O Fim da Graça: cancelamento, culpa e a asfixia do humano na era digital

Mulher assustada olhando para o celular, representando a cultura do cancelamento e a autocensura nas redes sociais

A cultura do cancelamento surge de um tipo de silêncio feito de excesso. É o silêncio do comentário editado pela ansiedade, do riso contido diante de uma piada potencialmente ambígua. É o som do dedo pairando sobre o teclado, antes de se retirar vencido pelo cansaço da guerra preventiva. Esse silêncio é o monumento invisível da nossa era, que consagra o medo.

Mas a cultura do cancelamento nas redes sociais não é apenas o mecanismo punitivo que desfere o golpe final. Ela é, sobretudo, a profecia autorrealizável que antecede o castigo. É o sistema de vigilância que nos treina para sermos os primeiros censores de nós mesmos.

O que observamos, portanto, não é apenas a circulação de julgamentos, mas o definhamento lento de um conceito antigo e vital: o conceito de graça.

A graça é um perdão que precede a perfeição, é o benefício da dúvida, a chance de um segundo ato na narrativa de uma vida.

Este ensaio é uma investigação sobre o fim dessa graça. Uma análise sobre como transformamos a praça digital em um tribunal da perfeição impossível, onde o processo é a primeira vítima a ser sacrificada. E como, nesse ato, asfixiamos algo fundamental da nossa própria condição.

A autópsia do cancelamento

Para compreender a topografia moral em que o cancelamento se ergue, é preciso mapear a colisão de duas paisagens: a cultura, e a tecnologia.

O impulso de policiar discursos é um ritual arcaico. A novidade não reside no julgamento, mas no palco, no alcance e na permanência que a infraestrutura digital proporcionou.

O fenômeno que chamamos de “cultura do cancelamento” cristalizou-se na segunda metade da década de 2010, impulsionado pela convergência de três forças: a ascensão das redes sociais, a economia de atenção que recompensa a performance da indignação, e um clima político polarizado que transformou a disputa ideológica em uma guerra de identidades.

A anatomia do ciclo

O padrão tornou-se reconhecível. Um ator público — artista, escritor — tem uma declaração, obra ou ação passada desenterrada e contextualizada como ofensiva por um grupo.

(Já testemunhei esse roteiro se desenrolar em tempo real mais de uma vez. Em grupos de leitores, em comunidades de cinema, em perfis aparentemente periféricos. O mesmo mecanismo, a mesma pressa, a mesma certeza precoce. Em alguns casos, bastou uma frase fora de contexto para transformar uma pessoa em um caso.)

A acusação viraliza, muitas vezes através de tomadas de tela (screenshots) que funcionam como provas, descoladas de seu ecossistema original. Segue-se um período de demandas por prestação de contas, que frequentemente assume a forma de um roteiro: pedido de desculpas público, afastamento temporário de projetos, doações para causas relacionadas.

O resultado final varia drasticamente.

Enquanto figuras consolidadas com poder institucional (estúdios, editoras) muitas vezes sobrevivem ao ciclo com arranhões, indivíduos podem ver suas carreiras evaporarem.

Casos como os da autora J.K. Rowling (debates sobre identidade de gênero), do comediante Louis C.K. (denúncias de assédio) e de inúmeros influenciadores digitais ilustram o espectro de consequências, sempre mediadas por variáveis de poder, raça e gênero.

Este mecanismo não surgiu do vácuo. Ele é, em parte, uma reação legítima e poderosa de grupos historicamente silenciados que encontraram, finalmente, um megafone para contestar estruturas de poder e discursos opressivos.

A crítica ao cancelamento, portanto, não pode ser confundida com a defesa da impunidade para discursos de ódio ou assédio.

Quando a lógica do julgamento migra da busca por justiça e reparação para a pura performatividade do espetáculo punitivo — alimentado por algoritmos que priorizam o conflito —, a graça é a primeira coisa a ser subtraída do tribunal digital.

O humano, em sua condição falível e em constante estado de revisão, torna-se um bug nessa máquina.

A lenta asfixia

O fim da graça opera em duas frentes simultâneas: uma externa, do espetáculo do julgamento, e outra interna, da construção de uma subjetividade paralisada. A primeira é visível, teatral. A segunda é silenciosa, atmosférica. É nesta segunda que a asfixia se consuma.

A Biblioteca de Babel do Erro

Jorge Luis Borges imaginou uma biblioteca que continha todos os livros possíveis, a maioria nonsense. A internet construiu, involuntariamente, a Biblioteca de Babel do Eu.

Cada tweet, cada comentário esquecido, cada foto de uma festa distante é um volume nessa estante infinita, aguardando para ser recontextualizado como prova de caráter. O passado, que na experiência analógica se perdia, ganha no digital uma permanência fantasmagórica.

Ele não é mais memória; é arquivo. E um arquivo é um território a ser minerado, não uma narrativa a ser vivida. Essa cristalização do tempo transforma a biografia em um processo judicial perpétuo, onde o “eu” de dez anos atrás pode ser citado para condenar o “eu” de hoje. A possibilidade de crescimento, de mudança de ideia — o cerne da experiência humana — torna-se uma vulnerabilidade jurídica.

A Morte do Rascunho Público

Se o passado é uma armadilha, o presente se torna um campo minado.

A cultura do cancelamento, antecipada pelo medo que gera, assassina o conceito de “processo público”.

Artistas e pensadores são incentivados a apresentar apenas produtos finais, polidos, revistos por comitês de sensibilidade. O esboço tornou-se um luxo perigoso.

Percebo isso em mim mesmo. Em textos que demoram semanas não por falta de ideias, mas por excesso de vigilância. Frases revisadas não por precisão, mas por autoproteção. Parágrafos limados até perderem o risco — e, com ele, a vida.

As entrevistas convergem para um script de respostas ensaiadas, onde a espontaneidade é o verdadeiro tabu.

A Economia Moral das Hashtags

O algoritmo das plataformas é movido a engajamento, e nada engaja mais do que a fúria moral e o conflito tribal. O cancelamento, portanto, também é um espetáculo com valor de mercado. A performance da pureza do acusador e a queda ritualística do acusado geram clicks, visualizações, seguidores.

A graça — que implicaria em complexidade, paciência — é economicamente ineficiente. Ela não gera picos de audiência. O sistema, portanto, é perversamente incentivado a promover a lógica do binário: inocente ou culpado, cancelado ou absolvido, conosco ou contra nós.

A nuance, o território vasto e incômodo onde a maioria da vida humana verdadeiramente reside, é algoritmicamente invisível.

O Corpo que Não Sangra

Há uma violência abstrata nesse processo, pois ele ocorre a uma distância segura.

O “cancelado” vira um meme, um screenshot, um caso de estudo. Sua humanidade é reduzida a um signo de uma falha moral. Essa abstração permite a crueldade em escala industrial, disfarçada de justiça.

Lembro de ler comentários sobre um autor que admirava e não reconhecer mais ali um ser humano, apenas um avatar moral a ser destruído. Foi ali que percebi o quanto essa máquina nos treina para desaprender a empatia.

Perdemos a noção de proporcionalidade.

Um comentário infeliz pode receber o mesmo peso simbólico de um ato de violência comprovada, porque ambos são processados ​​pela mesma máquina de indignação.

A graça está intimamente ligada à compaixão que nasce de ver a falha no outro e reconhecer sua própria fragilidade refletida. A tela nos protege desse reconhecimento. Ela nos transforma em juízes de um processo onde só vemos os autos, nunca o réu.

Em Defesa do Humano (Imperfeito, Contraditório, em Obra)

O que está em jogo transcende a dinâmica das redes sociais e atinge uma questão filosófica primordial: qual a condição do erro na narrativa do humano? 

A cultura do cancelamento, em sua versão mais virulenta, não é um totalitarismo, mas compartilha com ele uma certa aversão pelo acidente humano. Ela sonha com um mundo linguisticamente seguro, moralmente imaculado, onde as identidades são estáveis e as biografias, lineares.

A arte, o pensamento profundo, o amor, a própria evolução moral nascem do risco, do desvio, do equívoco corrigido.

Um romance como Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski é um monumento à luta moral imperfeita. A carreira de um David Bowie foi uma sucessão de “erros” gloriosos, de personagens abandonados e renascimentos desconcertantes. Aprendemos não apenas com os acertos dos outros, mas, principalmente, com seus tropeços e com a forma como se levantaram.

Ao exigirmos uma performance de pureza perpétua, não estamos elevando o padrão ético; estamos erguendo um museu de cerâmica, onde tudo é belo, inerte e intocável.

A graça, neste contexto, é a crença de que uma pessoa não é a pior coisa que já disse ou fez, especialmente quando demonstra um aprendizado genuíno. É, em última instância, um ato de fé na capacidade de transformação — fé essa que a lógica binária do cancelamento descarta como ingenuidade.

Conclusão: Para Além do Binário – Em Busca de um Rascunho Compartilhado

Uma comunidade que só aceita membros imaculados é uma seita, não uma sociedade. A praça pública digital, em seu ideal, deveria ser um espaço de conflito, negociação e perdão. Um “rascunho compartilhado”, como sugeriu o poeta, onde as ideias são riscadas, reescritas e amadurecidas no atrito com o outro, e não escondidas até a perfeição inalcançável.

Isso não significa abdicar da crítica ou da demanda por justiça.

Significa praticar uma crítica com graça. Uma que seja proporcional, contextualizada e que tenha, como horizonte último, a reparação e a transformação. Significa recuperar a coragem do risco intelectual e artístico, aceitando que alguns erros serão cometidos no caminho, e que esse é o preço de um discurso vivo.

Publicar este ensaio é, em si, um pequeno ato de risco. Não porque ele seja radical, mas porque ele é imperfeito. Porque pode ser mal lido. Porque pode ser recortado. Ainda assim, escrevê-lo pareceu mais honesto do que permanecer em silêncio.

O dedo que pairava sobre o teclado no início desta reflexão enfrenta uma escolha. Pode recuar, cedendo ao medo paralisante de nunca estar suficientemente correto. Ou pode pressionar “enter”, aceitando a vulnerabilidade do diálogo, a possibilidade do mal-entendido e a esperança — talvez ingênua — de que, na troca, mesmo os equívocos possam nos levar a um lugar mais sábio e mais humano do que o silêncio.

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