Love Me, Love Me é só mais um romance adolescente? Não exatamente.
Existe um pacto silencioso entre o espectador e o romance jovem. Ele sabe o que vai encontrar — tensão nos corredores, olhares longos demais, a inevitabilidade do beijo. E ainda assim volta. Love Me, Love Me, novo filme do Prime Video com estreia marcada para o período do Valentine’s Day, não rompe esse pacto. Mas o honra com uma consciência que o torna mais interessante do que sua premissa sugere.
O filme não pretende ser outra coisa além do que é. E é exatamente nessa modéstia que mora sua honestidade.
Entre o Wattpad e o streaming
O longa é adaptação de uma tetralogia publicada no Wattpad pela italiana Stefania S., plataforma que transformou a escrita jovem em fenômeno de massa — e que já provou ser terreno fértil para o streaming. O Prime Video, depois do sucesso estrondoso de Maxton Hall, consolida uma estratégia clara: investir em propriedades do Wattpad com apelo europeu, elenco jovem e locações que funcionam como personagens.
A direção de Roger Kumble não é acidental. Kumble é o artesão do gênero — responsável por Segundas Intenções (1999) e pela franquia After. Sua presença indica que o projeto foi concebido como produto consciente de sua própria linhagem. Não é um autor tentando subverter o gênero. É um profissional que entende seus mecanismos e os executa com competência.
O resultado é um filme que existe numa tradição precisa: a escola de elite europeia como cenário de iniciação, o triângulo amoroso como estrutura de conflito interno, o luto como motor narrativo sublimado em desejo. Uma fórmula antiga. Uma execução contemporânea.
Milão como linguagem visual
Milão não é cenário. É argumento. A cidade carrega consigo uma iconografia de moda, design e aspiração que envolve June desde sua chegada como um segundo idioma — um que ela precisa aprender sem que ninguém lhe ensine. A escola instalada na Villa Mondragone reforça esse código: pátios de pedra, fachadas carregadas de história, corredores que prometem distinção e cobram pertencimento.
A direção de fotografia usa essa oposição com clareza. Luz estéril e uniforme domina os espaços institucionais — a sala de aula, a biblioteca, o refeitório. Sombras e néon contaminam as cenas de luta clandestina. O corpo de James vive no segundo universo; o de Will, no primeiro. June transita entre os dois, e a câmera registra essa travessia sem precisar sublinhar.
Os próprios nomes funcionam como signos. Will — vontade, determinação, futuro previsível. James — ambiguidade, tradição literária do personagem rebelde, carga emocional não resolvida. June — um mês de transição, nem primavera nem verão, suspenso entre estados.
As lutas de MMA de James não são apenas artifício de tensão dramática. São a materialização de uma violência interna que ele não sabe articular em palavras. O ringue clandestino é o único espaço onde sua dor tem forma e regras. É um dos poucos momentos em que o filme toca numa verdade psicológica sem precisar explicá-la.
As contradições que o gênero carrega
O filme carrega as contradições do gênero sem conseguir — ou tentar — resolvê-las. A atração pelo “bad boy” continua sendo apresentada como força irresistível e legítima, embora o roteiro faça um esforço notável ao contextualizar o trauma de James e ao complexificar Will além do arquétipo do companheiro exemplar.
A revelação sobre a saúde mental de Will é o movimento mais corajoso do script. Num gênero que historicamente usa estabilidade emocional como sinônimo de tédio, o filme sugere que a saúde mental não é um estado fixo — que o “porto seguro” também tem suas fissuras, suas medicações, seus dias ruins. É uma leitura que o público jovem merece receber.
Ainda assim, o luto de June — que deveria ser o centro gravitacional da narrativa — às vezes cede espaço demais à mecânica do triângulo. A morte do irmão surge como dado de contexto mais do que como ferida viva. O segundo ato sente o peso dessa escolha: conflitos se repetem, o ritmo vacila, e certas motivações ficam subdesenvolvidas quando deveriam aprofundar.
Há também uma lógica de consumo no modo como Milão é apresentada — linda demais, acessível demais, sem tensão de classe. A escola de elite existe sem que suas estruturas sejam questionadas. Isso não invalida o filme, mas aponta para onde ele escolhe não olhar.
Por que essa fórmula ainda funciona
O sucesso da fórmula não é acidente. A geração que consome esse tipo de conteúdo cresceu com o TikTok, com BookTok, com fandom como forma de sociabilidade. O triângulo amoroso não é apenas plot — é combustível para discussão, para escolha de times, para identificação. O filme entende isso e deixa a tensão deliberadamente não resolvida ao final, com ganchos claros para sequência.
A escolha de June no desfecho — pela paciência e pela comunicação em vez do caos — é surpreendentemente madura para o público a que se destina. Num cenário cultural que frequentemente romantiza a intensidade como prova de amor, optar pela conversa difícil em vez do gesto grandioso é, em si, uma tomada de posição.
O filme também dialoga com um momento em que a saúde mental adolescente deixou de ser tabu na ficção jovem. Tratar do luto, da medicação e da instabilidade emocional sem transformá-los em plot twist é parte do que torna Love Me, Love Me relevante além de seu entretenimento imediato.
Vale a pena assistir?
Sim — com expectativas calibradas. Love Me, Love Me não é um filme que desafia o gênero. É um filme que o habita com consciência e algum cuidado. Kumble entrega o que prometeu: visuais elegantes, química de elenco palpável, uma protagonista com camadas suficientes para segurar duas horas de tela.
Mia Jenkins é a razão mais sólida para assistir. Sua contenção evita o melodrama fácil. Pepe Barroso Silva imprime vulnerabilidade onde o roteiro pede apenas carisma. Luca Melucci transforma o “bom moço” em algo mais incômodo e, por isso, mais real.
Para quem busca crítica social ou subversão de gênero, o filme não está nessa prateleira. Para quem quer ser levado por uma história bem-fotografada, emocionalmente honesta nos seus melhores momentos e irresistível no seu ritmo quando funciona — o Prime Video entregou o que devia.
O que realmente fica
Há uma cena que resume o filme melhor do que qualquer triângulo amoroso: June, sozinha num espaço que ainda não é seu, olhando para uma cidade que não fala sua língua. O luto não é a morte do irmão. É a estranheza de ainda estar viva sem saber muito bem como.
Love Me, Love Me é mais interessante quando para de escolher entre Will e James e percebe que o conflito verdadeiro é outro — entre a June que existia antes e a que está tentando existir agora. Nesses momentos, o filme supera sua fórmula.
E são esses momentos que ficam.
