O Filme Que a América Não Entendeu: Ensina-me a Viver e o Escândalo de 1971
Há uma cena, perto do começo, em que Harold senta-se diante do espelho e amarra uma gravata em volta do próprio pescoço. O nó é perfeito. O rosto não está ali. Ele então deita no chão e espera. A mãe entra, tropeça no corpo, pede desculpas ao filho morto e sai para jogar pôquer. O espelho continua vazio.
Ensina-me a Viver (1971), de Hal Ashby, começa assim: não com um pedido de socorro, mas com uma coreografia da ausência. Harold tem vinte anos e coleciona funerais como outros jovens colecionam discos. Maude tem oitenta e coleciona objetos que o mundo declarou inúteis. Quando se encontram, ela não pergunta por que ele quer morrer. Pergunta se ele já experimentou sentir o cheiro de uma flor.
Lançado em 20 de dezembro de 1971 pela Paramount Pictures, com roteiro de Colin Higgins e orçamento estimado em US$ 1,2 milhão, o filme foi recebido por parte da crítica como uma comédia romântica excêntrica sobre um jovem depressivo e uma idosa excêntrica. Demorou décadas para que se compreendesse o equívoco. Ensina-me a Viver não é uma comédia sobre a morte. É um tratado sobre o tempo filmado com luz natural.
Maude ainda rouba carros. Não porque seja velha e corajosa, mas porque entendeu, antes de todos, que a propriedade privada é apenas uma metáfora tardia para aquilo que jamais nos pertenceu: o instante, o afeto, o giro de um anel no dedo. Roubar um Jaguar vermelho aos oitenta anos não é crime. É revisão de conceitos.
O cinema americano produziu dezenas de histórias de amor. Produziu poucas lições de desaprendizado. Esta é uma delas.
1971: O ano em que a América precisou de Maude
Hal Ashby tinha 42 anos quando Ensina-me a Viver chegou aos cinemas, em 20 de dezembro de 1971. Fora lançado pela Paramount Pictures, com um orçamento estimado em US$ 1,2 milhão – cifra modesta mesmo para os padrões da época . Ninguém, nem o estúdio, sabia muito bem o que fazer com aquela história.
O roteiro começara como tese de mestrado de Colin Higgins na UCLA. Higgins, então um estudante de cinema sem conexões, trabalhava como caseiro da piscina do produtor Edward Lewis. Foi sua mulher, Mildred, quem leu o script e insistiu que o marido o entregasse a Stanley Jaffe, executivo da Paramount . Higgins tinha uma condição: dirigiria ele mesmo o filme. Fez testes, insatisfatórios para o estúdio. O projeto emperrou até que Ashby aceitou o cargo – mas sob uma cláusula moral: só o faria com a bênção de Higgins, a quem prometeu trazer como coprodutor para que pudesse aprender no set .
É uma história de origem que já contém, em miniatura, o espírito do filme: o desajustado que insiste, o veterano que cede espaço, o conhecimento que se transmite não por hierarquia, mas por generosidade.
A Direção e o Rosto dos Personagens
Ashby não era um nome óbvio para a tarefa. Vindo da edição – vencera o Oscar por No Calor da Noite (1967) – ele carregava as marcas de uma biografia que a Nova Hollywood reconheceria como credenciais invisíveis: pai suicida, divórcio dos pais, abandono da escola, um casamento e um divórcio antes dos 19 anos . Filho de um fazendeiro mórmon de Ogden, Utah, Ashby encontrou no cinema não uma fuga, mas uma língua materna. Quando Ensina-me a Viver começou a ser filmado em dezembro de 1970, ele já havia abraçado o vegetarianismo, o cabelo comprido e uma ética de trabalho que seus contemporâneos descreviam como obsessiva .
A escalação foi um tratado à parte. Para Maude, Ashby imaginara inicialmente uma atriz europeia. Sua lista incluiu Peggy Ashcroft, Edith Evans, Gladys Cooper, Celia Johnson, Lotte Lenya, Luise Rainer, Pola Negri – e, curiosamente, Agatha Christie . Ruth Gordon, então com 74 anos, não era a favorita. Mas fez o que faria Maude: ocupou o espaço com tal convicção que tornou qualquer outra escolha impensável. Para Harold, Ashby considerou Richard Dreyfuss, Bob Balaban, John Savage, o cantor Elton John – e John Rubinstein, para quem Higgins escrevera o papel . Ficou com Bud Cort, 22 anos, rosto de criança e olhos de quem já viu tudo pelas beiradas.
A Califórnia Como Cenário Existencial
As filmagens ocorreram na área da baía de São Francisco, entre o final de 1970 e março de 1971 . Os locais narram uma história paralela: o Cemitério Holy Cross em Colma (onde Harold vê Maude pela primeira vez), a Igreja St. Thomas Aquinas em Palo Alto (o funeral do encontro), a ferrovia desativada em Brisbane (a casa de Maude), a Península Hospital em Burlingame (a morte), Mori Point em Pacifica (o penhasco) . Ashby insistiu em filmar em espaços reais, sem a mediação confortável do estúdio. O Jaguar vermelho que Harold converte em mini-rabecão não era adereço: era o carro emprestado por um membro da equipe.
O Filme que a Crítica Não Entendeu — Talvez Até Hoje
A crítica, em 1971, não entendeu. Roger Ebert chamou o filme de “humor de segunda, exagerado e zombeteiro” . Vincent Canby, no New York Times, descreveu os protagonistas como “agressivo, assustador e desanimador” . Dave Kehr, do Chicago Reader, considerou a aparição da tatuagem — um número cuja origem o filme jamais verbaliza — “algo além do alcance da fantasia” . O público também não veio. Ensina-me a Viver foi um fracasso comercial, e só em 1983, doze anos depois, começou a dar lucro .
A crítica errava, mas não por incompetência: faltava-lhe o tempo. O filme precisava envelhecer para ser visto. Em 1997, foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso, considerado “cultural, histórica ou esteticamente significativo” . E em 2000, a AFI o elegeu o 45º filme mais engraçado da história . Em 2012, a Criterion Collection lançou edição especial em Blu-ray e DVD .
Mas números e prêmios dizem menos que um fato simples: Maude ainda rouba carros. E nós, que a vimos roubar, nunca mais conseguimos passar incólumes por um Jaguar vermelho.
Este artigo integra a série especial sobre Ensina-me a Viver (Harold and Maude):
Parte 1 → O Filme Que a América Não Entendeu: Ensina-me a Viver e o Escândalo de 1971
Parte 2 → Morte, Performance e Ausência: Harold em Ensina-me a Viver
Parte 3 → Maude Não É Velha: Tempo, Descarte e a Ética da Presença – Ensina-me a Viver
Parte 4 → O Jaguar Ainda Cai do Penhasco: Por Que Ensina-me a Viver Nunca Envelhece
