Por que o Pobre vota na Direita no Brasil?

O Código do Tapir: Semiótica, Afeto e a Reconfiguração do Voto Popular no Brasil

Introdução

O maior enigma político brasileiro das últimas décadas está estampado em adesivos no vidro de caminhões, broches em paletós e bandeiras em carreatas. É um mamífero herbívoro de focinho comprido, um animal que muitos eleitores jamais viram na natureza, mas que aprenderam a reconhecer como um chamado à guerra.

O tapir — símbolo menos massivo do que a bandeira verde-amarela, a arma ou o mito, mas revelador enquanto signo de nicho militante — é mais que uma figura partidária. Ele funciona aqui como um atalho semiótico para uma pergunta que desconcerta análises tradicionais: por que parcelas significativas do eleitorado pobre e periférico, historicamente alinhado a projetos de esquerda e redistribuição, votam em uma direita conservadora que, em sua plataforma econômica ortodoxa, parece contrariar seus interesses materiais imediatos?

A resposta óbvia – a do cálculo econômico racional – falha em explicar a força do laço.

A política como linguagem

O fenômeno exige um mergulho em águas mais profundas e turvas: as do afeto, da identidade e do simbolismo político. Não se trata mais apenas de o que se promete, mas de como se fala, de quem se representa ser e, principalmente, contra quem se ergue a bandeira.

Este artigo propõe uma arqueologia do voto popular pela direita no Brasil, investigando como uma estética de autenticidade e uma economia moral do respeito reconfiguraram lealdades eleitorais. Analisaremos dados concretos, mas sempre guiados pela pergunta central: o que esse deslocamento revela sobre a transformação da própria linguagem política e do desejo por reconhecimento na democracia brasileira?

O voto, afinal, pode ser menos uma planilha de benefícios e mais uma afirmação existencial.

Antes de avançar, um cuidado conceitual: “pobre” não é um bloco homogêneo, e “direita” tampouco é um partido único com uma só gramática. Há diferenças profundas entre periferias urbanas e interior, entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste, entre economia informal e emprego formal, entre públicos evangélicos, católicos e secularizados, entre juventudes digitais e gerações que ainda votam por redes presenciais. Da mesma forma, a “direita” inclui desde liberalismo econômico até conservadorismo moral, desde bolhas antissistema até governismo pragmático. Quando uso essas categorias, faço-o como atalhos analíticos, não como identidades estáveis.

Os Números do Deslocamento

O fenômeno é um dado mensurável. Nas eleições presidenciais de 2018, Jair Bolsonaro (PSL) venceu em 72,5% dos municípios brasileiros, incluindo vastas regiões do Norte e Nordeste, tradicionalmente bastiões petistas. Pesquisas pós-eleitorais do Datafolha revelaram um eleitorado complexo: Bolsonaro venceu entre os que ganhavam até 2 salários mínimos (44% a 39% contra Haddad) e teve 51% dos votos dos que têm apenas ensino fundamental.

Nota metodológica: os percentuais citados aqui devem ser lidos como recortes, não como sentenças definitivas sobre o “voto do pobre”. Pesquisas variam conforme definição de renda, amostra, desenho de questionário e momento de coleta. Ainda assim, tomadas em conjunto (TSE e levantamentos de institutos como Datafolha e Ipespe), elas sinalizam um ponto robusto: o voto popular contemporâneo não pode mais ser descrito apenas como alinhamento automático a um campo ideológico “natural”, mas como terreno de disputa real.

Em 2022, mesmo na derrota, o padrão se manteve e até se aprofundou em bolsões de pobreza. Um estudo do Ipespe apontou que, no segundo turno, Lula venceu por 60% a 40% entre os que ganham até 2 salários mínimos – uma vitória inquestionável, mas que deixa uma margem de 40% desse estrato apoiando a candidatura de direita. Em estados como Rondônia, Acre e Roraima, Bolsonaro venceu com folga em todas as faixas de renda.

Uma Breve Arqueologia do “Povo” na Política Brasileira

Para entender a ruptura, é preciso mapear o terreno anterior.

Seria um erro atribuir esse deslocamento a uma única causa. Crise econômica, insegurança pública, desemprego, ressentimentos morais, a expansão do campo evangélico e o antipetismo (especialmente após 2014–2016) são variáveis relevantes. Mas este ensaio propõe um deslocamento de foco: essas forças não atuam fora da linguagem. Elas ganham potência política quando são traduzidas em narrativas claras, símbolos reconhecíveis e inimigos nomeáveis. Em outras palavras, o simbólico não substitui o material — ele é o modo como o material se torna politicamente inteligível.

Por décadas, a esquerda, com o PT à frente, construiu uma hegemonia simbólica sobre a representação dos pobres. A imagem era a do trabalhador, do movimento social organizado, do oprimido em luta por direitos. A política era um projeto de inclusão material e simbólica – o pobre no orçamento, na universidade, no consumo e, finalmente, no poder.

O lulismo foi o ápice dessa síntese.

Contudo, essa mesma construção gerou suas próprias fissuras. Parte desse “povo” ascendente começou a se enxergar não mais como “classe”, mas como indivíduos que “venceram na vida”.

A categoria do “cidadão de bem”, antiga na retórica conservadora, encontrou um terreno fértil: ela não nega a pobreza, mas a ressignifica, oferecendo uma identidade baseada não na luta coletiva, mas no mérito pessoal, na ordem e na defesa da propriedade (mesmo que simbólica) contra ameaças internas e externas. O PT deixou de ser o único intérprete do povo. A direita ofereceu outra tradução.

Semiótica do Discurso: A Tradução de Valores em Símbolos

A política moderna é uma batalha de tradução. Conceitos abstratos e ameaçadores precisam se tornar signos palpáveis e desejáveis. A direita brasileira, especialmente a partir de 2013, tornou-se uma eficiente máquina de tradução semiótica. 

Ordem deixou de ser uma função estatal abstrata para se materializar no símbolo da arma (e no projeto de facilitar seu porte). A nação, conceito difuso, foi reduzida e intensificada na bandeira brasileira, transformada de símbolo cívico em estandarte de guerra identitária, vestida no corpo como segunda pele.

família, núcleo afetivo, foi armada como trincheira contra uma “ideologia de gênero” apresentada como invasora e corruptora.

O processo é uma síntese populista: pega-se um mal-estar real (a violência, a crise de valores, a corrupção) e oferece-se um inimigo concreto e uma solução simbólica. A eficácia não está no plano programático, mas no plano do reconhecimento imediato.

O eleitor não precisa dominar jargões econômicos; precisa apenas reconhecer seu próprio medo e sua própria bandeira. O tapir funciona como um atalho simbólico desse processo: um animal dócil, porém forte, nativo, “autêntico”, que luta por sobrevivência. Ainda que circule de modo menos universal do que outros emblemas, sua função é a mesma: condensar identidade em imagem, e imagem em pertencimento.

Em entrevistas de rua, essa economia moral aparece com uma clareza brutal, quase sempre fora do vocabulário acadêmico. Algo como: “eu sei que não vai melhorar minha vida de um dia pro outro, mas pelo menos esse lado fala do que eu vivo: bandido, respeito, família. Eu cansei de ser tratado como número.”
Não é uma planilha: é uma demanda por reconhecimento.

Ele não fala de projetos, fala de identidade e resistência.

Estética da Proximidade: O Corpo, a Fala e a Quebra do Protocolo

Se a esquerda hegemônica falava a linguagem das instituições (sindicatos, ONGs, academia), a nova direita falou a linguagem das ruas digitais e das mesas de bar. Isso se traduziu numa estética da autenticidade calculada.

Compare-se dois modos de presença: os discursos televisivos de Lula, construídos na cadência do storytelling militante e na referência histórica, com os lives de Bolsonaro, em mangas de camisa, no sofá da casa, reclamando do jantar, usando gírias (“mito”, “patriota”) e atacando inimigos pelo nome.

Um parecia falar para o povo; o outro, falar como o povo (uma performance, claro, mas eficaz).

Essa quebra do protocolo político foi lida, especialmente por setores pouco escolarizados, não como grosseria, mas como transparência.

A polêmica constante não era um bug, mas um feature: ela mantinha o campo emocional sempre aquecido, transformando a política num serial diário de heroísmo e vilania, muito mais palatável que a análise enfadonha de indicadores sociais.

O vira-casacas, o “homem comum” enfrentando o sistema, é um arquétipo poderoso. Ele oferece dignidade através da identificação, não através da promessa.

A Economia Moral do Voto: Dignidade, Respeito e Inimigo Comum

É aqui que chegamos ao núcleo da questão. A cientista política americana Lilliana Mason fala do “avanço da política de identidade”, onde lealdades partidárias se tornam identidades sociais totais, como religião ou etnia.

No Brasil, o voto de baixa renda pela direita pode ser lido como a busca por uma nova economia moral, onde a moeda não é apenas o benefício material, mas o respeito social e a restauração de uma hierarquia percebida como ameaçada.

Para um homem pobre, muitas vezes desrespeitado no cotidiano pela polícia, pelo patrão, pelo Estado lento, a posse simbólica de uma arma (mesmo que apenas discursiva) promete agência e poder. Para uma família que ascendeu um degrau econômico via programas sociais ou crédito, mas se vê cercada pela violência e por mudanças culturais velozes, a defesa da família tradicional e da ordem é a defesa do patrimônio simbólico mais valioso.

inimigo comum (a esquerda “corrupta”, os “vagabundos”, os “ativistas”) cumpre um papel crucial: ele unifica um grupo heterogêneo (o pobre empreendedor, o pequeno comerciante, o policial militar, o evangélico) sob uma mesma bandeira, criando um sentimento de comunidade e propósito mais forte que a lealdade de classe.

O voto, nessa chave, deixa de ser um contrato para o futuro e se torna uma assinatura no presente. É a afirmação: “Eu existo, eu importo e eu pertenço a este lado”. A direita soube vender não um plano de governo, mas um kit de identidade.

O Preço do Afeto: Quando o Simbólico Subverte o Material

O ato político mais radical deste fenômeno é o aparente sacrifício do interesse material em nome do capital simbólico.

É o trabalhador informal que defende a reforma da Previdência que o prejudicará, pois internalizou a narrativa do “privilégio” do servidor público, um outro que lhe é apresentado como inimigo. É o pequeno agricultor que apoia o relaxamento das leis ambientais que ameaçam seu próprio manancial, em nome da bandeira do “progresso” e da luta contra as “ONGs internacionais”.

Estes não são cálculos irracionais, mas a prova de que o self político não é apenas um balanço de contas, é uma narrativa sobre si mesmo.

O filósofo francês Jacques Rancière define a política não como a gestão do consenso, mas como a disputa pela partilha do sensível – quem tem direito a ser visto e ouvido. A adesão a um projeto que parece economicamente contraproducente é, na verdade, o preço pago por ser reconhecido como um sujeito pleno, e não como um objeto de políticas públicas.

Ser “cidadão de bem” oferece um lugar de honra nessa nova partilha, algo que a identidade de “beneficiário de programa social” – por mais vital que seja materialmente – pode não conferir. A troca é cruel, mas logicíssima: troca-se uma parte da segurança material por uma dose total de dignidade identitária.

O Lulismo como Pano de Fundo e Espelho

Não se pode entender essa nova direita sem vê-la como uma criação espelhada e reativa ao lulismo.

O lulismo promoveu uma inclusão social massiva, mas em parte a fez via consumo e acesso a crédito, fomentando um individualismo aspirativo. Ele criou milhões de novos indivíduos que, uma vez fora da pobreza extrema, não queriam mais ser interpelados como “pobres”, e sim como consumidores e proprietários.

A direita falou diretamente a essa nova subjetividade. Enquanto o lulismo enfatizava o nós coletivo (“nunca antes na história deste país”), a direita falou ao eu vitorioso que “superou a miséria por seu próprio esforço”.

Adendos

Há, aqui, um ponto incômodo que a esquerda muitas vezes evita: não se trata apenas de “manipulação” do povo por símbolos. Em diversos momentos, a esquerda passou a falar a linguagem do Estado e das instituições como se ela fosse automaticamente universal — e isso produziu distâncias. Parte do eleitorado popular não se sentiu apenas “desassistida”, mas desrespeitada: por ironias culturais, por pedagogias morais, por uma estética do esclarecimento que transforma divergência em ignorância. Some-se a isso contradições reais (corrupção, burocratização partidária, promessas frustradas) e forma-se um terreno fértil para que a direita apareça não como engano, mas como restituição simbólica de voz. O voto popular não é ausência de racionalidade: é racionalidade ancorada na experiência, na honra e no reconhecimento.

Ao mesmo tempo, a direita assimilou estrategicamente elementos da gramática petista.

antielitismo, antes dirigido às oligarquias, foi redirecionado às elites culturais (imprensa, universidades, artistas). O discurso de libertação, antes de classes oprimidas, foi aplicado à “maioria silenciosa” oprimida pelo “politicamente correto”.

Foi uma guerra de posição no campo simbólico, onde a direita aprendeu a disputar a autenticidade e a falar em nome de um “povo” que o PT, em sua visão, havia traído ao se tornar a própria elite do poder.

Conclusão: O Fim do Voto como Aritmética e o Nascimento do Voto como Identidade

A pergunta inicial, “por que o pobre vota na direita?”, parte de um pressuposto que o próprio fenômeno se encarrega de demolir: o de que o voto é uma aritmética de interesses materiais claros e imediatos. O que os dados e a semiótica revelam é a ascensão do voto como ato de identificação total.

A política migrou, para parcelas significativas do eleitorado, do campo da distribuição para o campo da recognição.

Isso não significa que a economia seja irrelevante, mas que ela é reprocessada através de lentes culturais.

A inflação não é apenas um número, é a prova do “desgoverno”. O auxílio emergencial não é apenas uma transferência de renda, é um sinal de “compra de votos” ou de “caridade do líder”, dependendo do lado em que se está. A pós-verdade não é a ausência de fatos, mas a subordinação dos fatos a uma comunidade emocional de sentido.

O desafio que se coloca para a democracia brasileira é monumental. Como debater políticas públicas quando os campos estão separados por identidades políticas tão fechadas e antagonistas?

Como reconstruir um projeto de país comum quando o próprio significado de palavras como “pátria”, “liberdade” e “justiça” foi radicalmente cindido?

A conquista simbólica operada pela direita no seio das classes populares é um fato político indelével. Ela sinaliza que a batalha pelo Brasil do século XXI será travada, antes de mais nada, no campo da imaginação, do afeto e dos símbolos.

Quem não souber falar essa língua, não será ouvido.

Epílogo: O Animal Político

O tapir, o Tapirus terrestris, é um animal de hábitos noturnos e solitários. Sua força está na persistência silenciosa e na pele grossa.

A escolha desse animal como símbolo não precisa ser oficial para ser eficaz: em política, o que importa é a circulação do signo e sua capacidade de gerar pertencimento.

Tornou-se, por acidente ou genialidade de marketing, o ícone perfeito de uma certa brasilidade política contemporânea: a que se sente encurralada, mas resistente; a que prefere agir nas sombras das redes sociais; a que acredita que a sobrevivência é, em si, uma forma de vitória.

O animal político que ele representa não vota em projetos. Ele vota em espelhos. E no reflexo embaçado desse espelho, o que ele quer ver não é um programa de governo, mas a confirmação de sua própria existência, digna, temível e, finalmente, dona de si.

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