“O Morro dos Ventos Uivantes” (2026): Emerald Fennell Troca Tragédia por Fetiche
Emerald Fennell coloca aspas no título por necessidade. Seu “Wuthering Heights” não é adaptação fiel — é apropriação declarada. A diretora de Promising Young Woman pega nomes, paisagem e tensão da Emily Brontë, mas descarta metade do livro, remove discussões de classe e raça, e entrega um thriller erótico de duas horas centrado em Margot Robbie e Jacob Elordi se consumindo mutuamente. O resultado é tecnicamente impecável, visualmente saturado, narrativamente problemático.
Contexto Histórico, Cultural e Comercial
O romance de Emily Brontë, publicado em 1847, é obra de repressão transformada em literatura. Escrito por uma mulher de 30 anos que nunca viveu além do isolamento geográfico de Yorkshire, o livro expõe pulsões de desejo, crueldade e morte sem os filtros vitorianos esperados. Heathcliff é descrito como cigano de pele escura, um “outro” em todos os sentidos — racial, social, comportamental. Sua trajetória do abandono ao embrutecimento, do enriquecimento misterioso à vingança metódica, carrega dimensões existenciais sobre deslocamento e classe.
Fennell ignora essas camadas. Escala Jacob Elordi, ator branco, e transforma Heathcliff em bad boy de magnetismo hollywoodiano. A escolha não é ingênua — é comercial. O filme chega aos cinemas no Dia dos Namorados como aposta de bilheteria da Warner, vendendo sensualidade de estrelas em alta. As aspas no título funcionam como disclaimer criativo, mas também como confissão: isto não é Brontë, é Fennell usando Brontë.
Linguagem, Objetos e Estética: Vestidos e Sexo
A fotografia saturada é marca registrada de Fennell desde Saltburn. Aqui, ela cria atmosfera de delírio constante — o Morro se torna palco teatral para jogos de sedução repetitivos. O design de produção flerta com anacronismo: figurinos de alta costura (assinados por Jacqueline Durran) misturam gótico romântico com editorial de moda contemporânea. Vestidos de noiva parecem publicidade brega. Tecidos sintéticos, cores extravagantes, joias pesadas. É exagero deliberado, mas sem propósito claro além do próprio excesso.
O maior sintoma de desconexão narrativa está na passagem do tempo. Fennell não sabe lidar com ausência e distância — elementos cruciais no original. Insere segmento de 4 a 5 minutos que funciona como trailer promocional dentro do filme: cortes rápidos, trilha pop deslocada, avanço temporal artificializado. Parece que faltou ideia sobre como fazer os anos pesarem.
O sexo ocupa o centro. Fennell explicita o que Brontë deixou latente: a atração que atormenta. Catherine e Heathcliff consomem o desejo repetidamente. Fluidos, carne, pulsão. Não há luta contra destino ou natureza — há panela de pressão estourando. A escala épica da tragédia fica de lado. O Morro vira menção solta, mal aproveitada.
Limites Ideológicos e Contradições: Os 136 Minutos de Thriller Erótico
A operação de Fennell é esvaziamento. Ela mantém estrutura de poder, mas remove a crítica. Heathcliff perde a discussão racial que o define. Sua vingança vira birra de homem rejeitado. Os Earnshaw passam de respeitáveis a degenerados. Os Linton viram milionários donos de mansão estilo Downton Abbey. Por quê? Para justificar figurinos e cenários extravagantes.
Personagens secundários são rebaixados, Nelly é abandonada. Isabella vira alívio cômico grotesco, caricatura de submissão sexual que beira a paródia. Qualquer ameaça ao protagonismo de Robbie e Elordi é neutralizada. A segunda metade do livro — com a geração seguinte repetindo ciclos de violência — é dilacerada. Fennell quer sustentar thriller erótico por 136 minutos, mas não tem material. O resultado são jogos de sedução repetitivos até o esgotamento.
A montagem é problema sério. Fennell busca o frame perfeito: rosto de Robbie, contraplano de Elordi. Química fotogênica em história rasa. Catherine tem pensamentos que nem ela entende. Heathcliff é o bad boy fechado, difícil de ler. Funciona como poses, não como narrativa.
Ressonância Contemporânea: Produto de Consumo Romântico
O filme dialoga com momento cultural de “desconstruções” que funcionam mais como apropriações estéticas. Fennell segue rota de Baz Luhrmann — pegar clássico, ignorar anacronismo, impor visão autoral saturada. A diferença é que Luhrmann tem ritmo. Fennell tem pose.
Há público para isto. Saltburn viralizou em redes sociais por cortes provocadores. “Wuthering Heights” provavelmente seguirá o mesmo caminho — cenas de tensão sexual máxima, figurinos exagerados, Margot e Jacob como ícones. Mas viralização não é profundidade. E profundidade era o que Brontë oferecia.
A escolha de lançar no Dia dos Namorados posiciona o filme como produto de consumo romântico, quando deveria ser retrato de toxicidade. Fennell vende bad boy e mulher dividida como fantasia, não como crítica. É empacotamento de romance gothic para público de thriller erótico.
Vale a Pena Assistir?
Depende do que você busca. Se espera fidelidade ao espírito de Brontë — as dimensões existenciais de deslocamento, classe, repressão transformada em crueldade —, evite. Se quer ver Margot Robbie e Jacob Elordi em frames perfeitos, atmosfera saturada e tensão sexual explícita por duas horas, funciona como espetáculo visual.
A questão não é se Fennell tinha direito à releitura. Tinha. A questão é se a releitura oferece algo além de estética. E a resposta é: muito pouco. Os figurinos de Jacqueline Durran impressionam. A química dos protagonistas existe. Mas 136 minutos sustentando jogos de sedução repetitivos, com problema grave de ritmo e montagem constrangedora, cobram o preço.
Quem não conhece o livro talvez aproveite mais. Quem conhece precisará fazer exercício de desapego — e mesmo assim sentirá o peso do que foi descartado.
A Tragédia do Fetiche
Diferentemente da versão de William Wyler, onde o desejo opera como força trágica e silenciosa, Emerald Fennell transforma tragédia em fetiche. O que era pulsão de morte vira panela de pressão erótica. O que era comentário sobre classe e alteridade vira showcase de estrelas. As aspas protegem a diretora da crítica sobre fidelidade, mas não escondem a indefinição narrativa. Fennell sabe criar imagem provocadora. Ainda precisa aprender a sustentar história.
Fennell domina o frame. Brontë dominava o abismo.
