O Homem que a História Não Viu: Uma Crítica de Sonhos de Trem

Joel Edgerton como Robert Griner com um machado na neve em cena do filme Sonhos de Trem (2024)

Sonhos de Trem (2024), dirigido por Clint Bentley e estrelado por Joel Edgerton e Felicity Jones, é a adaptação cinematográfica da novela Train Dreams, de Denis Johnson. Ambientado na América em transformação industrial do início do século XX, o filme acompanha a vida silenciosa de um trabalhador ferroviário marcado pela perda e pelo esquecimento. Nesta análise, examinamos como a obra transforma essa trajetória anônima em um monumento cinematográfico à memória invisível.

A história oficial é um monumento de nomes. Presidentes, generais, inventores — os rostos cunhados na moeda do tempo. Mas quem assenta os dormentes sobre os quais os trilhos do progresso são fixados? Sonhos de Trem (2024), dirigido por Clint Bentley, não é um filme sobre esses nomes. É um monumento à sua ausência.

Adaptando o romance fragmentado e poético de Denis Johnson, a produção ergue sua narrativa a partir do silêncio deixado pelos livros. Seguimos Robert Griner (Joel Edgerton), um lenhador e trabalhador ferroviário no coração da América em transformação industrial. Sua vida, entre o breve lampejo de felicidade ao lado da esposa Glades (Felicity Jones) e a devastação de um luto eternizado por um incêndio florestal, é narrada em ritmo de respiração larga. O filme se move com a paciência implacável do crescimento de uma árvore e a violência súbita de um machado.

A tensão não nasce de um vilão convencional, mas do próprio curso do tempo e do apagamento sistemático. Sonhos de Trem propõe um cinema contemplativo que, ao buscar a beleza estética absoluta — graças à fotografia onírica do brasileiro Adolfo Veloso —, coloca-se numa corda bamba delicada. Até que ponto a contemplação pode, paradoxalmente, suavizar o drama áspero do esquecimento que pretende denunciar?

A Jornada de um Filme-Fantasma

A trajetória de Sonhos de Trem desde sua concepção até as telas é um caso singular no ecossistema do cinema independente contemporâneo. O filme teve sua estreia mundial no Festival de Sundance em 2024, onde foi amplamente aclamado pela crítica, gerando rápido interesse de distribuidores. Foi uma produção da Blackbear Pictures, produtora conhecida por apostas autorais como The Assistant (2019) e The Humans (2021). Até então, a Blackbear atuava apenas na produção, mas a experiência bem-sucedida deste projeto parece ter sido um catalisador: após a venda de Sonhos de Trem, a empresa anunciou planos de iniciar suas próprias atividades de distribuição.

O caminho até o público seguiu a rota agora comum a filmes de prestígio com ambições awards. Um lançamento limitadíssimo em cinemas no final de 2024, estrategicamente calculado para se qualificar para a temporada de prêmios, seguido por uma aquisição pela Netflix, que o disponibilizou globalmente em seu catálogo no primeiro trimestre de 2025.

Dirigido por Clint Bentley (que co-escreveu o roteiro com Greg Kwedar) e protagonizado por Joel Edgerton e Felicity Jones, o longa-metragem se apoia em um pilar técnico fundamental: a fotografia do brasileiro Adolfo Veloso, cujo trabalho aqui projetou seu nome no circuito internacional.

Este contexto é crucial para entender o objeto analisado: Sonhos de Trem é um produto do sistema de festivais, feito para ser visto com atenção, que encontrou na Netflix uma forma de existência massiva, porém doméstica.

Um filme-fantasma que, tal qual seu protagonista, transitou rapidamente pelo mundo físico (as salas de cinema) para se estabelecer no reino onipresente do streaming. Um destino talvez irônico para uma obra que justamente lamenta o apagamento da materialidade do trabalho humano.

A Escolha da Forma: O Cinema como Contemplação Ativa

Clint Bentley e sua equipe não tentam adaptar o livro de Denis Johnson página a página; eles transpõem sua respiração.

A opção estética é clara e arriscada: abraçar o cinema contemplativo, em uma linhagem que evoca o olhar meditativo de um Terrence Malick. O que está em jogo não é a trama, mas o tempo percebido.

O filme rejeita o melodrama explicativo, os diálogos expositivos. A narrativa se desdobra em episódios oníricos, com saltos temporais agressivos que não são meros recursos de edição, mas a própria essência do tema.

Um corte nos leva de um Robert jovem e esperançoso para um homem cuja face já está marcada por décadas de trabalho silencioso e perda. A agressividade está justamente na ausência de transição: a vida, o filme parece dizer, é feita dessas fraturas, não de continuidades suaves.

A Luz que Escreve: Fotografia como Personagem e Memória

É neste espaço aberto pela narrativa que a fotografia de Adolfo Veloso deixa de ser registro para se tornar linguagem primordial.

Veloso não ilumina cenas; ele escreve com a luz. Seu uso obsessivo da luz natural e dos crepúsculos dourados — a chamada “hora mágica” — não tem a função decorativa do pictorialismo.

Aqui, a luz é textura emocional. A câmera acaricia a poeira que dança nos raios de sol dentro de uma cabana de madeira. Torna palpável o suor no rosto de Robert, faz da névoa da manhã uma membrana entre o real e o sonho.

A natureza, sob seu olhar, nunca é pano de fundo. É uma força antagônica e consoladora.

A sequência do breve idílio entre Robert e Glades é filmada com uma calorosidade íntima, onde a floresta parece abraçá-los.

Já o incêndio florestal, ponto de virada da história, é uma explosão de caos luminoso que consome o quadro inteiro, um inferno que apaga não apenas árvores, mas um futuro possível. Veloso filma a passagem do tempo na própria matéria: na textura da casca de uma árvore, na ferrugem de uma ferramenta, na erosão de um rosto.

O Símbolo que Tudo Resume: As Botas na Árvore

Dentro desse vocabulário visual, uma imagem emerge como síntese poética e semiótica perfeita: as botas de trabalho de Robert, pregadas em um tronco e lentamente engolidas pelo crescimento da árvore ao longo dos anos.

Este símbolo opera em múltiplas camadas.

Primeiro, é o signo do trabalho braçal, do corpo que se funde à tarefa. Segundo, é uma metáfora da memória: a tentativa de marcar presença, de fincar um marco no mundo, que é simultaneamente preservada e obliterada pela natureza. A árvore aceita o objeto, mas o assimila, distorce, transforma em parte de si, apagando sua função original.

Por fim, as botas são o monumento invisível do homem comum. Não é uma estátua de bronze em uma praça; é um vestígio íntimo, quase secreto, da passagem de um homem.

O filme, como aquela árvore, toma a história anônima de Robert e a assimila em sua própria textura, tornando-a bela — mas também questionando se essa beleza estética não seria uma nova forma de assimilação, um apagamento mais suave.

O Preço do Olhar: Beleza Estética vs. Profundidade Dramática

É aqui que Sonhos de Trem enfrenta seu dilema mais crucial. Ao eleger a contemplação como método, Bentley às vezes deixa que o brilho da forma ofusque a aspereza do conteúdo. O episódio mais gritante — e fiel ao livro — é a violência fatal contra um trabalhador chinês, visto de relance e pouco explorado.

Na economia do filme, o evento serve mais para marcar a brutalidade do ambiente e a confusão moral de Robert do que para investigar o racismo estrutural ou a violência contra comunidades imigrantes que construíram ferrovias americanas.

A pergunta que fica é se a abordagem contemplativa, ao estetizar a dor e o trauma, não acaba por distanciar o espectador do impacto histórico concreto que a obra também busca evocar. A solidão de Robert é profunda e tocante, mas a dor coletiva de outros “invisíveis” parece ficar fora do quadro, sugerida, porém não confrontada.

O risco é que o filme, em sua busca por universalizar a condição do anonimato, acabe por suavizar as particularidades mais duras da história que escolheu retratar.

Da Literatura ao Cinema: Adaptar o Inadaptável

A obra de Denis Johnson, Train Dreams, é um artefato literário notoriamente elusivo: uma novela em fragmentos, mais interessada no estado de espírito do que na ação, na reverberação do que no evento.

Adaptá-la não era uma questão de expandir, mas de transmutar. O cinema de Bentley e Kwedar realiza essa alquimia ao entender que, se a prosa de Johnson é poética, o equivalente cinematográfico não está na narração em voice-over, mas na própria textura da imagem e no ritmo do montagem.

Onde o livro oferece o vazio entre as frases para o leitor habitar com sua imaginação, o filme oferece o silêncio contemplativo de um plano-sequência ou a paisagem sonora de uma floresta.

Robert Griner, no livro, é uma consciência atravessada pelo mundo. No filme, ele se torna um corpo no mundo, testemunhado pela câmera. Joel Edgerton constrói esse corpo com economia magistral: seus ombros curvam-se sob o peso invisível dos anos, seus olhos guardam a tragédia como um segredo íntimo.

A adaptação, portanto, é bem-sucedida não por ser fiel à letra, mas por ser fiel ao espírito de um homem sendo lentamente escrito — e apagado — pela paisagem.

Conclusão: Para Que Servem os Monumentos Invisíveis?

Sonhos de Trem termina como começou: na imensidão silenciosa.

Não há redenção grandiosa para Robert Griner, nenhum reconhecimento póstumo, nenhuma lápide com seu nome. Seu legado são as botas deformadas pela árvore, um fio de fumaça na memória de ninguém, o eco de um machado que parou de bater. O filme, então, se coloca como um ato paradoxal de preservação: é um monumento cinematográfico espetacular dedicado à ideia do apagamento.

Sua grandeza e sua limitação residem no mesmo gesto. Ao escolher a via da beleza contemplativa, ele consegue tornar visceral e universal a dor do anonimato. E nos convida a desacelerar e a ver a vida que se esvai entre os dedos do tempo.

No entanto, ao fazê-lo, pode inadvertidamente emoldurar essa dor, tornando-a aceitável, até bela. A pergunta que o filme deixa, como uma ferida aberta, é: podemos realmente honrar o invisível sem correr o risco de, ao iluminá-lo com tanta beleza, torná-lo outra coisa?

No final, Sonhos de Trem é menos sobre o passado que perdemos e mais sobre o presente que deixamos de ver.

Ele nos lembra que a história não é apenas o que está registrado, mas também o que foi sussurrado e depois silenciado. O filme é esse sussurro, amplificado em um suspiro cinematográfico longo e melancólico.

É um aviso e um lamento: antes de virarmos a página, devemos nos perguntar quantas sombras ainda habitam seus espaços em branco.

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