Love Me, Love Me: June White É Mesmo o Retrato da Nossa Adolescência?

June White em Love Me, Love Me sentada no sofá usando pijama listrado rosa
June White em Love Me, Love Me: a adolescência sem glamour

A série Love Me, Love Me estreou sem muito barulho e terminou ocupando conversas que ninguém esperava ter. June White — protagonista ansiosa, autodestrutiva e estranhamente magnética — virou assunto em fóruns, podcasts e naquelas trocas de mensagem às duas da manhã entre pessoas que juravam ter superado a adolescência. Quase ninguém discute roteiro. Discute-se reconhecimento. E reconhecimento, quando dói, significa que algo foi acertado em cheio.

Minha tese é esta: June White não é uma personagem. É um espelho. E o desconforto que ela provoca diz mais sobre quem a assiste do que sobre quem a escreveu.

O que o texto vai revelar é simples e incômodo: a adolescência que June representa não é a da ficção cor-de-rosa dos anos 2000 nem a do trauma estetizado que tomou conta das séries da última década. É outra coisa — menor, mais banal, mais verdadeira. E é exatamente essa banalidade que nos paralisa.


A Adolescência Que Não Caberia em Poster

Por muito tempo, a cultura pop nos vendeu dois modelos de adolescência: a dourada, cheia de bailes e primeiros amores fotogênicos; e a devastada, marcada por abuso, perda ou tragédia redentora. Ambas têm uma coisa em comum — uma certa grandiosidade. Sofrer ou celebrar em escala épica.

June não cabe em nenhuma das duas. O que ela vive é menor e, por isso, mais difícil de nomear. Ela mente sem necessidade, sabota relações que funcionariam, busca validação de pessoas que claramente não a merecem e se pune de formas que nunca chegam a ser dramáticas o suficiente para pedir ajuda. É a adolescência do cotidiano — aquela que não tem nome clínico claro, que os pais não percebem e que os amigos normalizam porque estão passando pelo mesmo.

O psicólogo Donald Winnicott chamou de falso self a máscara que construímos para corresponder ao que o ambiente espera de nós. June usa essa máscara com maestria e a destrói com a mesma competência. O que a série faz de inteligente é mostrar que esses dois movimentos — construir e destruir — não são contraditórios. São o mesmo gesto.


O Que Há de Político no Desconforto de June

Há uma crítica recorrente à personagem: ela é irritante. Toma decisões ruins. Não aprende. Repete erros.

Essa crítica é, ela mesma, o fenômeno mais interessante da série.

Porque June é irritante da mesma forma que uma parte de nós foi irritante — e nunca foi chamada assim, porque ninguém estava assistindo de fora. Quando julgamos June, estamos exercendo sobre ela a mesma impaciência que o mundo adulto exerceu sobre nós quando tínhamos dezessete anos e não conseguíamos simplesmente parar de ser assim.

A série tem consciência disso. Há uma cena específica — sem spoilers desnecessários — em que um adulto diz a June exatamente o que ela deveria fazer, com toda a razão do mundo, e a câmera não corta para a menina aprendendo a lição. Corta para ela indo embora. Essa escolha de direção é um manifesto silencioso: adolescência não é um problema a ser resolvido por adultos sensatos. É uma experiência a ser atravessada por dentro.

June White existe para lembrar que atravessar não é bonito. É só necessário.


Geração, Plataforma e o Novo Espelho

Há um contexto que não pode ser ignorado: Love Me, Love Me chegou num momento em que a geração que cresceu nos anos 2010 — hiperconectada, ansiosa, fluente em terapia mas emocionalmente esgotada — procura narrativas que a validem sem a idealizem.

June não é uma personagem de autoajuda. Ela não cresce de forma didática. Não há arco redentor embrulhado em trilha sonora edificante. E paradoxalmente, é essa recusa à resolução que gera identificação. Porque muita gente chegou na vida adulta sem aquele momento de virada que as séries prometiam. Chegou irregular, carregando versões antigas de si mesma, ainda repetindo alguns padrões que deveriam ter ficado para trás.

Ver June é ver que isso é comum. Não bonito. Não inspirador. Apenas comum.

E há algo profundamente aliviante nisso.


A questão que fica não é se June White é um bom retrato da adolescência. É por que esse retrato específico — imperfeito, sem catarse, sem moral — foi o que finalmente nos fez parar e dizer fui eu.

Talvez porque a cultura tenha nos dado, por décadas, versões de nós mesmos que precisavam de redenção ou celebração para existir. June existe sem pedir licença para nenhuma das duas.

Ela é o retrato da nossa adolescência não porque seja idêntica a ela — mas porque carrega a mesma qualidade essencial que preferimos esquecer: a de não saber muito bem o que estava fazendo, e ter feito mesmo assim.

Toda adolescência é um rascunho. June White tem a coragem de não fingir que o seu foi passado a limpo.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

Você pode gostar...

Inscrever-se
Notificar de
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários