Na Parte 1, falamos sobre animações populares que emocionam e fazem refletir — filmes com apelo universal, capazes de tocar memórias e afetos de qualquer pessoa que já viveu perdas, mudanças e recomeços. Agora, nesta Parte 2 Animações que falam com o adulto interior, o clima muda: entram em cena obras menos “confortáveis”, mais densas e, em muitos momentos, mais corajosas.
Aqui, a animação deixa de ser só uma linguagem poética e passa a ser também uma ferramenta de enfrentamento. Ela encara temas como alienação, exílio, trauma, propaganda, desigualdade e crise existencial — sem precisar do realismo do live-action para doer. Pelo contrário: às vezes, é justamente o contraste entre o traço e a brutalidade do conteúdo que torna tudo ainda mais marcante.
É o tipo de filme que não acaba quando sobe o crédito; ele continua rodando na cabeça.
Se você está buscando animações adultas, filmes animados “cult” e histórias que conversam com o lado mais complexo da nossa experiência humana, esta lista é para você. São cinco títulos que comprovam o que muitos cinéfilos já sabem: animação não é gênero infantil — é cinema em estado puro.
1. O Menino e o Mundo (2013)
Esta animação brasileira dirigida por Alê Abreu é uma experiência visual extraordinária que utiliza um estilo artístico único, combinando desenhos simples que lembram rabiscos infantis com colagens complexas e texturas ricas. A história segue um menino que sai em busca de seu pai, que partiu para a cidade grande em busca de trabalho, e no caminho descobre as complexidades e contradições do mundo moderno.
Para os adultos, “O Menino e o Mundo” oferece uma poderosa crítica social e política sobre globalização, industrialização e desigualdade. Sem utilizar diálogos convencionais – a comunicação acontece através de uma linguagem inventada e sons musicais – o filme consegue transmitir mensagens universais sobre o impacto do capitalismo nas comunidades tradicionais e no meio ambiente.
A jornada do menino é vista através de seus olhos inocentes, o que torna ainda mais impactante o contraste entre a simplicidade colorida do campo e a opressiva monotonia da cidade industrial. A trilha sonora, que mistura elementos da música brasileira tradicional com sons urbanos, complementa perfeitamente a narrativa visual. Indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação em 2016, “O Menino e o Mundo” é um exemplo brilhante de como a animação pode transcender barreiras linguísticas e culturais para comunicar verdades profundas sobre nossa sociedade.
2. Persépolis (2007)
Baseado na autobiografia em quadrinhos de Marjane Satrapi, “Persépolis” é uma animação franco-iraniana que narra a história de uma menina crescendo durante e após a Revolução Islâmica no Irã. Com um estilo visual minimalista em preto e branco que reflete a estética da graphic novel original, o filme acompanha Marjane desde sua infância curiosa e rebelde até sua vida como uma jovem adulta lidando com questões de identidade, exílio e pertencimento.
Para os adultos, “Persépolis” oferece uma perspectiva íntima sobre eventos históricos e políticos complexos através dos olhos de alguém que os viveu. O filme não se limita a apresentar fatos históricos, mas mostra como as grandes mudanças políticas afetam a vida cotidiana, as relações familiares e o desenvolvimento pessoal dos indivíduos.
A jornada de Marjane entre culturas – do Irã pós-revolucionário para a Europa e de volta – explora temas universais como o choque cultural, a alienação e a busca por autenticidade em um mundo que frequentemente exige conformidade. O humor ácido e a honestidade brutal com que Satrapi retrata suas próprias falhas e contradições tornam a narrativa profundamente humana e acessível. Indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação em 2008, “Persépolis” demonstra o poder da animação como meio para contar histórias pessoais com relevância política e social.
3. Anomalisa (2015)
Dirigido por Charlie Kaufman e Duke Johnson, “Anomalisa” é uma animação em stop-motion que se destaca por sua abordagem madura e nuançada das relações humanas. O filme segue Michael Stone, um autor de livros de autoajuda sobre atendimento ao cliente que vê todas as pessoas com o mesmo rosto e voz – até conhecer Lisa, uma mulher que se destaca da multidão homogênea durante uma conferência em Cincinnati.
Para o público adulto, o filme é uma exploração profunda da solidão e alienação na sociedade contemporânea. A incapacidade de Michael de distinguir as pessoas ao seu redor representa a desconexão emocional que muitos adultos experimentam em um mundo cada vez mais padronizado e superficial. Sua breve conexão com Lisa – a “anomalia” que dá nome ao filme – oferece um vislumbre de autenticidade em uma vida marcada pela monotonia.
A escolha da animação stop-motion com bonecos que mostram as linhas de separação em seus rostos serve como metáfora visual para a artificialidade das interações sociais e a fragilidade da identidade humana. O filme aborda temas como depressão, crise de meia-idade e a busca por significado com uma honestidade raramente vista no cinema mainstream. Indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação em 2016, “Anomalisa” prova que a animação pode ser um meio poderoso para explorar as complexidades mais sombrias da experiência adulta.
4. Ilha dos Cachorros (2018)
Dirigido por Wes Anderson, “Ilha dos Cachorros” é uma animação em stop-motion ambientada em um futuro distópico no Japão, onde todos os cães são banidos para uma ilha de lixo após um surto de “gripe canina”. A história segue Atari, um menino de 12 anos que rouba um avião para resgatar seu cão de estimação, e os cinco cães que o ajudam em sua missão.
Para os adultos, o filme é uma alegoria política sobre xenofobia, propaganda e abuso de poder. A perseguição aos cães reflete como sociedades frequentemente demonizam grupos minoritários em tempos de crise, usando-os como bodes expiatórios para problemas mais complexos. A manipulação da mídia e a corrupção governamental retratadas no filme ecoam preocupações contemporâneas sobre a fragilidade das instituições democráticas.
A estética visual meticulosamente construída de Anderson, com sua simetria característica e atenção aos detalhes, cria um mundo que é simultaneamente estranho e familiar. A decisão de manter os diálogos japoneses sem legendas (exceto quando traduzidos por um intérprete dentro do filme) coloca o espectador na posição de um estrangeiro, reforçando temas de comunicação e compreensão intercultural. O filme também explora a lealdade incondicional dos cães como contraponto à complexidade moral dos humanos, oferecendo uma reflexão sobre o que significa ser verdadeiramente “civilizado”.
5. Valsa com Bashir (2008)
Este documentário animado israelense, dirigido por Ari Folman, é uma obra profundamente pessoal que explora a memória, o trauma e a responsabilidade moral. O filme segue a jornada do próprio diretor para recuperar suas memórias perdidas como soldado durante a Guerra do Líbano de 1982, particularmente relacionadas ao massacre de Sabra e Chatila.
Para o público adulto, “Valsa com Bashir” oferece uma reflexão poderosa sobre os efeitos psicológicos da guerra e como nossa mente processa eventos traumáticos. A animação, criada através de uma combinação única de técnicas de desenho tradicional, animação flash e rotoscopia, permite que o filme navegue fluidamente entre realidade, memória e pesadelo, refletindo a natureza fragmentada e subjetiva da recordação traumática.
O filme levanta questões difíceis sobre culpa coletiva e individual, sobre ser testemunha de atrocidades e sobre como sociedades lidam com seus passados problemáticos. A decisão de terminar o filme com imagens reais do massacre cria um choque visceral que força o espectador a confrontar a realidade histórica por trás da narrativa animada. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, “Valsa com Bashir” demonstra como a animação pode ser usada não apenas para contar histórias fantásticas, mas também para processar e comunicar experiências humanas profundamente reais e dolorosas.
Conclusão
Fechar essa lista é entender que o “adulto interior” não é uma nostalgia infantil, mas uma espécie de espelho emocional: um lugar dentro da gente onde moram nossas perguntas mais honestas. E essas animações — cada uma do seu jeito — têm a capacidade rara de visitar esse lugar sem pedir licença. Elas falam sobre identidade, pertencimento, solidão e memória como o cinema deveria sempre falar: sem subestimar o espectador.
O que torna esses filmes tão poderosos não é apenas a técnica (embora ela seja impressionante), mas o fato de que cada história trata a vida como ela é: contraditória, imperfeita e, ainda assim, cheia de significado. Algumas obras daqui são doces, outras são duras. Mas todas têm algo em comum: elas respeitam o público adulto. Não entregam respostas prontas. Elas provocam.
E se alguém ainda insistir em dizer que animação é “coisa de criança”, a resposta está nessas duas partes. Basta indicar um desses títulos e esperar o silêncio depois do filme — aquele silêncio típico de quando a história acerta bem no centro.
Agora eu quero saber: qual animação faltou aqui e merecia entrar numa Parte 3?
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.




