A Culpa é das Estrelas e o Problema do Sofrimento Bonito
O filme começa com uma voz. Hazel Grace Lancaster narra sua própria doença como quem escreve um diário que sabe que será lido. Há algo imediatamente calculado nessa abertura — não no sentido pejorativo, mas estrutural. A câmera não nos apresenta uma personagem: nos entrega uma consciência. E essa escolha define tudo o que vem depois.
A narração em primeira pessoa não é recurso neutro. Ela convida o espectador a habitar uma subjetividade específica, a ver o mundo filtrado por alguém que já processou o próprio sofrimento em linguagem. Hazel não sofre diante de nós — ela nos conta que sofreu. A distinção é fundamental.
O Filme em Seu Momento
Lançado em 2014, A Culpa é das Estrelas chegou num momento de saturação do Young Adult como gênero industrial. Depois do sucesso de Crepúsculo e Jogos Vorazes, os estúdios buscavam propriedades literárias com base de fãs consolidada e apelo emocional mensurável. O livro de John Green, publicado em 2012, havia criado exatamente isso.
O contexto importa porque o filme carrega a lógica do produto cultural planejado para repercussão. O diretor Josh Boone não subverte a fonte — ele a amplifica. Cada escolha estética serve à entrega emocional prometida pelo marketing. Isso não é necessariamente um defeito, mas é uma limitação que a análise precisa encarar.
A produção também coincide com o auge da chamada “geração selfie” — jovens habituados a narrar a própria experiência em tempo real, a transformar vivência em conteúdo. Hazel, nesse sentido, é quase um avatar cultural involuntário.
A Gramática do Afeto
A fotografia de Ben Richardson trabalha com uma paleta quente e desfocada que suaviza sistematicamente a doença. Os tubos de oxigênio de Hazel nunca parecem clínicos — parecem acessórios. Essa escolha não é ingênua. Ela constrói um código visual em que a enfermidade é esteticamente domesticada.
Os planos aproximados nos rostos dos protagonistas durante os diálogos criam uma intimidade forçada. A câmera insiste em nos aproximar antes que a narrativa justifique essa proximidade. É uma estratégia de captura emocional que funciona — e que merece ser nomeada como tal.
A trilha sonora, composta majoritariamente por músicas indie de alta curadoria, opera como marcador de sensibilidade. O gosto musical dos personagens não emerge organicamente — ele é um sinal emitido para o espectador de que estamos diante de jovens com profundidade suficiente para justificar a tragédia que os aguarda.
Shailene Woodley constrói Hazel com uma contenção que resiste ao melodrama que o roteiro quase sempre sugere. Ansel Elgort, como Gus, escolhe o caminho oposto — a performance é extrovertida, quase teatral. O contraste funciona como dinâmica dramática, mas também revela uma divisão de papéis de gênero que o filme não questiona.
Onde o Filme Racha
A crítica mais séria que se pode fazer a A Culpa é das Estrelas não é estética — é ideológica.
O filme romantiza o sofrimento de uma forma que serve mais à experiência emocional do espectador do que à integridade da experiência vivida pelos personagens. A dor existe aqui para ser bela, para ser compartilhada, para gerar empatia em doses controladas. Hazel e Gus raramente parecem doentes — parecem jovens em um filme sobre estar doente.
Há uma dimensão de classe que o filme ignora completamente. A família de Hazel vive com relativa estabilidade. A doença não produz ruína financeira, acesso precário a tratamento, isolamento social brutal. O sofrimento é emocional e existencial — e essa é uma escolha política, ainda que inconsciente.
A viagem a Amsterdã, financiada por uma fundação que realiza desejos de crianças com câncer, é tratada como aventura romântica. O dispositivo narrativo que a possibilita — uma fundação de caridade — não é sequer examinado. O filme aceita sem resistência a lógica de que há formas “dignas” e “belas” de ser jovem e terminal.
O autor fictício Peter Van Houten, interpretado por Willem Dafoe, é o único elemento que pertuba a superfície. Ele é amargo, desiludido, recusando-se a oferecer o conforto que os protagonistas buscam. Em certo sentido, Van Houten é a consciência crítica que o filme contém mas não deixa falar.
A Obra Hoje
Mais de uma década depois, o filme persiste na memória coletiva de uma geração específica. Não como obra cinematográfica — como experiência emocional datada. Quem assistiu com dezesseis anos guarda menos o filme do que o choro que ele provocou.
Esse tipo de memória diz algo sobre a função cultural do produto. A Culpa é das Estrelas não foi concebido para durar como objeto estético — foi concebido para ser sentido com intensidade no momento do consumo. Nesse objetivo, é eficiente.
O debate contemporâneo sobre representação de doenças na mídia tornou o filme mais difícil de assistir sem reservas. A crítica à chamada “pornografia do sofrimento” — narrativas que instrumentalizam a doença para produzir catarse em espectadores saudáveis — encontra no filme um exemplo legítimo de análise.
Vale a Pena Assistir?
Para quem nunca viu: sim, com consciência crítica. O filme entrega o que promete — comoção, romance, personagens articulados. Shailene Woodley justifica sozinha o tempo investido.
Para quem quer reassistir por nostalgia: a experiência será inevitavelmente diferente. O que aos dezesseis anos parecia profundidade, aos vinte e cinco pode parecer construção. Isso não invalida o filme — apenas o situa.
Para quem estuda cinema ou cultura pop: é material rico justamente por ser tão representativo de seu momento. Raramente um filme captura com tanta fidelidade o espírito emocional de uma geração e os limites ideológicos desse espírito.
O Que Fica
A Culpa é das Estrelas é um filme honesto sobre seus próprios objetivos e desonesto sobre seus próprios limites. Ele quer emocionar — e emociona. Mas faz isso construindo uma arquitetura de sofrimento que serve ao espectador mais do que ao sofrimento real que pretende retratar.
Há algo revelador no fato de que sua cena mais lembrada é um beijo num museu em Amsterdã — não uma consulta médica, não uma recaída, não o peso concreto do adoecer. O filme escolhe o que quer que você leve para casa.
Essa escolha é, em si, um argumento cultural que merece ser examinado.
