre foi uma forma de ocupar o mundo de maneira diferente. Mas as grandes marchas do século XX não foram pensadas para a câmera — mesmo quando a câmera as registrou.

A Marcha do Sal

Em 12 de março de 1930, Mahatma Gandhi partiu do ashram de Sabarmati, na Índia, rumo ao vilarejo de Dandi, a 390 quilômetros de distância. Ele tinha 61 anos e levava consigo 78 seguidores.

A Marcha do Sal foi uma resposta ao monopólio britânico sobre a produção e venda de sal, um recurso essencial que os indianos eram proibidos de extrair do próprio oceano. Durante 24 dias, Gandhi caminhou cerca de 16 quilômetros por dia, atravessando vilarejos, reunindo multidões a cada parada.

Quando chegou ao mar, em 6 de abril, ele se curvou, recolheu um punhado de lama salgada e violou a lei colonial. O gesto foi fotografado. A imagem circulou em jornais do mundo inteiro. Mas a marcha não foi desenhada para a fotografia — ela foi desenhada para quebrar o império pela exaustão do corpo, pela presença física insistente.

Milhares de indianos repetiram o gesto de Gandhi, extraindo sal ilegalmente. As prisões britânicas ficaram lotadas — estima-se que mais de 60 mil pessoas foram detidas. A marcha não derrubou o império naquele momento, mas abalou sua legitimidade moral. A independência da Índia, conquistada em 1947, carrega nas veias o ritmo daqueles passos.

A Marcha sobre Washington

Três décadas depois, em 28 de agosto de 1963, cerca de 250 mil pessoas marcharam sobre Washington.

A Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade foi organizada por líderes dos direitos civis, sindicatos e organizações religiosas. O objetivo era pressionar o governo dos Estados Unidos a aprovar legislação que garantisse direitos civis plenos à população negra. Foi nessa marcha que Martin Luther King Jr. proferiu o discurso “I Have a Dream”, do alto das escadas do Lincoln Memorial.

A transmissão televisiva levou o evento para milhões de lares americanos. Mas o que ficou registrado não foi apenas o discurso — foi a massa de corpos organizados, pacíficos, ocupando o National Mall.

Roupas de domingo, cartazes manuscritos, rostos sérios: não havia coreografia, apenas presença. O Congresso aprovou o Civil Rights Act em 1964 e o Voting Rights Act em 1965. A marcha funcionou — politicamente, simbolicamente, historicamente.

Marcha das Mulheres de 2017

Mais de cinco décadas à frente, em 21 de janeiro de 2017, o Women’s March reuniu entre 3,3 e 5,2 milhões de pessoas em cerca de 500 cidades dos Estados Unidos e centenas de outras ao redor do mundo, de acordo com estimativas acadêmicas.

Foi a maior manifestação de um único dia na história americana. O contexto: a posse de Donald Trump como presidente, um dia antes. A marcha foi convocada principalmente por redes sociais — Facebook, Twitter, Instagram.

A diferença em relação a 1963 é visual e estrutural. As participantes carregavam cartazes impressos em gráficas, usavam os icônicos “pussy hats” (gorros cor-de-rosa com orelhas de gato), e sabiam que cada frame seria compartilhado instantaneamente. Celebridades como Madonna, Scarlett Johansson e America Ferrera discursaram.

A cobertura foi global e em tempo real.

O impacto político direto é mais difícil de medir. Não houve legislação aprovada imediatamente após a marcha. Mas estudos posteriores, como o publicado no Washington Post em 2018, apontaram que a marcha mobilizou mulheres a se candidatarem a cargos públicos em números recordes nas eleições de 2018 — a chamada “onda azul” que levou 102 mulheres à Câmara dos Representantes, o maior número da história até então.

A Semiótica do Caminhar: Corpo, Espaço e Tempo

A marcha não é apenas um deslocamento. É uma sintaxe corporal, uma linguagem que se escreve com pés, duração e presença coletiva. Cada elemento do gesto carrega significado.

O corpo em movimento funciona como metáfora de transformação. Ela diz: não estamos aqui apenas para protestar, estamos indo a algum lugar. Mesmo quando o destino é simbólico, o ato de caminhar em direção a ele performa a ideia de movimento histórico.

A ocupação do espaço público é outra camada fundamental. Ruas são vias de circulação — espaços de passagem. Quando uma marcha ocupa uma avenida, ela subverte a lógica capitalista do fluxo. O trânsito para. O comércio é interrompido. A cidade, por algumas horas, não pertence mais ao capital ou ao Estado — pertence aos corpos que a atravessam.

A duração temporal da marcha é marca do sacrifício. Não é à toa que as grandes marchas históricas enfatizam a distância percorrida: os 390 quilômetros de Gandhi, os 87 quilômetros de Selma a Montgomery (1965). O tempo gasto caminhando funciona como argumento: estamos dispostos a sofrer por isso.

Mas há outro elemento crucial: o coletivo. Um corpo sozinho caminhando não faz revolução. A potência está na sincronia, na massa humana que se move como um só organismo. Isso cria uma estética específica: a da multidão vista de cima (planos aéreos que transformam pessoas em textura visual), a das vozes que se sobrepõem em coro.

Todos esses signos — corpo, espaço, tempo, coletivo — operam juntos para criar significado. A marcha constrói seu discurso através da forma. Ela é, antes de tudo, uma questão de linguagem visual.

A marcha é argumento que dura.

Anatomia de Uma Marcha Midiática

A relação entre marcha e mídia mudou radicalmente nas últimas duas décadas.

A diferença não é apenas quantitativa. É qualitativa. A marcha pré-digital dependia da mediação jornalística — fotógrafos, câmeras de TV, e repórteres decidiam o que seria visto. Na marcha pós-digital, cada manifestante é um potencial produtor de conteúdo. Em 2013, durante as manifestações de junho no Brasil, estimativas apontam que mais de 1,25 milhão de pessoas foram às ruas em uma única noite (20 de junho). As imagens não vieram apenas da Globo, da Band, da Folha — vieram de milhares de celulares erguidos, streamings independentes.

Isso alterou a própria organização do protesto. Marchas contemporâneas são convocadas por páginas de Facebook, grupos de WhatsApp, redes sociais. A descentralização permite mobilização rápida, e também dificulta controle editorial sobre a mensagem.

A Marcha na Cultura Pop

A cultura pop não apenas registra a marcha — ela a recria, a transforma em produto consumível. E nesse processo, revela algo sobre como a sociedade contemporânea processa o protesto político.

Selma

Em 2014, Ava DuVernay lançou Selma, filme que reconstrói a marcha de Selma a Montgomery, liderada por Martin Luther King Jr. em 1965. A produção, orçada em 20 milhões de dólares (relativamente modesto para padrões hollywoodianos), foi filmada em locações na Geórgia e no Alabama, incluindo a própria ponte Edmund Pettus, onde manifestantes foram brutalmente reprimidos pela polícia em 7 de março de 1965 — o episódio ficou conhecido como “Domingo Sangrento”.

No longa, a cena da marcha propriamente dita é filmada com câmera baixa, quase à altura dos pés. O espectador vê o asfalto, os sapatos gastos. Há planos longos, sem cortes rápidos, que forçam o público a sentir a duração do ato. A violência policial é mostrada sem estetização gratuita: os golpes são rápidos, brutais, documentais. DuVernay não romantiza. Mas ao recriar a marcha como cinema, ela inevitavelmente a transforma em narrativa — com enquadramentos, timing dramático.

O filme arrecadou aproximadamente 66,8 milhões de dólares mundialmente e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme. Críticos elogiaram sua precisão histórica, mas alguns historiadores apontaram liberdades criativas — como a representação do presidente Lyndon B. Johnson, retratado como mais resistente aos direitos civis do que documentos históricos sugerem. A marcha de Selma, no filme, vira tanto documento quanto drama. E essa tensão é produtiva: ela coloca o espectador dentro do gesto histórico, através da linguagem do espetáculo.

Formation

Dois anos depois, Beyoncé lançou Lemonade (2016), álbum visual que inclui Formation, videoclipe que se tornou um dos mais analisados da década. Dirigido por Melina Matsoukas, o vídeo foi filmado em locações que incluem plantações históricas e bairros afetados pelo furacão Katrina.

Formation não retrata uma marcha literal — mas performa sua estética. Há uma cena em que Beyoncé e dançarinas, vestidas de preto, formam uma linha diante de uma fileira de policiais. A coreografia mimetiza a tensão de um confronto político: corpos sincronizados, posturas desafiadoras, movimentos que ocupam espaço. Não é protesto — é citação visual do protesto.

A marcha vira dança. O sacrifício vira performance. E a performance vira comentário sobre raça, gênero, poder.

O videoclipe acumulou centenas de milhões de visualizações no YouTube. Foi dissecado academicamente. Beyoncé apresentou Formation no intervalo do Super Bowl 2016, com dançarinas vestidas como Panteras Negras, gerando controvérsia imediata.

Policiais em várias cidades americanas convocaram boicote. A cantora foi acusada de ser “anti-polícia”. Ela não recuou. A marcha estética virou marcha política — ou pelo menos sua sombra midiática.

O Conto da Aia

Outros exemplos pontuam a cultura pop contemporânea. Em O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale, série da Hulu, 2017-presente), as criadas marcham em silêncio, vestidas de vermelho, em formações coreografadas que evocam tanto procissão religiosa quanto protesto político.

A imagem foi apropriada por manifestantes reais — em 2018, ativistas anti-aborto usaram o figurino em protestos nos Estados Unidos, ressignificando a ficção distópica como ferramenta de ativismo. A marcha ficcional virou marcha real. O espetáculo virou rua.

O que essas representações revelam?

Que a cultura pop não apenas consome a marcha — ela a ensina. Gerações que não viveram Selma aprendem sua estética através de DuVernay. A marcha, como gesto histórico, é transmitida culturalmente através de imagens, não apenas de livros. E essas imagens carregam escolhas: enquadramentos, ritmo, trilha sonora.

A marcha vira linguagem visual. E pode ser citada, parodiada, ressignificada, esvaziada — ou potencializada.

O Sacrifício como Performance: Entre Autenticidade e Espetáculo

Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo (1967), escreveu: “Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. A frase, formulada antes da internet, parece profética quando aplicada à marcha contemporânea. Mas há uma armadilha nessa leitura: supor que a mediação anula a autenticidade, que a imagem esvazia o gesto. A questão é mais sutil.

A marcha política contemporânea sabe que será filmada. Isso é condição de existência. Manifestantes erguem cartazes pensando na câmera, escolhem roupas e símbolos que “leiam bem” em fotografia. Isso não torna o sofrimento menos real. A exaustão não é performativa — é física. Mas a consciência da câmera altera a relação do corpo com o próprio ato.

Aqui entra Susan Sontag. Em Diante da Dor dos Outros, ela investigou como fotografias de guerra e violência funcionam culturalmente. Ver sofrimento repetidamente pode nos ensinar a senti-lo — ou a ignorá-lo. A marcha, quando espetacularizada, corre risco semelhante: pode mobilizar ou pode virar conteúdo efêmero entre memes.

O risco, claro, é a estetização sem consequência. A marcha que gera engajamento mas não gera mudança política concreta. Isso acontece. Manifestações contemporâneas frequentemente explodem nas redes, mobilizam milhões — e depois evaporam sem deixar rastro. As manifestações de junho de 2013 no Brasil reuniram milhões nas ruas. Onde estão, agora, as transformações estruturais que pediam?

A pergunta, então, não é: a marcha espetacularizada ainda funciona? É: como ela funciona diferente? E a resposta passa por reconhecer que estética e política nunca foram opostos. A forma sempre foi parte da mensagem. O que mudou foi a velocidade, o alcance.

A Estética do Cansaço: Fotografia, Enquadramento e Narrativa Visual

Há uma fotografia recorrente na iconografia da marcha: o close nos pés. Sapatos gastos, tênis sujos, pés descalços sobre asfalto quente. A câmera abaixa, ignora rostos, foca no que toca o chão. Esse enquadramento não é acidental. Ele traduz visualmente o sacrifício. Pés cansados são metonímia do corpo político exausto mas resistente.

Outra imagem clássica: o plano aéreo. A multidão vista de cima, transformada em textura, em padrão visual. Corpos individuais se dissolvem na massa. A câmera de drone (tecnologia recente, mas já onipresente) captura a dimensão do coletivo de forma que o olho humano, na rua, jamais veria. Há beleza nisso — e há risco. A beleza pode transformar urgência em composição visual.

A paleta de cores também carrega significado. Marchas históricas são frequentemente lembradas em preto e branco — porque o preto e branco confere gravidade, tom documental. É a cor da “história oficial”. Já a cultura pop usa cores saturadas. The Handmaid’s Tale usa vermelho-sangue como código visual. A cor não é decorativa — é discursiva.

A trilha sonora, ou sua ausência, define atmosfera. Marchas reais são ruidosas: passos, vozes, às vezes silêncio tenso. Marchas filmadas escolhem o que enfatizar. DuVernay, em Selma, usa silêncio antes da violência policial — o espectador ouve apenas respiração, passos. Quando a violência explode, o som é caótico, visceral.

Todos esses elementos — enquadramento, cor, som — não apenas documentam a marcha. Eles a interpretam. E ao interpretar, criam nova camada de significado. A fotografia do manifestante isolado diante de tanques (Praça da Paz Celestial, 1989) não mostra a multidão que estava atrás dele. Mas mostra coragem individual contra poder massivo. A escolha de enquadramento determinou como o mundo leu aquele momento. A marcha filmada nunca é neutra. É sempre narrada.

O Que Perdemos Quando Tudo Vira Imagem?

Há uma diferença entre testemunhar e consumir. Quem estava em Selma, em 1965, testemunhou. Ouviu o grito da mulher ao lado levando golpe de cassetete, sentiu o próprio corpo recuar ou avançar. Quem assistiu Selma, o filme, em 2014, consumiu. Sentou numa poltrona, comeu pipoca, talvez chorou, talvez postou sobre o filme depois. Não há equivalência entre os dois atos. E não há desonra no segundo. Mas confundi-los é perigoso.

A marcha como ritual exige presença. O corpo precisa estar lá — não representado, não mediado, mas . Caminhar, cansar. Quando isso vira imagem, ganha alcance — mas perde a fisicalidade. E a fisicalidade, em protesto, é parte da mensagem. O poder sabe disso. Por isso reprime corpos, não imagens.

Mas a imagem também faz algo que o corpo isolado não pode: ela replica, atravessa fronteiras. O vídeo de George Floyd morreu — 9 minutos e 29 segundos de horror filmado — mobilizou o mundo. Não porque substituiu a presença, mas porque a documentou de forma irrefutável. A câmera de Darnella Frazier não salvou George Floyd. Mas impediu que o mundo fingisse não saber.

O risco da estetização é real. Quando a marcha vira conteúdo, ela compete com milhões de outros conteúdos pela atenção de um público exausto. A hashtag hoje pode ser esquecida amanhã. A questão é: o que fica quando a câmera se desliga?

Caminhar Ainda Importa?

A marcha contemporânea carrega um paradoxo: ela precisa ser vista para ter impacto, mas ao ser vista, corre o risco de virar apenas imagem. Não há saída simples. Nem deveria haver.

O que fica claro é que a marcha não parou de funcionar. Ela funciona diferente. Seu poder não está mais apenas na presença física — está na multiplicação dessa presença através de telas. E isso não é traição ao gesto original. É evolução do gesto.

A marcha sempre foi espetáculo. Sempre foi performance. O que mudou foi a dimensão do palco e a quantidade de olhos assistindo. Gandhi sabia que seria fotografado. King sabia que seria filmado. A diferença não é entre autenticidade e fingimento — é entre mediações diferentes, riscos diferentes.

O corpo que marcha hoje carrega dupla consciência: sabe que protesta e que será visto protestando. Isso não diminui o sacrifício. Pés doem da mesma forma. Prisão arbitrária viola direitos da mesma forma. Mas adiciona camada estratégica: como transformaremos nosso sofrimento em narrativa que mobilize outros?

A questão ética não é devemos filmar a marcha? É: como filmar sem esvaziar? Como mediar sem anestesiar? Como espetacularizar sem banalizar? E essas perguntas não têm resposta única. Cada marcha negocia seu próprio equilíbrio.

Caminhar ainda importa. Talvez importe mais do que nunca — justamente porque vivemos em mundo que privilegia a velocidade digital sobre a lentidão corporal. A marcha insiste na duração, no esforço físico, na presença coletiva num tempo que nos quer isolados, sentados, rolando feeds infinitos.

Mas caminhar hoje também é filmar. É tuitar. É hashtagear. E não há desonra nisso. Há pragmatismo. Há reconhecimento de que o poder que enfrentamos também opera por imagens. E se o espetáculo é o território da disputa, então que marchemos espetacularmente.

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