Um corpo desaba. A câmera não treme — é um drone, ou um celular, ou uma IA que reconstitui o instante. O som é cortado, ou distorcido, ou substituído por uma trilha minimalista. Ninguém fala. E ainda assim, algo é dito. Algo é entendido — no Cairo, em Nova York, em Manaus, em Jacarta. Não pela razão, mas pelo pulso […]
A Odisseia de Christopher Nolan — O Cinema Como Labirinto do Retorno
Há filmes que nascem como promessas. Outros, como enigmas. A Odisseia, anunciada por Christopher Nolan, parece ocupar ambos os lugares — e talvez um terceiro, ainda indefinido: o do cinema que se aproxima do mito não para ilustrá-lo, mas para testá-lo à luz do presente. Quando Nolan confirma sua adaptação do poema homérico, o gesto parece ir além da simples […]
Quando Kevin McCallister Abre uma Conta-Corrente: A Infância como Mercadoria Simbólica
Um menino não envelhece. Ele é empilhado. Empilhado em VHS mofados e em memes de Natal que retornam todo dezembro, como se o tempo pudesse ser rebobinado.A infância, quando vira ícone, deixa de ser tempo e passa a ser arquivo. E de tempos em tempos, alguém abre a gaveta, sopra a poeira e coloca o menino de volta em cena […]
Não é Só Protesto — É Narrativa: A Rua como Palco da Semiótica da Justiça
Nenhuma lei se escreve no ar.Toda justiça começa como palavra — mas nem toda palavra cabe em códigos. Quando as instituições falam em nome da Justiça, usam papel timbrado, rituais de batina e gavel. Já a rua, quando fala, usa o suor do corpo, o traço do pincel atômico, o estilhaço da voz rouca ao microfone improvisado. Não repete fórmulas: […]
Por que os Estados Unidos são o melhor país do mundo? — A Sinceridade Como Signo
Há cenas que entram para o imaginário coletivo não apenas pelo conteúdo, mas pela forma como reorganizam o modo como vemos o mundo. O famoso monólogo de Jeff Daniels no primeiro episódio de The Newsroom é uma delas. Ali, diante de uma plateia universitária esperando respostas seguras e previsíveis, o jornalista Will McAvoy abandona o conforto do discurso neutro e […]
4’33’’: O Som do Nada – John Cage e a Escultura do Silêncio
O pianista levanta as mãos sobre o teclado e não as baixa. O gesto, congelado, torna-se o centro de um furacão de expectativa. Na sala de concerto, um ritual é subvertido: o intérprete não produz, o compositor não comanda, a obra não emite um som. 4’33” de John Cage não é uma peça sobre o silêncio, mas uma escultura de tempo […]