O que significa fotografar a Terra? Em ‘O Sal da Terra‘, documentário codirigido por Win Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, a câmera não é um mero instrumento de registro, mas um órgão de percepção sensível que media nossa relação com o mundo.
O filme segue a trajetória do renomado fotógrafo Sebastião Salgado, transformando sua obra em um campo de batalha semiótico onde a natureza oscila entre o sublime e o abjeto.
Aqui, a paisagem deixa de ser pano de fundo. Ela se torna signo carregado de história, trauma e uma possível redenção. Wenders e Salgado não nos convidam apenas a ver; propõem uma gramática visual para decifrar os rastros da humanidade na superfície do planeta.
O Digital e a Tradição
‘O Sal da Terra’ surge em 2014, um período de crescente ansiedade ecológica e de saturação de imagens digitais efêmeras. O trabalho de Sebastião Salgado, desenvolvido ao longo de décadas em preto e branco, representa um contraponto monumental.
Ele é herdeiro de uma tradição humanista da fotografia, mas sua jornada o leva aos extremos da condição humana: êxodos, guerra, fome e, por fim, à gênese do mundo intocado.
De Berlim a Ruanda
O filme atravessa a segunda metade do século XX e o início do XXI, mapeando os grandes deslocamentos e conflitos que moldaram nossa era.
A obra de Salgado documenta a queda do Muro de Berlim, os massacres em Ruanda, a miséria nas minas de ouro do Brasil. Cada projeto é um capítulo de uma antropologia visual da crise.
Culturalmente, o documentário reflete uma virada na carreira do fotógrafo, que, após testemunhar tanta desolação, embarca no épico ‘Gênesis’—um retorno às origens do planeta.
Esta virada não é apenas temática; é ideológica. Representa a busca por um signo puro da natureza, anterior à “queda” da humanidade industrial.
Enquadrando o Ato de Enquadrar
A semiótica do filme opera em dois registros principais: a fotografia de Salgado (o objeto primeiro) e o cinema de Wenders (o objeto segundo que reflete sobre o primeiro).
A câmera do documentário frequentemente observa o fotógrafo em ação, enquadrando o ato de enquadrar.
Este meta-olhar desvela o processo de construção do signo. A natureza, em ‘Gênesis’, não é apresentada como uma realidade objetiva, mas como um texto cultural codificado como “puro”, “eterno” e “sagrado”.
Linguagem, Objetos e Estética
A estética em preto e branco é o signo mestre. Ela remove a cor do mundo para revelar uma essência dramática de texturas, contrastes e formas geométricas.
Nas fotos de conflito, a fuligem, a terra e a pele suada se fundem numa massa tátil de sofrimento. Nas imagens de ‘Gênesis’, as nuvens, as rochas e a água se transformam em abstrações quase mitológicas.
A linguagem cinematográfica de Wenders empresta a quietude e a duração do plano sequência, permitindo que o espectador entre nas fotografias, tornando-as ambientes imersivos.
O objeto crucial, além da câmera, é o próprio corpo de Salgado—envelhecido, curvado, testemunha física que se inscreve na paisagem que captura.
Natureza Tecnológica
A força do filme reside justamente em sua contradição central. Salgado busca uma natureza intocada, um signo de pureza primordial, através de uma mediação tecnológica máxima (câmeras de grande formato, aviões, barcos).
Há um risco de estetização, onde mesmo a devastação e o êxodo podem ser sublimados pela beleza formal implacável do preto e branco.
O documentário, ao celebrar o gênio do fotógrafo, precisa negociar constantemente essa linha tênue entre denúncia e contemplação estética.
Limites Ideológicos e Contradições
A narrativa de redenção pessoal e ambiental—simbolizada pelo reflorestamento da fazenda familiar no Brasil pelo Instituto Terra—pode ser lida como uma solução individualista para uma crise coletiva.
A jornada de Salgado, do inferno humano ao paraíso natural, estrutura o filme como uma epopeia quase bíblica. Esta estrutura, embora poderosa, pode simplificar as complexas forças políticas e econômicas por trás das catástrofes que ele documentou.
A natureza, como signo final, torna-se um refúgio, talvez um escapismo, da complexidade insolúvel da história humana.
Ansiedade Climática
Em uma era de mudanças climáticas e eco-ansiedade, ‘O Sal da Terra’ ganha nova urgência. A pergunta que move Salgado—”o que é o homem?”—é agora inseparável da pergunta “o que a humanidade fez com a Terra?”.
O projeto ‘Gênesis’ pode ser visto como a criação de um arquivo visual de um mundo que pode desaparecer, um último esforço para fixar signos de beleza natural antes de sua possível obliteração.
Ressonância Contemporânea
O filme ressoa profundamente com os debates atuais sobre antropoceno. Ele oferece um inventário visual de seus estragos e, ao mesmo tempo, propõe uma forma de reparação simbólica e prática.
A transformação da fazenda de Salgado em um santuário de biodiversidade é um signo-potência, uma narrativa visual de esperança que se contrapõe diretamente à iconografia da destruição.
No contexto da cultura pop, o documentário eleva a fotografia ao status de ato político e filosófico, inspirando uma nova geração de criadores a pensar a imagem não como consumo, mas como compromisso.
Vale a Pena Assistir?
‘O Sal da Terra’ é mais que um documentário sobre um artista; é uma meditação cinematográfica fundamental sobre como vemos, interpretamos e habitamos o planeta. Apesar das possíveis críticas à sua abordagem, a força de suas imagens é incontornável.
Ele desafia o espectador a suportar o olhar sobre o real em sua crueza e em sua beleza, e a refletir sobre o lugar da humanidade na grande teia de signos naturais que insistimos em violar.
Conclusão
Win Wenders e Sebastião Salgado nos entregam não um filme, mas um dispositivo ótico.
Através dele, a fotografia é revelada em sua potência arcaica: um ritual de captura da luz que, em suas mãos, se torna um ato de luto e de amor pelo mundo. A natureza, signo último e primeiro, nunca pareceu tão frágil e tão monumental.
E nós, espectadores, saímos com a sensação perturbadora de que, depois de tanto ver, somos agora responsáveis pelo que foi mostrado.
