Nos últimos dias, a Venezuela voltou ao centro do noticiário internacional.
Declarações de Donald Trump, respostas inflamadas de Nicolás Maduro, menções recorrentes a sanções econômicas, ameaças diplomáticas recicladas e a velha retórica do “regime ilegítimo” contra o “imperialismo norte-americano”.
Como tantas outras vezes nas últimas duas décadas, o país reaparece como símbolo conveniente: fracasso do socialismo para uns, bastião de resistência anti-EUA para outros. Um objeto de disputa discursiva mais do que um lugar habitado por pessoas reais.
O Ciclo
Esse movimento é conhecido. O tema Venezuela retorna ciclicamente, sempre que interessa à geopolítica norte-americana, às campanhas eleitorais nos Estados Unidos, às disputas de narrativa entre Washington, Caracas e seus respectivos aliados. Trump fala, Maduro responde, a oposição reage, governos estrangeiros se posicionam. Por alguns dias, o país existe como manchete. Depois, o ruído se dissipa. O que permanece ausente não é a Venezuela como tema, mas a Venezuela como experiência.
Entre sanções impostas pelos Estados Unidos, negociações fracassadas, eleições contestadas, reconhecimentos internacionais seletivos e ameaças nunca concretizadas, consolidou-se um padrão: a crise venezuelana tornou-se um evento recorrente, previsível, quase protocolar. Sabe-se quem dirá o quê, quem condenará quem, quais palavras serão usadas. O que não se vê — ou não se sustenta no tempo — é a textura humana do colapso: como se vive quando o Estado se ausenta, quando a política deixa de ser projeto coletivo e passa a ser mecanismo de sobrevivência diária.
Importância do Cinema
O jornalismo tradicional, preso à lógica do ciclo noticioso e à urgência do acontecimento, oferece fragmentos: números de migrantes, índices de inflação, falas de Maduro, comunicados da Casa Branca, relatórios da ONU. Mas fragmentos não explicam processos. Declarações não revelam estruturas. E é justamente nesse espaço — entre o fato político e sua vivência concreta — que o cinema se torna uma ferramenta insubstituível de compreensão.
Três documentários formam, sem intenção prévia, uma espécie de trilogia involuntária sobre a Venezuela contemporânea:
- Era Uma Vez na Venezuela (2020), de Anabel Rodríguez Ríos, mostra como a política se traduz em abandono cotidiano.
- El Pueblo Soy Yo: Venezuela en Populismo (2019), de Carlos Oteyza, disseca a retórica populista que sustentou o chavismo desde sua origem.
- A La Calle (2020), dirigido por Maxx Caicedo e Nelson G. Navarrete, registra a explosão da insurreição popular e a violência da repressão estatal.
Juntos, esses filmes não explicam a Venezuela — eles a tornam inteligível.
Porque entender a Venezuela não é escolher entre Maduro e Trump, chavismo ou oposição, sanções ou soberania. É compreender como uma promessa revolucionária se converteu em autoritarismo, como o discurso político substituiu a realidade, como milhões de pessoas ficaram presas entre o que foi prometido e o que se tornou inevitável.
E, sobretudo, é perceber que o caso venezuelano não é uma exceção exótica da América Latina, mas um laboratório político do século XXI: um ensaio radical sobre o que acontece quando populismo, petróleo, polarização extrema e interferência externa se encontram sem freios institucionais.
O cinema, ao contrário da manchete, tem tempo. Tempo para observar, para ouvir, para registrar o que persiste quando o interesse internacional se move para outro foco. Tempo para mostrar que a política não é apenas disputa de poder entre líderes — é a casa que afunda, a rua que sangra, o país que se esvazia enquanto o mundo discute quem tem razão.
A Crise Que Virou Labirinto
Para entender por que a Venezuela se tornou indecifrável, é preciso recuar até 1999, quando Hugo Chávez assumiu a presidência prometendo uma “Revolução Bolivariana“.
O projeto inicial combinava redistribuição de renda petrolífera, nacionalismo anti-imperialista e expansão de direitos sociais. Entre 2003 e 2013, com o barril de petróleo acima de 100 dólares, a Venezuela viveu uma era de bonança aparente: missões sociais, subsídios massivos, redução da pobreza de 48,6% para 29,5% (segundo dados do Instituto Nacional de Estatística da Venezuela).
O chavismo não era apenas um governo — era um fenômeno de massas, com legitimidade eleitoral repetidamente confirmada.
Porem…
Mas o modelo tinha uma fragilidade estrutural: dependia de 96% das exportações vindas do petróleo. Quando os preços despencaram em 2014, o castelo ruiu. Nicolás Maduro, sucessor de Chávez (morto em 2013), herdou não apenas o poder, mas a impossibilidade de sustentá-lo sem a renda petrolífera.
A resposta do governo foi imprimir dinheiro, controlar preços, reprimir dissidência. A inflação ultrapassou 1.000.000% em 2018, segundo o Fundo Monetário Internacional. O PIB encolheu 75% entre 2013 e 2021 — uma contração econômica comparável apenas às provocadas por guerras.
Os números são brutais, mas não dizem tudo. Mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015, segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) — a maior diáspora da América Latina, uma das maiores diásporas contemporâneas em proporção populacional. A escassez de alimentos e medicamentos tornou-se crônica. Hospitais funcionam sem anestesia. Universidades esvaziaram. A classe média desapareceu: ou migrou, ou empobreceu.
Politicamente, a Venezuela fragmentou-se em camadas sobrepostas de legitimidade contestada.
Oposição
Maduro venceu eleições presidenciais em 2018, mas a oposição e grande parte da comunidade internacional denunciaram fraude. Em 2019, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, declarou-se presidente interino, reconhecido por mais de 50 países — incluindo Estados Unidos e boa parte da União Europeia. Durante meses, a Venezuela teve dois presidentes, dois governos, duas narrativas incompatíveis. A tentativa de Guaidó de forçar a entrada de ajuda humanitária pela fronteira colombiana, em fevereiro de 2019, terminou em confronto violento. Sua liderança desmoronou ao longo dos anos seguintes, e hoje a oposição está estilhaçada, sem unidade nem estratégia clara.
Enquanto isso, Maduro consolidou controle sobre as instituições: Supremo Tribunal, Conselho Nacional Eleitoral, Forças Armadas. A repressão tornou-se sistemática. Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, houve execuções extrajudiciais, detenções arbitrárias, tortura. Os protestos de 2017 deixaram 163 mortos, a maioria jovens.
Em 2024, após eleições presidenciais disputadas em julho, a oposição novamente denunciou fraude; Maduro foi declarado vencedor pelo Conselho Nacional Eleitoral, mas a oposição apresentou atas que indicariam vitória de Edmundo González Urrutia. A comunidade internacional permanece dividida, e a crise política segue sem resolução.
O que torna a Venezuela especialmente complexa é a impossibilidade de narrativas simples. Não é apenas uma ditadura clássica: Maduro mantém rituais eleitorais, por mais viciados que sejam. Não é apenas crise econômica: há supermercados abastecidos em Caracas, enquanto o interior do país morre de fome. E não é apenas chavismo vs. oposição: há chavistas dissidentes, opositores que negociam com o governo, militares pragmáticos, empresários que prosperam na informalidade.
Polarização e Indiferença
A polarização é real, mas as lealdades são fluidas.
Há ainda uma camada decisiva: a indiferença internacional. Após o fracasso da estratégia centrada em Juan Guaidó e anos de impasse político, a Venezuela deixou de ser prioridade geopolítica. O agravamento das tensões entre Estados Unidos, Rússia e China deslocou o foco das grandes potências, e o país passou a ocupar um espaço residual na agenda global — não mais como urgência, mas como problema crônico.
Mesmo a queda de Nicolás Maduro — hoje preso nos Estados Unidos — não foi suficiente para recolocar a Venezuela no centro do debate internacional, pelo menos por enquanto. A remoção da figura central do regime não produziu a comoção esperada, nem mobilizou uma ação externa proporcional à dimensão da tragédia acumulada.
Nesse contexto, a Venezuela foi convertida em uma “crise estabilizada” — não no sentido de resolvida, mas de normalizada. Um desastre de longa duração que já não gera manchetes constantes, nem respostas urgentes. Os venezuelanos continuam fugindo em números massivos, atravessando fronteiras e reconstruindo a vida no exílio, mas agora o fazem longe do foco da imprensa internacional. A tragédia persiste; apenas perdeu valor noticioso.
A indiferença que hoje cerca a Venezuela não nasce da superação do problema, mas do esgotamento político, simbólico e midiático de uma crise que o mundo aprendeu a ignorar.
É nesse contexto que os três documentários em questão adquirem urgência. Eles não pretendem “explicar” a Venezuela de forma definitiva — tarefa impossível, talvez indesejável. Mas oferecem algo mais valioso: registros de como se vive dentro do labirinto. Como a abstração política ganha corpo em casas que afundam, discursos que hipnotizam, ruas que sangram. Como um país desaparece em câmera lenta, filmado por quem insiste em não desviar o olhar.
Primeiro Filme: Quando a Política Afunda o Cotidiano
Era Uma Vez na Venezuela (Once Upon a Time in Venezuela, 2020)
Dirigido pela cineasta venezuelana Anabel Rodríguez Ríos, Era Uma Vez na Venezuela estreou no Festival Sundance de 2020 e foi exibido em mais de 40 festivais internacionais. O filme acompanha os últimos anos de Congo Mirador, uma pequena aldeia de palafitas erguida sobre o Lago de Maracaibo, no estado de Zulia, oeste da Venezuela. Durante décadas, a comunidade viveu literalmente sobre a água — casas sustentadas por estacas de madeira, conectadas por pontes improvisadas, em equilíbrio precário mas funcional.
Quando Rodríguez Ríos começa a filmar, Congo Mirador está afundando. Não metaforicamente: as palafitas estão desabando, engolidas pelo lago. A razão técnica é ambiental — décadas de extração petrolífera no Lago de Maracaibo geraram sedimentação acelerada e proliferação de uma planta aquática invasora, o Lemna, que cobre a superfície da água como um tapete verde-escuro, sufocante. Mas a razão política é igualmente evidente: o abandono estatal. Sem dragagem, sem manutenção, sem infraestrutura, a aldeia simplesmente deixou de ser prioridade para um governo ocupado com sua própria sobrevivência.
O Poder da Observação
O filme não tem narração em off nem entrevistas explicativas. Rodríguez Ríos observa. A câmera acompanha Tamara, professora local e militante chavista fervorosa, que organiza comícios, distribui camisetas vermelhas, promete que o governo virá em socorro. Do outro lado está Mrs. Tamara (homônima, mas opositora), uma mulher mais velha, cética, que assiste ao desmoronamento com amargura resignada. Entre elas, Natalie, adolescente que sonha ser Miss Venezuela — último resquício de normalidade aspiracional em meio ao colapso.
A linguagem visual do filme é deliberadamente contemplativa. Planos longos da água escura, do Lemna avançando, das casas inclinadas. Rodríguez Ríos filma a deterioração como quem filma o tempo: inevitável, silencioso, irreversível. Há uma cena em que Tamara, a chavista, tenta organizar uma festa para o aniversário de Chávez (morto em 2013, mas ainda cultuado), e quase ninguém aparece. A câmera registra o constrangimento sem comentário. Noutra cena, Mrs. Tamara observa sua casa começando a afundar e diz, simplesmente: “Não há governo aqui.“
Ausência
O que Era Uma Vez na Venezuela revela com precisão cirúrgica é a transformação da política em ausência.
Não há repressão visível, não há violência explícita — apenas o abandono. O Estado venezuelano, tão presente na retórica, desapareceu da prática. As promessas de Tamara, a militante, soam cada vez mais desesperadas, como mantras que perderam o poder de conjurar a realidade. A polarização entre ela e Mrs. Tamara, que poderia ser o motor dramático do filme, revela-se secundária diante do verdadeiro antagonista: a indiferença. O governo não virá. A oposição tampouco. Congo Mirador está sozinho.
O filme terminou rodagem em 2019. Quando foi lançado, em 2020, Congo Mirador já estava praticamente desabitado. Natalie conseguiu sair. Tamara, a chavista, permaneceu — mas a última imagem do filme a mostra remando sozinha por entre as ruínas das palafitas, cercada de Lemna, numa cena que funciona como epitáfio visual. Rodríguez Ríos foi criticada por alguns setores da oposição venezuelana por “humanizar” uma militante chavista, e por setores do chavismo por “explorar” a miséria. A diretora respondeu que seu interesse não era tomar partido, mas “registrar a morte de uma comunidade com dignidade”.
Era Uma Vez na Venezuela venceu o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Tribeca e foi pré-selecionado para o Oscar de Melhor Documentário Internacional. Sua circulação comercial, porém, foi limitada — típica do destino de documentários sobre crises “estabilizadas”. Não é um filme fácil. Exige paciência. Mas oferece algo que o noticiário não consegue: a possibilidade de testemunhar o que significa quando a política se transforma em ruína física, quando o discurso se esvazia diante da água que sobe.
Segundo Filme: A Retórica do Poder em Primeiro Plano
El Pueblo Soy Yo: Venezuela en Populismo (2019, literalmante Eu Sou o Povo: A Venezuela Sob o Populismo)
Se Era Uma Vez na Venezuela mostra o fim do processo, El Pueblo Soy Yo disseca o começo: a construção retórica do chavismo. Dirigido por Carlos Oteyza, jornalista e cineasta venezuelano radicado na Espanha, o documentário estreou no DocsMX (México) e no Festival de Cinema de Havana em 2019. Sua abordagem é radicalmente diferente da de Rodríguez Ríos: não há personagens locais, não há narrativa humanizada. Há apenas Hugo Chávez — ou melhor, a imagem de Hugo Chávez.
Oteyza trabalha exclusivamente com material de arquivo: discursos televisivos, programas do Aló Presidente (talk show semanal apresentado por Chávez entre 1999 e 2012, que podia durar até oito horas), comícios, cadenas nacionais (transmissões obrigatórias em todos os canais).
O filme é uma montagem de mais de 1.500 horas de gravação condensadas em 68 minutos. Não há voz crítica externa, não há especialistas comentando. Apenas Chávez falando — e, ao falar incessantemente, revelando o mecanismo de sua construção política.
O Povo…
O título do filme vem de uma frase que Chávez repetia obsessivamente: “Eu sou o povo.” Não “represento o povo”, não “sirvo o povo” — sou. A fusão total entre líder e massa, entre indivíduo e coletivo, é o núcleo do projeto chavista. Oteyza mostra como essa retórica foi construída através de performance calculada: Chávez canta, declama poesia, conta piadas, chora, grita, sussurra. Ele é apresentador, professor, comandante, amigo. Ele monopoliza não apenas o poder político, mas o próprio tempo midiático: durante seu governo, era comum que cadenas nacionais interrompessem programação regular por horas. O cidadão venezuelano vivia sob o som constante da voz de Chávez.
A montagem de Oteyza é inteligente porque não cai na armadilha do sarcasmo fácil. Ele deixa que Chávez fale — e, falando, revele as contradições. Há momentos em que Chávez promete respeitar a propriedade privada, seguidos de cenas em que ele anuncia nacionalizações arbitrárias.
Há momentos em que ele elogia a democracia representativa, seguidos de ataques virulentos contra opositores, chamando-os de “traidores”, “escuálidos”, “vendidos ao império”. E há, sobretudo, a construção de um inimigo permanente: os Estados Unidos, a oligarquia, os meios de comunicação privados, a “direita apátrida”. O chavismo não precisava apenas de apoio — precisava de antagonistas para justificar sua própria existência.
Oteyza também mostra a dimensão simbólica do chavismo: o culto a Simón Bolívar, a ressignificação da bandeira venezuelana, a militarização da linguagem política. Chávez, ex-militar golpista que tentou derrubar o governo em 1992, nunca abandonou o vocabulário castrense: “batalla”, “enemigo”, “victoria”, “resistencia”. A política virou guerra permanente — e guerra exige disciplina, lealdade absoluta, eliminação do dissidente.
E o Populismo
O que El Pueblo Soy Yo revela com eficácia é o mecanismo do populismo contemporâneo: a substituição da realidade pelo discurso. Chávez não governa resolvendo problemas — governa falando sobre problemas, criando narrativas onde ele é sempre o herói e os outros são sempre traidores ou incompetentes. Quando algo dá errado, a culpa é do inimigo externo ou do sabotador interno. Quando algo dá certo, é mérito pessoal do líder. Não há espaço para institucionalidade, para mediação, para dúvida.
A recepção do filme foi polarizada. Chavistas acusaram Oteyza de fazer “propaganda golpista” ao descontextualizar discursos e reforçar estereótipos sobre Chávez. Setores da oposição, por outro lado, criticaram o filme por “dar palco” ao chavismo sem contraponto crítico explícito. Oteyza defendeu sua escolha: “Não preciso dizer o que penso de Chávez. Basta deixá-lo falar.” É uma aposta arriscada — e eficaz. O filme funciona como espelho: cada espectador projeta sua própria leitura sobre a performance chavista.
El Pueblo Soy Yo teve circulação limitada, exibido principalmente em festivais e plataformas independentes. Na Venezuela, sua exibição foi praticamente impossível — não apenas por censura direta, mas porque a infraestrutura cultural do país colapsou. Salas de cinema fecharam, festivais desapareceram, o próprio debate público esvaziou-se. É um filme sobre a Venezuela que os venezuelanos, em grande parte, não puderam ver.
Terceiro Filme: A Insurreição Como Linguagem
A La Calle (2020, literalmente “Às Ruas” ou “Para as Ruas”)
Se os dois primeiros filmes mantêm distância contemplativa ou analítica, A La Calle é urgência pura. Dirigido coletivamente por Maxx Caicedo e Nelson G. Navarrete, ambos venezuelanos, o documentário foi filmado durante as manifestações massivas de 2017 e 2019 que sacudiram a Venezuela. Produzido de forma independente e lançado em 2020 através de plataformas digitais e festivais de direitos humanos, o filme tem 77 minutos de tensão ininterrupta.
Contexto
O contexto das manifestações é político e econômico. Em 2017, Maduro convocou uma Assembleia Nacional Constituinte paralela, esvaziando o poder da Assembleia Nacional controlada pela oposição. A resposta popular foi imediata: entre abril e julho daquele ano, ocorreram protestos diários em todo o país. A repressão foi brutal. Segundo a organização Foro Penal, 163 pessoas morreram, mais de 15.000 foram detidas, centenas foram torturadas. A maioria das vítimas eram jovens entre 18 e 30 anos — uma geração inteira que cresceu sob o chavismo e agora o rejeitava nas ruas.
A La Calle não tem narração nem contexto histórico explícito. É cinema direto, câmera na mão, corpo a corpo. Os diretores seguem manifestantes anônimos — estudantes, principalmente — através de Caracas. A câmera corre com eles, respira com eles, sangra com eles. Há cenas de coquetéis molotov sendo lançados contra a Guarda Nacional Bolivariana. Há cenas de jovens feridos sendo arrastados por companheiros enquanto gás lacrimogêneo preenche as avenidas. E há cenas de tanquetas da polícia avançando sobre multidões desarmadas.
Linguagem
A linguagem estética é quase oposta à de Era Uma Vez na Venezuela. Nada de planos longos contemplativos. Aqui, tudo é fragmento, movimento, som estridente. A montagem é frenética, cortando entre diferentes protestos, diferentes dias, diferentes rostos — mas sempre a mesma coreografia da violência: manifestantes avançam, polícia reprime, manifestantes recuam, reagrupam, avançam novamente. É Sísifo político filmado em tempo real.
Caicedo e Navarrete também incluem entrevistas breves com manifestantes, feitas no calor dos acontecimentos. Um jovem, rosto coberto por bandana improvisada, diz à câmera: “Já não temos medo. Eles podem nos matar, mas não podem nos calar.” Outra jovem, enfermeira voluntária que atende feridos nas ruas, explica: “Vim porque meu irmão foi preso. Vim porque não há comida. Vim porque não há futuro.” São testemunhos sem elaboração retórica, sem tempo para filosofar — apenas raiva, desespero, determinação.
O Poder das Ruas
O filme também registra a transformação das táticas de protesto. No início, manifestações eram pacíficas, com cartazes e cânticos. Conforme a repressão se intensificou, os protestos radicalizaram: barricadas de fogo, confrontos diretos, pedras contra balas de borracha (e, eventualmente, balas reais). A oposição política institucional perdeu controle sobre as ruas. O que era manifestação virou insurreição espontânea, descoordenada, desesperada.
A La Calle teve destino previsível: circulação ampla em circuitos de ativismo e festivais de direitos humanos, invisibilidade comercial absoluta. Foi exibido no Festival de Cinema de Direitos Humanos de Barcelona, no Festival DocsDF (México), e em sessões clandestinas dentro da Venezuela, organizadas por coletivos culturais. O governo venezuelano classificou o filme como “apologia ao terrorismo”. Os diretores, que permaneceram anônimos durante meses por questões de segurança, acabaram deixando o país.
A força do filme está em sua recusa de dar respostas. Ele não explica por que os protestos falharam (a repressão foi implacável, a oposição estava dividida, o apoio internacional foi retórico mas ineficaz). Não oferece esperança fácil nem redenção narrativa. Termina com uma imagem de Caracas vazia ao amanhecer, as ruas limpas de barricadas, o silêncio que vem depois da derrota. Mas o último som que ouvimos é de uma voz em off, jovem, dizendo: “Voltaremos.”
Voltaram, em 2019, quando Guaidó convocou novos protestos. E novamente foram reprimidos. E novamente o ciclo se repetiu. A La Calle não documenta vitória — documenta resistência sem garantia de futuro. É o registro do que significa quando o único espaço político que resta é a rua, e quando nem a rua é suficiente.
O Que Esses Três Filmes Dizem Juntos
Vistos isoladamente, cada um desses documentários oferece um ângulo específico sobre a crise venezuelana. Mas colocados em sequência, eles formam algo mais potente: um mapa tridimensional do colapso político contemporâneo. Não apenas da Venezuela — de qualquer sistema onde poder, discurso e violência se entrelaçam até destruir o tecido social.
Juntos, esses três filmes compõem um retrato da Venezuela como laboratório político do século XXI. Não porque a Venezuela seja única — mas porque ela condensou, em escala acelerada, processos que ocorrem em democracias ao redor do mundo. A captura do Estado por um projeto personalista. A substituição da institucionalidade pela lealdade ao líder. A militarização da linguagem política, onde adversários viram inimigos. A dependência de uma única fonte de riqueza (no caso venezuelano, o petróleo) que torna desnecessária a construção de consensos sociais complexos: basta distribuir renda enquanto ela existe e reprimir quando ela acaba. O colapso da mediação: entre governo e povo não há mais partidos, sindicatos, imprensa livre — apenas a voz do comandante e a resposta da multidão, amor ou ódio, sem nuances.
Ideologia x Narrativa
Há algo profundamente contemporâneo nessa estrutura. O populismo do século XXI, como Chávez exemplificou, não precisa de ideologia coerente — precisa de narrativa emocional, de identificação afetiva entre líder e massa, de inimigos claramente definidos. É uma forma de política que funciona perfeitamente na era das redes sociais, onde complexidade é ruído e polarização é engajamento. A Venezuela apenas chegou lá primeiro, e pagou o preço antes.
Mas há outra lição, menos óbvia, que esses filmes oferecem: a insuficiência da linguagem política tradicional para dar conta do colapso. Como se descreve um país que deixou de funcionar mas ainda existe? Como se nomeia um governo que mantém rituais democráticos (eleições, assembleia, constituição) mas os esvaziou de sentido? e como se pensa uma oposição que foi reconhecida por dezenas de países mas não conseguiu tomar o poder? A Venezuela desafia categorias: não é ditadura clássica, não é democracia, não é guerra civil. É algo novo — ou talvez algo muito antigo, que retornou com novas roupagens.
O Cinema
É por isso que o cinema importa. Porque ele não precisa nomear para revelar. Rodríguez Ríos não precisa chamar Maduro de ditador para mostrar o abandono de Congo Mirador. Oteyza não precisa condenar Chávez para expor os mecanismos retóricos do populismo. Caicedo e Navarrete não precisam explicar por que os protestos falharam para registrar a dignidade desesperada de quem tentou. O cinema opera por imagem, som, duração — linguagens que contornam a saturação semântica da política. Quando as palavras mentem ou se esvaziaram, resta o olhar.
Há, ainda, uma dimensão ética nesses filmes que merece atenção. Todos os três recusam o espetáculo da miséria.
Era Uma Vez na Venezuela poderia ter explorado a pobreza de Congo Mirador com voyeurismo complacente, mas prefere a observação paciente, que respeita a dignidade dos retratados mesmo na ruína.
El Pueblo Soy Yo poderia ter ridicularizado Chávez com montagem sarcástica, mas confia na inteligência do espectador para perceber as contradições por si mesmo.
A La Calle poderia ter transformado a violência em pornografia revolucionária, mas mantém foco nos rostos, nas vozes, na humanidade dos que resistem. São filmes que tratam seus personagens — mesmo os que discordam politicamente — como sujeitos, não como instrumentos de uma tese.
Entender
E é justamente essa ética do olhar que nos devolve à questão central: o que significa entender a Venezuela? Não se trata de tomar partido no conflito interno — tarefa que cabe aos venezuelanos, não a observadores externos. Trata-se de reconhecer que o colapso venezuelano é, também, espelho. Espelho das fragilidades democráticas, da dependência de lideranças carismáticas, da facilidade com que instituições são capturadas, da velocidade com que polarização vira ódio. Espelho, sobretudo, da indiferença internacional: a Venezuela interessa quando ameaça interesses geopolíticos (petróleo, migração, influência russa ou chinesa), mas deixa de interessar quando vira “crise estabilizada”, desastre de longa duração que não gera manchetes nem mobiliza ação.
Os três documentários, cada um a seu modo, recusam essa indiferença. Insistem em olhar — e em fazer-nos olhar — mesmo quando já não há esperança fácil de redenção narrativa. São arquivos do presente, testemunhos para um futuro onde, talvez, alguém pergunte: como foi possível? Como um país com as maiores reservas de petróleo do mundo se transformou em deserto de possibilidades? E como sete milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas? Como a comunidade internacional assistiu, impassível, enquanto jovens morriam nas ruas pedindo apenas o óbvio — comida, remédio, liberdade?
Esses filmes não respondem. Mas perguntam. E perguntar, quando todos preferem esquecer, já é ato de resistência.
Epílogo
Congo Mirador afundou. As palafitas tornaram-se ruínas submersas. Os manifestantes dispersaram, foram presos ou atravessaram fronteiras. A voz de Chávez ainda ecoa — em comícios gravados, em cadenas arquivadas, em memórias que já não sabem separar promessa de pesadelo.
A Venezuela nunca foi urgência. E tornou-se presença contínua, previsível, administrável. Uma crise longa demais para chocar, complexa demais para resolver, repetida demais para mobilizar.
O país persiste nas filas de migrantes atravessando o Darién, nos hospitais sem anestesia, nas universidades vazias, nos corpos que aprenderam a sobreviver sem esperar nada além da própria resistência. Persiste sem manchetes, sem comoção, sem clímax.
E persiste, também, nessas imagens: a água que sobe lentamente, o discurso que hipnotiza, a rua que sangra. Três filmes. Não para explicar a Venezuela, mas para registrar o que sobra quando o mundo se acostuma ao colapso — e segue olhando para outro lugar.
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.


