Amor, Estranho Amor: a pornografia do olhar — quando o cinema vira tribunal

Nota: texto de crítica cultural; não há erotização; tema sensível; recomendado para adultos.

Nem todo filme é assistido. Alguns são julgados.

Há obras que entram no imaginário público pelo que supostamente “ousaram fazer”: arranhar o pudor. Amor, Estranho Amor, lançado em 1982 e dirigido por Walter Hugo Khouri, pertence a essa linhagem — a dos filmes que deixam de ser cinema e passam a ser processo. A imagem se torna ré. O espectador, jurado. E a moral aparece como sentença antes mesmo do debate começar.

O que está em jogo não é somente “o que acontece” na tela, mas o tipo de humanidade que se revela quando alguém decide assistir — e quando alguém decide condenar. Porque quando o cinema vira tribunal, a imagem deixa de ser arte e se transforma em prova.

E talvez o que o filme revela seja que a sociedade não teme o pecado. Ela teme o espelho.

Resumo em 5 pontos:

  1. Amor, Estranho Amor , de Walter Hugo Khouri, é menos um filme “sobre escândalo” e mais uma obra que revela como a sociedade transforma cinema em julgamento moral.
  2. A tese central é que a “pornografia” mais perturbadora não está apenas no corpo, mas no olhar: na forma como a câmera enquadra e obriga o espectador a sustentar a própria posição ética.
  3. O espaço do filme (quartos, corredores, ambiente fechado) funciona como um signo simbólico: um território onde desejo e culpa circulam como linguagem social.
  4. A polêmica em torno do longa mostra como o Brasil costuma lidar com imagens incômodas: reduzindo obras complexas a rótulos (“proibido”, “imoral”), substituindo interpretação por condenação.
  5. No fim, o filme permanece relevante porque exige responsabilidade do público: ele não pede concordância, mas força uma pergunta incômoda — quem está sendo revelado quando assistimos e quando condenamos?

Direção e recepção: o filme proibido da Xuxa

Os filmes de Walter Hugo Khouri frequentemente orbitam a decadência emocional e a sensação de claustrofobia íntima.

É nesse terreno que surge Amor, Estranho Amor.

A premissa já parecia feita para provocar: um drama situado num espaço de convivência ambígua onde um garoto atravessa experiências quase traumáticas, de um aprendizado precoce.

Não se trata de uma narrativa “sobre” sexo, mas de poder e vertigem moral — temas que, em Khouri, raramente vêm com frases explicativas.

O elenco contribuiu para a ambiguidade pública do filme. A presença de Xuxa Meneghel, longe do estatuto de “rainha dos baixinhos” que consolidaria em meados de 1980, tornou-se um imã narrativo que reorganizou a memória coletiva. A obra foi progressivamente recontada como “o filme proibido da Xuxa”, como se o contexto cinematográfico não existisse.

O filme não foi apenas visto — foi rebatizado pela cultura pop.

E o que se entende por Amor, Estranho Amor é inseparável de sua recepção social.

O longa carregou controvérsias e passou a operar como um caso de moralidade nacional: um objeto audiovisual arrancado do espaço crítico, arrastado para a arena do “pode/não pode”. E o que poderia ser analisado como construção estética passou a ser tratado como confissão.

Esse deslocamento é decisivo porque nos diz muito sobre o Brasil: um país que frequentemente lê imagens como se fossem crimes, mas lê crimes como se fossem entretenimento.

O filme vira um sintoma cultural de algo maior. A história de Amor, Estranho Amor, portanto, não é só cinematográfica. Com o tempo, a carreira de Khouri foi sendo engolida pela narrativa do filme como escândalo. Muita gente chega ao longa como quem visita um local de crime: para encontrar o “absurdo”, e não a linguagem. Quando isso acontece, o que se perde não é apenas nuance.

Perde-se o próprio cinema.

O Olhar e o que se vê

A polêmica em torno de Amor, Estranho Amor, muitas vezes, falha em nomear o que realmente incomoda. A obra produz desconforto porque coloca o espectador diante de um mecanismo ético: o olhar.

O cinema, afinal, é uma máquina de ver. E toda máquina de ver é também uma máquina de organizar o mundo.

O que está sendo narrado

Amor, Estranho Amor acompanha a experiência de um garoto num ambiente de ambiguidade moral e sensualidade adulta, um espaço que lembra mais um palco de iniciação. Ali, o filme cria um microcosmo onde o desejo circula em relações mediadas por carência, sedução, humilhação e poder.

A sexualidade não aparece como libertação, mas como linguagem contaminada — usada para dominar, convencer e ferir.

Esse é o primeiro ponto-chave para compreender o longa: ele não trata sexo como “tema” e sim como sintoma.

A pornografia do olhar: quando o quadro é um ato moral

A expressão “pornografia do olhar” aqui não é retórica. Ela é descritiva.

Pornografia, no senso comum, é definida pela exposição do corpo. Mas na semiótica do audiovisual, a pornografia nasce quando a imagem vira apropriação. Quando o corpo filmado é tratado como objeto de consumo e a câmera age como mão invisível — tocando com enquadramentos.

E uma vez que o filme nos obriga a assistir, ele nos obriga também a reconhecer o pacto secreto do cinema: o espectador sempre deseja, mesmo quando finge que apenas analisa.

O espaço como signo: o “hotel” da culpa

O cenário funciona como um personagem silencioso. É um espaço fechado, de quartos e corredores, onde as relações parecem sempre acontecer à meia-luz. A ideia de “ambiente de hospedagem” é simbolicamente perfeita. Todos estão de passagem, ninguém passa ileso.

O espaço, aqui, não é realista. Ele é alegórico. Um Brasil elitizado, onde a moral pública não entra — mas onde a moral pública será invocada depois para “expulsar” o que viu.

Iniciação como violência simbólica

O filme se organiza em torno do tabu: a infância como fronteira.

A figura do garoto não funciona apenas como personagem. Ele revela o caráter predatório do ambiente e a presença que expõe a hipocrisia do mundo adulto.

A iniciação sexual, nesse contexto, não é um rito de passagem “natural”. Ela opera como violência simbólica: uma transferência de mundo. O menino não é levado apenas a “ver coisas”. Ele é levado a conhecer uma gramática do adulto onde afeto e domínio se confundem.

Esse é o verdadeiro terror do filme: ele sugere que o trauma não nasce do ato explícito — nasce do desejo, ensinado cedo demais.

Encenação do desconforto: quando o cinema recusa ser elegante

Khouri não filma para aliviar. A mise-en-scène é deliberadamente incômoda.

A direção de atores sustenta uma teatralidade calculada: os gestos parecem maiores que a vida, e essa artificialidade produz um efeito filosófico. O espectador percebe que está assistindo a um mecanismo: o desejo como negociação.

O ritmo também contribui para o mal-estar. O filme evita a montagem que “limpa” o olhar. Quando a câmera demora, ela produz um ponto que fere. Não necessariamente por ser explícito, mas por insistir.

O tribunal do público: o filme como bode expiatório

Há um ponto em que Amor, Estranho Amor deixa de ser só cinema brasileiro e vira a relação entre cultura e moralidade. A obra foi absorvida por uma narrativa social que funciona como julgamento: “isso não deveria existir”.

Mas aqui está a operação simbólica mais sofisticada do caso: quando a cultura transforma um filme em escândalo, ela se livra da obrigação de interpretá-lo. O choque substitui o pensamento.

Nesse sentido, o filme é menos “pornográfico” do que a reação a ele. Porque o tribunal cultural transforma o longa em objeto de consumo moral: pessoas querem ver, mas querem condenar. Querem condenar, mas querem ver.

O público, então, se torna parte da obra. Como personagem histórico.

E isso coloca Amor, Estranho Amor num lugar estranho: ele é um filme que passou a ser lido como signo cultural sobre o que o Brasil faz com imagens quando elas saem do controle: prende, proíbe, fofoca, distorce.

Quando o cinema vira tribunal, a sentença quase sempre diz mais sobre o juiz do que sobre o réu.

A Obra condenada

Há uma pergunta que Amor, Estranho Amor obriga o espectador a enfrentar: o que exatamente está sendo condenado quando condenamos uma obra?

Susan Sontag, em seu célebre ensaio contra o excesso de interpretação, alertava para um vício da cultura: substituir a experiência da obra por um “veredito” sobre ela.

Mas Amor, Estranho Amor é um desses casos em que absolver ou condenar se torna uma resposta fácil demais para um problema complexo demais.

O filme não é confortável. E talvez isso explique a violência de sua recepção. O espectador contemporâneo está acostumado a obras “polêmicas”, mas domesticadas: chocam com uma mão e pedem desculpa com a outra. Khouri, ao contrário, não oferece o alívio moral. Seu cinema é cruel porque é seco.

O que Amor, Estranho Amor expõe é o caráter profundamente social da pornografia. Não se trata de sexo; trata-se de hierarquia do olhar.

O tribunal cultural, nesses casos, opera e o filme complexo vira “o filme proibido”. O diretor vira “o provocador”. A obra vira “prova”. O espectador vira “vítima” ou “cúmplice”.

E a interpretação é justamente o que o cinema, quando digno desse nome, exige.

No centro disso tudo, permanece o olhar.

O cinema não é apenas “o que mostra”. É também como mostra. E o espectador não é apenas “quem vê”. É também o sujeito que, ao ver, participa — nem que seja com culpa, negação ou fúria. Por isso o longa não deixa o público na posição confortável da distância.

Conclusão: quando o cinema vira tribunal, a imagem vira prova

Amor, Estranho Amor não é um filme fácil de defender — e talvez nem deva ser.

O filme de Khouri existe onde o cinema deixa de ser entretenimento e vira tensão.

A questão mais honesta não é “podemos permitir que ele exista?”. A questão é: o que fazemos com ele enquanto linguagem?

Se o espectador entra na sala como juiz, sai com uma sentença pronta e uma moral intacta. Mas se entra como leitor — atento à encenação, ao enquadramento, ao poder que circula por trás dos gestos — sai diferente.

Porque quando o cinema vira tribunal, o problema não é o filme. É a incapacidade de sustentar o olhar sem transformar a arte em caça.

Devemos assistir a “Amor, Estranho Amor” hoje?

Assistir ao filme hoje pode fazer sentido por um motivo claro: ele é um documento cultural — do modo como o Brasil lida com imagens, sexualidade e moral pública. Não se trata de “normalizar” nada, e sim de compreender como certos tabus são fabricados, consumidos e reciclados. Ver a obra com distanciamento crítico ajuda a desmontar a mitologia que a reduziu a escândalo, devolvendo-a ao lugar mais exigente: o de um filme autoral que quis ferir.

Mas há uma ressalva ética incontornável: este não é um filme para “curiosidade”. Ele exige um espectador adulto, preparado para lidar com desconforto, e capaz de separar choque ou moralismo. Quando alguém assiste como quem procura “a cena proibida”, o filme deixa de ser obra e vira fetiche — e isso, sim, é repetir a pornografia do olhar que ele denuncia. Nesse caso, melhor não assistir: porque o olhar errado transforma a experiência em violência simbólica.

Portanto, o ponto não é assistir/não assistir, e sim o modo de assistir. Se você busca cinema como linguagem e debate cultural, vale. Se busca escândalo como entretenimento, não vale.

Amor, Estranho Amor é um filme que cobra postura — porque o que ele coloca em cena é a pergunta mais desconfortável de todas: o que o público faz com o proibido quando ninguém está olhando?

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