Introdução
Um adolescente usando traje associado ao nazismo e realizando uma saudação nazista em plena festa de formatura no Rio Grande do Norte não é apenas uma “polêmica de internet”. É um retrato perigoso de como símbolos de ódio estão sendo normalizados — especialmente quando a sociedade insiste em chamar isso de “brincadeira”.
O episódio, que ocorreu em uma festa de formatura em Mossoró (RN), gerou ampla repercussão nacional. Parte do debate se concentrou no jovem. Outra parte focou nas instituições envolvidas. Mas há um ponto que não pode ser ignorado: um gesto nazista só vira performance quando existe plateia disposta a tolerar, filmar, rir ou relativizar.
O problema não é só quem fez. É o ambiente que permitiu.
O que aconteceu na formatura em Mossoró (RN)
De acordo com o noticiário, o adolescente teria participado da festa usando roupa comum e, em determinado momento, teria trocado para um traje associado ao nazismo, realizando também a saudação nazista, ato registrado em vídeo e compartilhado nas redes sociais.
A repercussão obrigou uma reação pública.
A Facene (Faculdade de Enfermagem e Medicina Nova Esperança), instituição mencionada no caso, divulgou nota repudiando o ocorrido e informou que não organizou o evento.
Também houve posicionamento atribuído à empresa organizadora do evento, que repudiou o ato.
Este tipo de resposta institucional é relevante, mas não encerra o debate — ela apenas confirma o óbvio: o gesto foi grave o suficiente para ninguém querer assumir proximidade com ele.
Saudação nazista é crime? O que diz a lei brasileira
No Brasil, não existe “neutralidade” possível em torno de nazismo.
A legislação trata apologia, divulgação e uso de símbolos nazistas como algo grave, vinculado a práticas discriminatórias e ao incentivo ao ódio.
Mesmo que o debate jurídico varie conforme o caso (provas, intenção, contexto), o ponto social é muito claro:
não existe nazismo “inocente”.
Quando alguém:
- veste símbolo nazista,
- reproduz gestos nazistas,
- filma e espalha isso como provocação,
isso se aproxima perigosamente do campo da apologia, independentemente do disfarce verbal usado depois.
A mentira clássica: “foi só uma brincadeira”
Sempre que alguém flerta com símbolo extremista e há reação pública, a defesa é previsível:
- “era brincadeira”
- “era meme”
- “era só provocação”
- “era fantasia”
- “é exagero se ofender com isso”
Essa narrativa tem uma função: tirar o peso moral do fato.
Mas o nazismo não é um tema neutro.
Nazismo é:
- supremacismo racial,
- perseguição política,
- propaganda de ódio,
- violência como método,
- genocídio como projeto.
Transformar isso em “piada” é exatamente o mecanismo que permite que o horror retorne como cultura.
E é aqui que a conversa fica séria: o maior risco não é alguém fazer a saudação.
O maior risco é a sociedade já ter se acostumado à ideia de que isso pode ser “engraçado”.
O uniforme, o gesto e o algoritmo: por que isso está acontecendo com jovens
Há uma tendência crescente de jovens entrando em contato com símbolos extremistas sem mediação histórica. Não por leitura, mas por repetição.
O caminho costuma ser este:
- O símbolo aparece como “humor proibido”
- O gesto aparece como “provocação”
- A reação aparece como “gatilho”
- O autor sente poder por incomodar
- O algoritmo recompensa com atenção
- A normalização começa
Isso é grave porque substitui a educação histórica por uma espécie de “estética do choque”.
O nazismo vira figurino.
A violência vira linguagem.
E o passado vira um “tema” sem mortos.
A plateia também é responsável: quem ri, filma ou relativiza vira cúmplice
Aqui está o coração do problema, e é onde muita análise é covarde.
Um gesto nazista em uma festa pública não acontece sozinho.
Para isso virar “evento”, é preciso:
- gente vendo,
- gente deixando acontecer,
- gente filmando,
- gente rindo ou fazendo pouco caso,
- gente tratando como “coisa de jovem”.
A plateia é o termômetro moral do lugar.
E quando o público não reage imediatamente com repúdio, o que acontece é uma autorização silenciosa.
A pergunta mais incômoda do caso não é “por que ele fez isso?”
A pergunta mais importante é:
por que isso não foi interrompido na hora?
por que alguém achou aceitável o suficiente para virar vídeo?
A banalização do mal não se manifesta só na ação do indivíduo, mas no comportamento coletivo que a acolhe como “não tão grave assim”.
A banalização do mal em 2026
Hannah Arendt se tornou referência inevitável para analisar episódios como este, especialmente por seu conceito de banalidade do mal.
A ideia central — simplificando sem empobrecer — é que o mal pode se instalar não como monstruosidade cinematográfica, mas como:
- hábito,
- repetição,
- normalidade,
- burocracia moral,
- ausência de pensamento crítico.
Em 2026, a banalidade do mal ganhou uma forma moderna:
ela é performática e compartilhável.
Hoje, a banalização do mal acontece quando:
- o símbolo do ódio vira “conteúdo”
- o crime vira “bait”
- a indignação vira entretenimento
- a memória vira exagero
Não se trata apenas de “um jovem fazendo idiotice”.
Trata-se de um mundo onde o horror é convertido em material de performance.
E o detalhe mais arendtiano de todos é este:
os piores danos coletivos não exigem grande número de fanáticos.
Eles exigem apenas uma maioria indiferente.
“Mas ele é menor de idade”: isso muda o peso do caso?
Sim, muda em termos formais e procedimentos legais.
Mas atenção:
ser menor de idade não torna o ato simbólica ou moralmente menor.
Significa apenas que a resposta do Estado pode seguir caminhos distintos (medidas socioeducativas, responsabilização conforme legislação específica etc.).
O debate público, porém, não pode ser infantilizado.
Porque a sociedade não está julgando apenas um indivíduo.
Está julgando o que tolera dentro de um salão lotado.
O Brasil e a normalização do horror: não é caso isolado
Episódios desse tipo não são totalmente isolados.
A repetição de símbolos de ódio — em ambientes escolares, festas, redes sociais — é parte de um fenômeno maior: a tentativa de empurrar o extremismo para dentro do cotidiano, como se fosse “opinião”.
Mas nazismo não é opinião. É violência.
Não é perspectiva. É hierarquia racial.
Não é ideologia comum. É doutrina de extermínio.
Quando a sociedade falha em afirmar isso com clareza, abre brecha para o próximo “engraçadinho”.
E depois outro.
E depois mais um.
Até que o símbolo já não choque.
Conclusão: não foi só um adolescente — foi um teste, e a sociedade respondeu
A saudação nazista em uma festa de formatura no RN deve ser tratada pelo que é: um ato grave, histórico e moralmente inaceitável.
Mas é preciso dizer o mais duro:
o maior escândalo do caso não é o adolescente.
o maior escândalo é a plateia.
Porque quando o nazismo aparece como encenação pública e não é imediatamente esmagado por repúdio coletivo, o que se revela não é só um indivíduo mal informado — é um país que está ficando confortável demais diante do abismo.
E isso, sim, é um alarme.
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.