O Militar Surfista: Como Robert Duvall Criou um dos Personagens Mais Perturbadores do Cinema

Robert Duvall como Coronel Kilgore em Apocalypse Now usando chapéu de cavalaria e óculos escuros
Robert Duvall como o icônico Coronel Kilgore em Apocalypse Now

Há uma cena em Apocalypse Now que se recusa a desaparecer da memória. Um helicóptero sobrevoa uma praia vietnamita enquanto toca Wagner. Soldados disparam contra civis. Bombas explodem ao fundo. E no centro de tudo isso, o Coronel Kilgore — interpretado por Robert Duvall — ordena que seus homens peguem pranchas e surfem. “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”, ele diz, extasiado. A guerra não é um problema para Kilgore. É uma oportunidade de pegar boas ondas.

Passaram-se mais de quatro décadas desde a estreia do filme de Coppola, mas aquela figura continua assombrosa. Não porque seja um vilão clássico. Mas porque Kilgore não se vê como monstro. Ele se vê como um atleta, um esteta, um homem que encontrou beleza na destruição. E é justamente essa normalização do horror que faz dele uma das personagens mais perturbadoras do cinema americano.

Defendo aqui que a genialidade de Duvall não está em interpretar um louco. Está em interpretar um louco perfeitamente funcional — e nisso reside toda a crítica política do filme.

O Contexto: Vietnã Como Palco do Absurdo

Quando Apocalipse Now estreou em 1979, os Estados Unidos ainda digeria a derrota no Vietnã. O país que se via como guardião da liberdade havia sido expulso por guerrilheiros de sandálias. A guerra fora transmitida ao vivo pela TV, mas continuava incompreensível. Coppola não tentou explicá-la. Preferiu mergulhar no delírio.

O roteiro, inspirado em Coração das Trevas de Conrad, substituiu o Congo pelo Mekong. A personagem de Duvall aparece no início da jornada de Willard (Martin Sheen) rumo a Kurtz (Marlon Brando). Kilgore comanda uma divisão de cavalaria aérea. Ele usa chapéu de cowboy. Distribui cartas de baralho sobre os corpos inimigos. Trata a guerra como faroeste — e o Vietnã como parque temático.

A cena da praia de surfistas foi filmada nas Filipinas, com centenas de figurantes. Duvall improvisou várias falas. A frase sobre o napalm entrou para o imaginário coletivo. Tornou-se meme, referência pop, citação irônica. Mas poucos percebem o que ela realmente diz: que a guerra moderna não precisa de convicção ideológica. Basta espetáculo.

A Performance: Entre o Charme e o Pesadelo

Robert Duvall construiu Kilgore como um homem sedutor. Ele não grita. Não perde o controle. Fala com a tranquilidade de quem pede um café. Quando diz “Charlie don’t surf” (“O Vietcong não surfa”), há quase ternura na voz — como se lamentasse que o inimigo não compartilhe seus hobbies.

Essa escolha interpretativa é devastadora. Kilgore não é apresentado como exceção. É apresentado como competência. Ele cumpre missões, cuida dos soldados, respeita a hierarquia. Dentro da lógica militar, é um oficial exemplar. O problema é que essa lógica já está corrompida desde o princípio. E Duvall nos faz gostar dele por alguns segundos — o que torna tudo mais incômodo.

Há um momento em que Kilgore oferece água a um soldado vietcongue ferido. Logo depois, ignora uma mulher vietnamita agonizando. Ele age conforme um código moral próprio, onde há espaço para gestos cavalheirescos — desde que não atrapalhem o surfe. A guerra não desumaniza Kilgore. Ela o realiza. Ela lhe oferece propósito. E isso é infinitamente mais assustador do que simples crueldade.

Duvall entendeu que o coronel não é sádico. É um entusiasta. Ele ama seu trabalho. E seu trabalho é matar.

A Herança: Kilgore Como Espelho da América

Décadas depois, a personagem permanece atual porque o que ela representa nunca deixou de existir. A guerra-espetáculo que Coppola denunciou em 1979 tornou-se modelo de exportação. Transmissões ao vivo de bombardeios. Drones operados como videogames. Conflitos tratados como eventos midiáticos, com trilha sonora e narração épica.

Kilgore antecipou a estetização total da violência. Ele é ancestral direto dos soldados que postam selfies em zonas de combate. Dos generais que falam em “cirurgia de precisão” enquanto hospitais explodem. Da linguagem asséptica que transforma massacre em “operação bem-sucedida”.

A genialidade de Duvall foi perceber que esse homem não vive em contradição. Para Kilgore, guerra e surfe coexistem naturalmente — porque ambos são formas de domínio, de conquista, de performance viril sobre um território hostil. O oceano e a selva são apenas variações do mesmo desafio. E o napalm, como a espuma das ondas, faz parte da paisagem.

Hoje, quando políticos vendem intervenções militares como missões humanitárias, quando algoritmos selecionam alvos, quando a morte vira métrica, Kilgore continua surfando. Só mudou de uniforme.

O Legado de Duvall: Menos É Devastador

Robert Duvall aparece apenas quinze minutos em Apocalipse Now. Mas construiu uma personagem inesquecível porque compreendeu algo fundamental sobre o horror: ele raramente grita. Na maioria das vezes, fala baixo, sorri, oferece cigarros.

O ator recusou transformar Kilgore em caricatura. Não há closeups histriônicos, discursos inflamados, crises de consciência. Há apenas um homem cumprindo sua função com eficiência perturbadora. Duvall sabia que o fascínio da América pela guerra não vem da raiva. Vem do entusiasmo. E é isso que vemos naquela praia: entusiasmo puro, infantil, letal.

Nos anos seguintes, Duvall faria dezenas de outros papéis memoráveis. Mas nenhum com o impacto político de Kilgore. Porque nenhum outro capturou tão bem a banalidade do mal quando ela veste farda, carrega medalhas e cheira a sal e napalm.

Enquanto houver guerras vendidas como aventura, Kilgore estará lá — checando as ondas, ajustando o chapéu, preparando-se para mais um dia glorioso de extermínio.
E nós continuaremos assistindo, meio horrorizados, meio fascinados, enquanto a cavalaria sobrevoa o apocalipse ao som de Wagner.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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