O Azar que Criamos para Nós Mesmos: A Estranha História da Sexta-Feira 13
Há uma chance considerável de você estar lendo este texto em um dia específico: uma sexta-feira, dia 13. E, mesmo sem ser supersticioso, é provável que uma pequena voz na sua cabeça tenha sussurrado para tomar cuidado com espelhos, gatos pretos e escadas.
Mas se você acha que essa data amaldiçoada assombra a humanidade desde a Idade Média, prepare-se para uma surpresa: a história da sexta-feira 13 é muito mais recente — e, ironicamente, ela pode ter sido inventada por um grupo que tentava acabar com ela.
Defendo aqui que a sexta-feira 13 não é um legado de templários medievais ou de deuses nórdicos vingativos, mas sim um fenômeno cultural moderno. Uma ironia histórica curiosa: o dia que deveria enterrar as superstições acabou se tornando a maior delas.
Superstições Antigas, Medo Fragmentado
A ideia de que sexta-feira 13 carrega algum azar específico é, na verdade, uma novidade do final do século XIX.
Claro, tanto o número 13 quanto a sexta-feira já eram vistos com maus olhos separadamente havia séculos.
Na tradição cristã, a sexta é o dia da crucificação de Jesus, e a Santa Ceia tinha 13 presentes — Jesus e seus 12 apóstolos, com Judas incluso na conta. Na mitologia nórdica, o deus trapaceiro Loki invade um banquete de 12 divindades, tornando-se o 13º convidado, e o caos resulta na morte do amado deus Balder.
Eram superstições soltas no ar. Dois medos independentes, duas nuvens carregadas que ainda não haviam se encontrado para formar a tempestade cultural que conhecemos hoje.
O Jantar que Mudou Tudo
O grande marco para a união desses dois medos aconteceu em uma noite de 13 de janeiro de 1882, em Nova York.
Um capitão da Guerra Civil americana chamado William Fowler, cansado das crendices populares, fundou o Thirteen Club. A ideia era elegantemente simples: reunir 13 pessoas para jantar no dia 13, no quarto 13 de um restaurante, e desafiar abertamente a má sorte.
Os membros passavam deliberadamente debaixo de escadas, derrubavam sal e quebravam espelhos para provar que nada de mal aconteceria.
Quatro presidentes americanos, incluindo Theodore Roosevelt, chegaram a ser membros honorários.
Quando a Imprensa Criou o Monstro
O Thirteen Club foi um sucesso estrondoso.
A imprensa da época adorava a ousadia do grupo, e a ideia se espalhou rapidamente. Em 1895, o Los Angeles Herald noticiava que, quando o dia 13 caía numa sexta, o clube fazia “reuniões especiais para se deleitar”.
Ou seja, ao ridicularizar a união das duas superstições, eles estavam, sem querer, plantando a semente da ideia na mente do público.
Como um escriba do clube londrino escreveu em 1883, eles estavam criando “um sentimento popular a favor dos dois”.
A Ficção que Oficializou o Azar
Foi nesse caldo cultural que, em 1907, o corretor da bolsa Thomas Lawson publicou o romance Friday, the Thirteenth.
O livro conta a história de um financista que escolhe a data para deliberadamente quebrar o mercado de ações, aproveitando-se do nervosismo que o dia já começava a causar.
A obra não apenas deu nome à superstição — ela a ancorou no imaginário popular como um dia de azar nos negócios.
Se o romance de Lawson foi a certidão de nascimento, o cinema dos anos 1980 foi o batismo definitivo.
Hollywood e a Consagração do Medo
A franquia de filmes com o assassino Jason Voorhees transformou a data em um ícone global do terror.
A partir dali, a sexta-feira 13 deixou de ser apenas uma curiosidade cultural. Tornou-se símbolo, linguagem universal do medo, uma associação automática entre calendário e ameaça.
O Passado que Nunca Existiu
A ironia final é que a explicação mais “histórica” e difundida para a data — a prisão dos Cavaleiros Templários na sexta-feira, 13 de outubro de 1307 — é quase certamente uma invenção posterior.
A narrativa foi popularizada por livros de pseudo-história na década de 1980 e amplificada por obras como O Código Da Vinci.
Historiadores explicam que não há registros medievais associando o evento à má sorte. O mito surgiu depois que a superstição já existia — uma tentativa de dar à crença uma origem mais antiga, mais solene, mais dramática.
O Verdadeiro Azar
Vivemos cercados por mitos que adoramos tratar como tradições milenares.
Acreditamos que certos medos nos são inatos, herdados de nossos ancestrais, mas a verdade é que muitos deles foram inventados ontem — ou anteontem — por um grupo de senhores em um jantar, por um escritor em busca de uma metáfora, ou por roteiristas de Hollywood.
O que o Thirteen Club não percebeu é que o medo não se vence com a razão.
Vence-se com uma história melhor.
E eles, sem querer, nos deram a melhor delas: a prova de que, às vezes, nosso maior azar é acreditar que ele vem de fora.
Ele vem de nós.