Marty Supreme (2025), dirigido por Josh Safdie e estrelado por Timothée Chalamet, acompanha a trajetória obsessiva de um jovem prodígio do pingue-pongue no submundo competitivo de Nova York dos anos 1950. Mais do que um filme esportivo, o longa transforma essa jornada em uma reflexão sobre frenesi, identidade e sobrevivência. Neste ensaio, analisamos como Safdie constrói essa narrativa em movimento contínuo.
Uma bola de pingue-pongue dispara, cruzando a rede na velocidade de um raciocínio. Ela faz um som seco, metálico, que é ao mesmo tempo um ponto final e um começo.
Marty Supreme, de Josh Safdie, é construído sobre esse som — o eco de uma ideia que nunca para de bater.
Em seu primeiro trabalho solo desde a separação artística de seu irmão Benny, Safdie não entrega apenas um novo capítulo do cinema de frenesi. Ele esculpe uma monumental comédia de erros sobre um anti-herói que não consegue parar de correr, porque seu destino, revela o filme, não é um lugar, mas o próprio movimento.
Lançado em 2025 e produzido pela A24, Marty Supreme marca a primeira incursão solo de Josh Safdie após o fim da parceria com o irmão Benny. Com fotografia de Darius Khondji e uma ambientação que recria o submundo competitivo da Nova York dos anos 1950, o filme se inspira livremente na figura excêntrica do mesatenista Marty Reisman. A recepção crítica destacou a entrega física de Timothée Chalamet e a energia da direção, embora parte da imprensa tenha apontado uma ambição narrativa por vezes excessiva.
A Mesa como Fúria: Estética do Motivo Perpétuo
A semiótica do frenesi, marca registrada de Safdie, aqui é elevada a um princípio filosófico. A câmera de Khondji não é apenas inquieta; ela é uma extensão da psique neurótica de Marty Mauser (Chalamet).
O filme se passa predominantemente no Lower East Side de Nova York dos anos 1950, um caldo de culturas de imigrantes. Safdie, no entanto, evita o pitoresco nostálgico.
Em vez disso, usa as ruas apertadas, as lojas de sapatos empoeiradas e os clubes noturnos abafados como um labirinto físico. Cada corredor é um novo beco sem saída, cada porta uma oportunidade que se fecha.
A fotografia, saturada de tons terrosos e mergulhada em sombras profundas, transforma a cidade em uma manifestação do estado mental do protagonista: uma paisagem de desejo, ansiedade e constante colisão.
As cenas de pingue-pongue, embora pontuais, são a chave estética.
Safdie as constrói como uma espécie de “fluxo” narrativo. Elas não são sobre o esporte em si, mas sobre o rito. A repetição hipnótica da bola, criada em CGI convincente para capturar a velocidade sobre-humana, canaliza toda a energia caótica e dispersa do filme em um único foco.
A mesa retangular torna-se um funil: tudo o que é caótico — os desastres financeiros, as trapaças, os relacionamentos despedaçados — converge para aquele espaço ritualístico, onde as regras são claras e o movimento tem um objetivo singular.
É a única vez que o caos de Marty encontra uma ordem, ainda que transitória.
O Símbolo do Pária em Movimento
Marty Mauser é um signo ambulante da contradição. Seu nome já carrega uma carga simbólica potente: “Mauser” ecoa “Maus”, a graphic novel de Art Spiegelman, que por sua vez ressignifica a propaganda nazista que retratava judeus como ratos.
Marty não é um herói, mas um “herói cultural” às avessas. Ele abraça, com um niilismo desconcertante, os piores estereótipos: é egoísta, manipulador, renega a família, faz piadas de mau gosto – ele “atropela” as pessoas ao seu redor como um “trem desgovernado”.
Porém, Safdie não está simplesmente criando um personagem desagradável.
Ele está construindo um símbolo da própria experiência da diáspora, desprovido de qualquer virtude romantizada. Marty carrega o peso da história coletiva, mas responde a ele com um individualismo feroz e autodestruidor.
Cada jogo de pingue-pongue, cada tentativa de se tornar “o maior”, é sua forma errática de esculpir uma identidade própria, de responder ao fardo da história com um ato de afirmação egoísta. Ele não quer ser aceito; ele quer ser o maior dos párias, triunfando exatamente na condição que lhe foi imposta.
Frenesi como Filosofia: A Jornada contra o Destino
Marty é puro movimento incessante e irrefletido: o importante é a jornada.
O frenesi aqui não é apenas um estilo; é uma postura existencial. O que o filme celebra, em última análise, não é o triunfo, mas a capacidade de continuar em movimento diante do desastre.
A narrativa se desenrola ao longo de nove meses — o tempo de uma gestação — e termina com um ciclo recomeçando.
A vitória no pingue-pongue, quando finalmente chega, tem um sabor melancólico e provisório. A bola continuará a bater de um lado para o outro. A vida de Marty é uma sucessão de segundas chances que ele mesmo sabota, sua maldição e sua única forma de existência autêntica.
Conclusão: O Triunfo do Ritmo
Marty Supreme não é um filme sobre vencer. É um filme sobre não parar.
Josh Safdie, longe de seu irmão Benny, radicaliza seu cinema não apenas na intensidade, mas na abrangência simbólica.
Ele usa a fábula de um atleta excêntrico para construir uma poderosa alegoria sobre identidade, história e o eterno retorno do cotidiano. Timothée Chalamet, em seu desempenho mais físico e frenético, personifica essa ideia com cada músculo contraído e cada olhar de desespero cômico.
O filme pode tropeçar na ambição de seu roteiro, que às vezes, até de forma consciente, parece se ramificar demais. Mas seu legado está na sensação que deixa: a de ter acompanhado não uma história com começo, meio e fim, mas um ritmo vital.
No final, o que fica não é a imagem de um troféu, mas o som seco e repetitivo da bolinha de celuloide batendo na madeira, pronta para ser rebatida mais uma vez.
É o som do mundo continuando, apesar de tudo.
O som da própria vida em seu estado mais puro: uma partida que nunca acaba.
Devemos assistir?
Deve-se assistir a Marty Supreme se você busca uma experiência cinematográfica que seja, antes de tudo, uma descarga adrenalínica intelectual.
Este não é um filme para consumo passivo. É um ensaio fílmico em movimento acelerado, que exige do espectador que ele não apenas acompanhe a trama caótica, mas que se deixe impregnar pela sua lógica interna de desastre e persistência.
Josh Safdie, em sua empreitada solo, aprimora a estética do frenesi até transformá-la em uma filosofia: a de que a vida é um moto-perpétuo de oportunidades criadas e sabotadas, e que nossa identidade se forja menos nas conquistas finais e mais no ritmo desesperado da jornada.
A atuação de Timothée Chalamet é a âncora humana dessa tempestade; ele não pede por simpatia, mas por uma compreensão fascinada diante de um personagem que é um monumento ao egoísmo e, paradoxalmente, um símbolo pungente da luta por autodefinição.
Ou não?
Por outro lado, pode-se optar por evitar o filme se a expectativa for por uma narrativa esportiva convencional ou por um protagonista com quem seja fácil se identificar.
O pingue-pongue é mais um ritual psicológico do que o cerne de uma trama de superação. Marty Mauser é, intencionalmente, um ser humano profundamente falho e frequentemente desagradável, cujo “arco de redenção” é sutil, ambíguo e subordinado à energia do filme.
A estrutura narrativa pode soar repetitiva em sua apresentação de “desventuras da semana”, testando a paciência de quem espera um desenvolvimento linear mais tradicional. A obra é um exercício de estilo e conceito, e seu valor reside quase inteiramente na adesão (ou não) do espectador à sua vibração única e exigente.
Em resumo, Marty Supreme é uma aposta alta do cinema de autor. Recomenda-se para quem valoriza a direção ousada, a análise cultural densa e performances que são verdadeiras maratonas físicas e emocionais.
Desaconselha-se para quem busca entretenimento leve, uma história de esporte inspiradora ou uma resolução narrativa claramente catártica. É um filme que se experimenta no corpo e se pondera na mente muito depois de a tela escurecer. Um estudo de caso sobre como a forma frenética pode ser o veículo perfeito para um conteúdo sobre a fúria de existir.
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.