Como a transposição de um romance sobre violência psíquica e desumanização virou uma história de amor impossível — e o que essa “traição” revela sobre os limites da adaptação cinematográfica.
A primeira coisa que se perde na travessia de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, para o cinema de William Wyler, é a segunda metade do livro.
O filme O Morro dos Ventos Uivantes encerra exatamente onde a morte de Cathy encerra a primeira parte do romance. Mas o livro, publicado em 1847, não termina ali. Ele prossegue, obsessivamente, por mais uma geração inteira.
A vingança de Heathcliff se perpetua nos filhos. A violência se transmite como herança. O ciclo só se rompe quando a repetição se exaure em Hareton e na jovem Catherine — que reaprendem, com dificuldade, a não odiar.
Wyler corta isso.
E, ao cortar, muda o gênero.
O que era um estudo sobre a crueldade como linguagem — sobre como o trauma se inscreve no corpo, na terra, na arquitetura e na fala — transforma-se em um romance gótico clássico. Heathcliff (Laurence Olivier) e Cathy (Merle Oberon) tornam-se amantes trágicos, separados por classe social e orgulho.
A charneca deixa de ser um personagem psíquico e vira cenário.
Não é que o filme de Wyler seja ruim.
É que ele escolhe a redenção, onde Brontë escolheu a irredimibilidade.
O que o filme preserva (e transforma)
O roteiro de Ben Hecht e Charles MacArthur mantém a espinha dorsal:
a infância compartilhada, a humilhação de classe, o casamento de Cathy com Edgar Linton, o retorno vingativo de Heathcliff, a morte de Cathy.
Mas o tom muda radicalmente.
No romance, Heathcliff não é um herói romântico. É um abusador sistemático. Ele enforca o cachorro de Isabella, agride Hareton, manipula e destrói todos ao redor.
Nelly Dean o observa com horror e ambiguidade — nunca com absolvição.
No filme, ele é Laurence Olivier: belo, intenso, ferido.
A fotografia de Gregg Toland — que dois anos depois faria Cidadão Kane — o envolve em chiaroscuro expressionista. Heathcliff passa de agente da violência a vítima dela.
A humilhação de classe passa a justificar o abuso.
Essa inversão semiótica é o núcleo da adaptação.
Wyler não quer falar sobre ciclos de violência.
Quer falar sobre amor impossível.
E, para isso, precisa romantizar aquilo que Brontë deixou deliberadamente brutal.
O que se perde: a segunda geração e o fim da vingança
Emily Brontë escreveu um romance simétrico.
Na primeira metade, Heathcliff é vítima e algoz.
Na segunda, é apenas algoz — até perceber que a vingança não preenche nada. Ele deixa de comer, deixa de dormir, passa a ver Cathy em toda parte. Não há redenção: há esgotamento.
A segunda geração impede o romance de se tornar puro niilismo.
Hareton e a jovem Catherine não são “bons”: são pessoas que escolhem não repetir.
Wyler elimina isso.
Ao eliminar, o filme se torna mais sentimental e mais sombrio ao mesmo tempo:
– mais sombrio, porque não há ruptura do ciclo;
– mais sentimental, porque a morte vira transcendência romântica.
A cena final — os fantasmas caminhando juntos pela charneca — não existe no livro. É invenção cinematográfica. Funciona como imagem. Mas contradiz Brontë: onde ela recusou o consolo, Wyler oferece sublimação.
A charneca como signo
No romance, a charneca é um não-lugar: nem civilização, nem selvageria; nem vida, nem morte.
É onde Cathy e Heathcliff existem fora da linguagem social.
Quando Cathy diz “Eu sou Heathcliff”, não é metáfora romântica.
É fusão ontológica. Ela é ele — e isso é aterrador, porque implica corresponsabilidade pela violência.
Wyler tenta capturar isso visualmente. Mas a charneca hollywoodiana é controlada, bela, contemplável.
E a beleza domestica o horror.
No livro, a charneca é repetitiva, hostil, sufocante. Um espaço onde o corpo não descansa.
No filme, ela é sublime.
E o sublime pode ser observado à distância.
O que o corte revela sobre Hollywood (e sobre adaptação)
Em 1939, o Production Code proibia:
- Ambiguidade moral persistente
- Violência não punida
- Adultério sem castigo
Wyler não podia filmar a segunda metade do romance. Mas há algo além da censura:
Hollywood já havia codificado o romance gótico como melodrama.
Era preciso amar Heathcliff.
Para amá-lo, era preciso limpá-lo.
Conclusão: duas obras, dois sistemas de signos
A adaptação de Wyler não traduz — reprograma.
Ela substitui:
- Ciclo por linearidade
- Irredimibilidade por transcendência
- Abuso por paixão
- Espaço psíquico por cenário
O filme é tecnicamente impecável.
Mas escolhe consolar onde o livro escolhe ferir.
E essa escolha é estética, ética e política.
Porque dizer “eles se amavam tanto que morreram juntos”
não é o mesmo que dizer
“a violência se transmitiu — e só a próxima geração conseguiu interrompê-la”.
Uma é tragédia romântica.
A outra é diagnóstico.
Entre Emily Brontë e William Wyler, não há conciliação possível.
Apenas a distância histórica — e a consciência do que se perdeu no caminho.
