Auê: Quando a Fé Brasileira Vira Barulho (e Por Que Isso Incomoda Tanto)

Integrantes do Coletivo Candiero em foto promocional, grupo responsável pela música Auê no gospel brasileiro

No cenário da música gospel brasileira, um refrão simples — “Auê, auê, auê” — tornou-se a linha de frente de uma guerra cultural silenciosa. A canção “Auê (A Fé Ganhou)”, do Coletivo Candiero, explodiu nas plataformas digitais e gerou uma intensa polêmica religiosa e cultural no Brasil.

A repercussão da canção revelou tensões antigas no campo religioso brasileiro, envolvendo estética, identidade cultural e disputas simbólicas sobre o que pode — ou não — ser considerado expressão legítima da fé.

O que era para ser um canto de celebração transformou-se em um campo de batalha simbólico, onde cada elemento – uma palavra coloquial, um nome comum, um ritmo de ciranda – é lido, desmontado e julgado por partes de uma comunidade dividida.

Este texto defende que a polêmica em torno de “Auê” transcende em muito uma discussão sobre gosto musical ou liturgia.

Ela é o sintoma agudo de uma crise de identidade religiosa no Brasil, um conflito sobre quem tem o direito de nomear o sagrado e de definir os códigos pelos quais ele pode ser expresso. A controvérsia revela, no fundo, um profundo desconforto com a própria cultura nacional quando ela tenta ocupar, com sua linguagem e seu corpo, o espaço antes reservado a formas de adoração importadas e consideradas “puras”.

A Gramática do Sagrado: Como a Música Gospel Brasileira Define o “Louvor Adequado”

Para entender o terremoto causado por “Auê”, é preciso primeiro mapear o terreno sísmico da música gospel brasileira.

Por décadas, esse gênero operou sob uma gramática bastante estabelecida. Seu léxico era dominado por termos como “graça”, “glória”, “sangue” e “cruz”; sua sintaxe musical, fortemente influenciada pelo pop-rock americano e por baladas pianísticas, priorizava uma solenidade contemplativa.

O corpo, nesse modelo, é muitas vezes contido – o máximo permitido são palmas no ritmo ou mãos erguidas. É uma estética da transcendência, que busca se distanciar do “mundano”.

A canção do Coletivo Candiero quebra cada uma dessas regras não escritas.

Ela não começa com uma invocação solene, mas com uma cena cotidiana: “Pode entrar, eu ouvi, alagou o olhar”. Seu refrão é uma palavra do linguajar popular, “auê”, que significa barulho, festa, confusão – o antônimo perfeito da quietude reverencial.

E então, apresenta seus personagens: “o Zé” e “a Maria”. Não são metáforas bíblicas, mas nomes comuns do povo brasileiro. A música insiste que a fé ganhou agora, no momento em que “a Maria sambou, sua saia balançou”.

Aqui reside o primeiro e mais profundo choque.

A canção propõe uma teologia encarnada na cultura, que santifica o ordinário. Para seus críticos, essa é uma mistura perigosa entre o sagrado e o profano. Para seus defensores, é simplesmente o Evangelho falando a língua do povo, numa lógica que remonta ao próprio projeto missionário cristão: encontrar Deus dentro da cultura local.

É importante reconhecer, no entanto, que parte da resistência a esse tipo de proposta não nasce apenas de preconceito ou rigidez cultural.

Muitos fiéis associam determinadas formas de expressão à perda de reverência, temendo que o culto se transforme em espetáculo ou entretenimento. Para esse grupo, preservar uma liturgia mais contida é também uma forma legítima de proteger o sentido do sagrado.

O Peso dos Símbolos: Zé, Maria e a Polêmica entre Fé e Cultura Popular

A polêmica, no entanto, não parou na quebra de padrões estéticos. Ela rapidamente mergulhou em um território mais sensível: o da guerra simbólica contra as religiões de matriz africana.

Críticos nas redes sociais foram direto ao ponto: a menção a “Zé” e “Maria” sambando não seria inocente, mas uma referência velada a entidades como Zé Pelintra e Maria Padilha, figuras do panteão das religiões afro-brasileiras. O ritmo de ciranda e samba, nessa leitura, não seria uma celebração da cultura popular, mas uma invasão de elementos “pagãos” no espaço sagrado cristão.

Esta acusação é o núcleo explosivo da questão. Ela expõe uma ferida histórica brasileira ainda pouco elaborada: a associação recorrente entre determinadas expressões culturais populares, sobretudo de matriz negra e periférica, e a ideia de ameaça espiritual.

Esse padrão não surge do nada. Ele se formou ao longo de décadas, em meio a disputas religiosas, sociais e políticas, criando um imaginário no qual certos sons, gestos e símbolos passam a ser vistos como suspeitos antes mesmo de serem compreendidos.

Como observou a vocalista Ana Heloysa em sua defesa, há uma seletividade curiosa nesse julgamento: instrumentos, ritmos e estéticas de origem europeia tendem a ser naturalizados como “neutros”, enquanto referências afro-brasileiras despertam vigilância imediata. Sua provocação é direta: “Essa música toca numa ferida que a gente ainda evita olhar”.

O pastor Lucas Graffunder resumiu esse mecanismo de forma brilhante: “Basta um ritmo nordestino soar diferente e logo aparece o rótulo apressado: ‘isso lembra macumba’. Só que isso costuma ser medo vestido de zelo”.

A acusação de “macumbagem” funciona, portanto, como um um fechamento simbólico rápido, quase automático. É uma forma de negar a legítima reinterpretação cristã desses elementos, insistindo que sua origem (real ou suposta) contamina para sempre seu significado.

“Vinho Novo em Odres Velhos”: A Disputa pelo Futuro da Fé no Brasil

A disputa em torno de “Auê” é, em última análise, uma batalha pela narrativa da identidade cristã no Brasil.

De um lado, há uma visão que podemos chamar de purista e transladada. Nela, a fé deve se expressar em formas “universais” (leia-se, muitas vezes, norte-americanizadas ou europeizadas), protegidas da contaminação do local.

O pastor Paulo Cesar, do Grupo Logos, ecoa essa posição ao defender uma música “puramente evangélica”, “sem máscara, sem disfarce”, onde a cultura brasileira parece ser vista como um potencial “disfarce”.

Do outro lado, emerge uma visão encarnacional e profética, abraçada pelo Coletivo Candiero e por vozes como a do pastor Kenner Terra. Para eles, a fé só é autêntica quando fala a língua do coração do povo, com seu sotaque, seu ritmo e suas cores.

Kenner Terra define “Auê” justamente como algo que “incomoda” por ser feito “com sotaque brasileiro”. É a ideia de que Deus não fala apenas em inglês ou em acordes de piano, mas também no balanço do samba e na simplicidade de um Zé e uma Maria.

Jorge Camargo, ao apoiar o grupo, usou a metáfora bíblica perfeita: “É a velha história: vinho novo em odres velhos rompe os odres!”. “Auê” é esse vinho novo – uma expressão de fé vibrante, corporal e culturalmente específica.

Os “odres velhos” são as estruturas rígidas de pensamento que não conseguem mais conter essa nova maneira de experimentar e declarar o divino. A ruptura é inevitável, barulhenta e, como o próprio título anuncia, causa um “auê”.

Conclusão

A polêmica de “Auê” não se resolverá com um veredito sobre se a música é ou não “apropriada para o culto”.

Seu verdadeiro legado está em ter forçado um espelho diante do cristianismo brasileiro. No reflexo, vemos uma religião ainda em conflito com a nação que habita, ainda hesitante em abraçar a própria pele, o próprio ritmo, a própria alegria barulhenta como caminhos legítimos para o transcendente.

Em um país marcado por profundas desigualdades culturais e religiosas, debates como esse revelam que a música gospel, longe de ser apenas expressão espiritual, também funciona como espaço de disputa simbólica, social e identitária. O caso de “Auê” mostra como fé, cultura e poder continuam profundamente entrelaçados no Brasil contemporâneo.

A pergunta que fica, ecoando a do pastor Graffunder, é profunda: nós, como sociedade e como comunidades de fé, conseguimos reconhecer que Deus fala com povos reais, em linguagens reais?

Ou continuaremos a exigir que o sagrado se comunique apenas em dialetos importados, enquanto tratamos nossa própria cultura como um sinônimo de suspeita?

“Auê” não é uma resposta, mas um convite estridente para essa conversa. E, pelo barulho que causou, fica claro que o convite foi, no mínimo, aceito.

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