O Som do Silêncio: Quando o Cinema Faz do Som uma Falha e do Silêncio uma Linguagem
“O Som do Silêncio” não é exatamente um filme sobre surdez. É, antes de tudo, uma obra que reorganiza a própria experiência cinematográfica. Darius Marder não escolhe representar a perda auditiva como um simples motor dramático; ele a transforma em princípio estético, fazendo com que o espectador não apenas observe a crise de Ruben Stone, mas a vivencie em nível sensorial.
Quando Ruben perde a audição, o filme perde junto com ele. O som deixa de funcionar como suporte invisível da narrativa e passa a se comportar como matéria instável — ruído, distorção, falha, ausência. O silêncio, por sua vez, abandona o território metafórico tradicional e adquire materialidade, peso, presença.
Não há aqui uma romantização do vazio. Há um colapso perceptivo.
Contexto e Premissa
Lançado em 2020, o filme acompanha Ruben Stone (Riz Ahmed), baterista de uma banda de metal que enfrenta uma perda auditiva súbita. A premissa, em mãos menos ambiciosas, poderia facilmente se converter em um drama previsível de superação e redenção emocional.
Marder, no entanto, rejeita esse caminho.
A narrativa não se estrutura em torno da ideia de “cura” ou transcendência. Ruben não supera a surdez; ele entra em conflito com ela, resiste, nega, barganha. O que está em jogo não é apenas uma condição física, mas a implosão de uma identidade construída sobre o som, o ritmo, a vibração.
O Design Sonoro Como Experiência
O elemento mais radical da obra reside em seu design sonoro. A mixagem não ilustra a experiência do protagonista — ela a produz. Sons abafados, frequências metálicas, zumbidos persistentes e distorções abruptas transformam a sala de cinema em um espaço perceptivo instável.
O espectador não recebe informações sobre a perda auditiva. Ele é deslocado para dentro dela.
Nesse movimento, o cinema deixa de operar exclusivamente como linguagem visual e assume um caráter quase fisiológico. O som, tradicionalmente transparente, torna-se protagonista invisível, instaurando desconforto, tensão e estranhamento.
Som, Corpo e Identidade
A bateria, para Ruben, não é meramente um instrumento musical. Funciona como extensão corporal e estrutura identitária. Seu ritmo organiza não apenas sua prática profissional, mas sua própria experiência de mundo.
Quando o som falha, não é apenas uma habilidade que desaparece — é um eixo existencial que se dissolve.
O silêncio, nesse contexto, não surge como vazio contemplativo, mas como ruptura brutal.
O Silêncio Como Inversão Simbólica
Uma das operações mais sofisticadas do filme está na inversão de perspectiva. No universo inicial de Ruben, o silêncio é sinônimo de perda. Na comunidade surda que o acolhe, o silêncio é simplesmente normalidade.
A casa que o recebe não é construída como espaço de privação, mas de reorganização perceptiva. Crianças brincam, adultos conversam, vínculos se estabelecem sem a centralidade do som. O filme, assim, desloca o olhar tradicionalmente ouvinte e sugere uma questão incômoda:
Talvez o sistema normativo seja o mundo acústico.
Tecnologia e Ambiguidade
O implante coclear é tratado de forma deliberadamente ambígua. A obra evita julgamentos explícitos, mas a cena final — Ruben removendo o processador — adquire força simbólica incontornável.
A decisão, carregada de significados possíveis, pode ser lida como libertação, resignação ou reconciliação silenciosa. Ao transformar uma escolha médica complexa em gesto existencial, o filme amplia sua densidade dramática, ainda que abra espaço para debates críticos.
Limites e Tensões
Apesar de sua potência estética, a obra não escapa de contradições. A escolha de um ator ouvinte como protagonista, a centralidade da crise masculina e a relativa subexploração de personagens secundários revelam tensões entre inovação formal e convenções de mercado.
Ainda assim, essas limitações não anulam o impacto da experiência proposta.
Conclusão
“O Som do Silêncio” permanece como uma das experiências sensoriais mais ousadas do cinema recente. Ao transformar o som em instabilidade e o silêncio em linguagem, o filme abandona o conforto narrativo e aposta na fricção perceptiva.
Seu gesto mais poderoso talvez não esteja naquilo que diz, mas naquilo que retira.
Ao final, resta uma pergunta silenciosa:
O silêncio é realmente ausência — ou apenas outra forma de presença?
