O Bom Bandido (Roofman): A História Real e Nossa Fascinação Pelo “Bandido Gentil”
Em janeiro de 2025, a Netflix lançou Roofman, um filme que rapidamente virou assunto nas redes sociais. A história é simples: um assaltante de bancos que invadia agências pelo teto, evitava violência e acabou morando escondido dentro de uma loja de brinquedos. Parece roteiro inventado para emocionar, mas não é. Jeffrey Manchester, o homem que inspirou o filme, realmente existiu. E sua trajetória levanta uma questão incômoda: por que continuamos fascinados por criminosos que parecem “bonzinhos”?
A resposta não está apenas na curiosidade pelo inusitado. Está na forma como construímos narrativas sobre crime, redenção e carisma. Roofman não é só um filme baseado em fatos reais. É um espelho do nosso desejo coletivo de transformar transgressores em heróis — desde que eles tenham boas maneiras.
Este texto defende que a romantização do “bandido gentil” revela mais sobre nós, espectadores, do que sobre os criminosos que escolhemos aplaudir.
Quem Foi Jeffrey Manchester — e Por Que Ele Virou Personagem
Jeffrey Manchester nasceu em 1972, nos Estados Unidos. Entre 1999 e 2000, ele assaltou mais de 60 lojas de fast food e bancos, sempre usando o mesmo método: arrombava o teto durante a madrugada, descia por cordas e fugia antes do amanhecer. Não usava armas. Não ameaçava funcionários. Nem deixava vítimas. Por isso, ganhou o apelido de Roofman — o homem do telhado.
Em 2000, foi preso na Carolina do Norte. Cumpriu parte da pena, mas em 2005 fugiu de um hospital prisional. E aqui a história ganha contornos de fábula: Manchester se escondeu dentro de um Toys”R”Us. Durante semanas, montou um apartamento improvisado nos depósitos da loja. Dormia em colchões de mostruário, comia no McDonald’s ao lado e assistia DVDs à noite. Foi recapturado em 2005, condenado a 65 anos de prisão, e solto em liberdade condicional em 2022.
O roteiro do filme mantém os fatos principais, mas ajusta o tom. Adiciona um romance, humaniza o protagonista e suaviza o contexto da fuga. A operação é clássica: pegar uma história real e moldá-la para caber no formato do “criminoso com coração”.
Por Que Gostamos de Bandidos Educados
A figura do criminoso carismático não é nova. Bonnie e Clyde, Pablo Escobar, Billy the Kid: todos foram transformados em ícones porque suas histórias continham elementos que vão além da ilegalidade. Há estilo, ousadia. Há, sobretudo, uma narrativa que permite ao público separar o ato do sujeito.
Manchester não matou ninguém. Não agrediu. Não humilhou. Sua violência foi técnica, não pessoal. Isso facilita a empatia. O crime vira façanha. O assaltante vira personagem. E o espectador pode torcer por ele sem culpa — afinal, “ele não fez mal a ninguém”.
Mas essa lógica esconde um problema. A ausência de violência física não anula o impacto social do crime. Funcionários de bancos viveram o trauma da invasão. Empresas tiveram prejuízos. O sistema de segurança foi exposto. Manchester não foi gentil por princípio moral. Foi estratégico. Evitar confronto reduzia o risco de captura e aumentava suas chances de sucesso.
Transformar isso em charme é uma escolha narrativa. E toda escolha narrativa carrega uma ideologia.
O Que o Cinema Faz com a Verdade
Hollywood adora histórias reais. Elas vêm com gancho pronto, credibilidade embutida e dispensa de roteiro do zero. Mas “baseado em fatos reais” nunca significa fidelidade absoluta. Significa recorte, ajuste, dramatização.
No caso de Roofman, o filme preserva a espinha dorsal dos eventos, mas injeta emoção onde havia apenas pragmatismo. O Manchester real não vivia um dilema existencial dentro da loja de brinquedos. Ele estava escondido. O Manchester do filme ganha profundidade psicológica, conflitos internos, redenção em potencial.
Essa diferença importa. Porque o espectador sai do filme acreditando conhecer a verdade, quando na verdade conhece uma versão editada para gerar identificação. A empatia fabricada substitui a análise crítica. E o resultado é um público que celebra o personagem sem questionar o que ele representa.
Não é mentira. É manipulação emocional consentida. E funciona.
A Fascinação Pelo Fora-da-Lei Que “Não É Tão Mau Assim”
Existe um padrão nessas narrativas: o criminoso que rouba, mas não mata. Que foge, mas não fere. Que transgride, mas mantém algum código. Esse arquétipo nos atrai porque oferece transgressão sem culpa. Podemos admirar a coragem de desafiar o sistema sem nos sentirmos cúmplices de barbárie.
Manchester personifica isso. Ele burlou a segurança, zombou das autoridades e ainda assim manteve uma aura de inocência. Morar numa loja de brinquedos reforça essa imagem: é quase infantil, quase lúdico. Como se o crime fosse apenas uma brincadeira levada longe demais.
Mas crimes não são brincadeiras. E a romantização do transgressor simpático nos impede de enxergar o óbvio: ele foi preso porque cometeu crimes. Não porque o sistema era injusto. Não porque ele era vítima. Ele escolheu roubar. Repetidamente.
A questão não é condená-lo eternamente. É reconhecer que gostar do personagem não significa aprovar os atos. E que Hollywood lucra exatamente com essa confusão.
O Que Sobra Quando o Filme Termina
Roofman não é um documentário. É entretenimento. E como todo entretenimento baseado em crimes reais, ele opera numa zona ambígua entre informar e seduzir. O problema não é contar a história de Jeffrey Manchester. O problema é contá-la como se fosse uma fábula de redenção, quando na verdade é apenas a trajetória de um homem que burlou a lei até ser pego.
A verdade por trás do filme existe. Manchester é real. Seus crimes são reais. Sua prisão é real. Mas a versão que chega até nós foi filtrada, adoçada, preparada para consumo emocional. E isso diz menos sobre ele do que sobre o que queremos acreditar: que transgressão pode ser charmosa, que crime pode ter estilo, que bandidos podem ser bonzinhos — desde que a câmera esteja no ângulo certo.
Quando aplaudimos o personagem, não estamos aplaudindo a verdade. Estamos aplaudindo a ilusão de que o caos tem beleza. E que o fora-da-lei, no fundo, é apenas um incompreendido com boas intenções.
Mas fora da tela, ninguém invade um banco pelo teto por bondade. Nem mora numa loja de brinquedos por poesia.
