Maude Não É Velha: Tempo, Descarte e a Ética da Presença – Ensina-me a Viver
Maude não é velha. Maude é antiga.
O anel de giro: o signo do círculo que não aprisiona
É Maude quem dá a Harold o anel.
Cena no parque. Ela tira do próprio dedo uma pequena argola de metal com um aro externo que gira livremente. Coloca na mão do rapaz e diz: “Agora você vai se lembrar de mim sempre que olhar para ele.”
O objeto é uma joia pobre, dessas que se compra em feira de antiguidades por alguns dólares. Sua pobreza material, porém, é inversamente proporcional à sua densidade simbólica. Não é aliança: não sela compromisso, não demarca posse, não exige fidelidade. O giro do aro externo é movimento perpétuo, rotação sem centro, tempo que não se fixa em ponto algum.
Harold, até então, entendia o amor como captura. Queria ser fotografado, filmado, lembrado – mas não sabia existir sem um olho que o mirasse. Maude ensina outra forma: estar presente sem exigir permanência. O anel gira. A imagem permanece, mas a mão não retém.
Há um dado concreto, não creditado nos letreiros, que os frequentadores assíduos do filme reconhecem: Ruth Gordon usava seu próprio anel de giro nas filmagens. Era um objeto pessoal, adquirido décadas antes, e que ela decidiu incorporar à personagem. O gesto, pequeno, revela a compreensão íntima da atriz sobre quem era Maude: alguém para quem o tempo não se acumula, flui.
80 anos, 1 milhão de flores: a ética do impacto mínimo
Maude completa 80 anos. Harold pergunta o que ela gostaria de ganhar.
A resposta não é um objeto, uma viagem, uma celebração. É um monólogo de dois minutos e meio que contém, em suas frases curtas, a cicatriz do século XX e a resposta filosófica de uma mulher que atravessou seus horrores e decidiu, ainda assim, cultivar.
“Eu estava na Alemanha. Vi coisas. Depois fui para o deserto. No deserto, plantei árvores.”
O roteiro de Colin Higgins não especificava a origem de Maude construindo a personagem a partir da sugestão silenciosa de uma biografia atravessada pela guerra. Foi Ruth Gordon quem propôs a leitura, construindo a personagem a partir dessa chave silenciosa. A tatuagem no braço – um número que a câmera mostra apenas uma vez, em plano discreto – não é citada em diálogo algum. Gordon não precisava que fosse nomeada. Sabia que o corpo, quando carrega marcas, não precisa explicá-las.
Maude não oferece a Harold uma teoria do trauma. Oferece uma jardinagem:
“Se eu pudesse, plantaria um milhão de flores sobre um milhão de túmulos.”
A ética de Maude não é o grito, a denúncia, a catarse violenta. É o cultivo. Não porque ela tenha esquecido – a memória é o que a move – mas porque aprendeu que o oposto da barbárie não é a civilização, é a vida que insiste em nascer onde só havia terra arrasada. Harold escuta. Pela primeira vez, não simula morte. Respira.
O último roubo: o carro no abismo e a liberdade como encenação
Maude morre. Harold não encena.
O Jaguar vermelho, agora pintado de preto e convertido em rabecão, segue viagem sozinho. Harold dirige até o penhasco de Mori Point, em Pacifica, onde as ondas quebram contra as rochas e o vento apaga os rastros. Ele para o carro. Desce. A câmera o observa de longe, enquadramento aberto, figura minúscula contra o horizonte.
Então Harold empurra.
O Jaguar despenca, capota, amassa, explode. É a cena mais violenta do filme – e também a mais serena. Não há sangue, não há grito, não há luto encenado. Há apenas o peso de uma herança sendo devolvido à gravidade. O carro não era objeto de desejo; era o símbolo do pai, da ordem, da propriedade, do futuro programado. Harold o atira no abismo não para morrer, mas para libertar o pai que ele nunca foi e o filho que ele nunca teve.
O silêncio que segue a queda é o mesmo silêncio que abria o filme. Mas algo mudou. Harold não amarra mais a gravata no espelho. Não deita no chão à espera de que alguém tropece nele. Ele aprendeu: a vida não se herda. Inventa-se.
A câmera corta para o horizonte. O anel de giro brilha no dedo.
O que significa ter 80 anos aos 20 e 20 anos aos 80
Há um equívoco que atravessa cinco décadas de recepção crítica de Ensina-me a Viver: o de que se trata de uma história sobre a velhice.
Não é.
Maude não é velha. Maude é antiga. Há uma diferença ontológica entre essas duas condições. A velhice é um acúmulo de tempo cronológico; a antiguidade é uma relação com o tempo que prescinde da cronologia. Maude não tem 80 anos – ela testemunhou 80 primaveras, 80 invernos, 80 ciclos de plantio e colheita, mas sua subjetividade não se organiza em torno do que passou. Organiza-se em torno do que ainda pode florescer.
Harold, por sua vez, não é jovem. É precoce – e a precocidade é o oposto da juventude. Ser jovem é estar disponível para o futuro; ser precoce é ter ocupado o futuro antes da hora, mobiliá-lo com certezas provisórias, ensaiar a morte porque a vida, ainda não vivida, já parece exhausta. Harold tem 20 anos e já coleciona rituais fúnebres. Não por tédio. Por antecipação.
O que ocorre entre eles, portanto, não é um encontro geracional. É um desencontro de temporalidades que, por acaso, se resolve em afeto. Maude não ensina Harold a envelhecer. Ensina-o a habitar o presente – essa morada que ele sempre visitou como turista, nunca como residente.
O Tempo é um Giro
A filosofia de Maude, se pudesse ser reduzida a uma proposição, seria esta: o tempo não é uma linha, é um giro.
O anel que ela dá a Harold não é circular à toa. O círculo, na tradição ocidental, oscila entre dois significados opostos: é a figura do aprisionamento (o anel que prende, a coroa que cinge, o cerco que não se rompe) e também a figura do infinito (o ouroboros que se devora, o ciclo que se renova, a rotação que não cessa). Maude escolhe o segundo sentido. Seu anel não tem começo nem fim, não tem centro fixo, não exige que o dedo permaneça imóvel. Gira. E ao girar, escorrega. A imagem persiste, mas a mão não retém.
O amor, para Maude, não é possessão. É testemunho. Ela não quer ser propriedade de Harold; quer que ele se lembre dela quando ela já não estiver. Não por egoísmo póstumo, mas porque aprendeu, nos campos e no deserto, que a única forma de resistir à aniquilação é confiar a alguém a tarefa de continuar.
Ensina-me a Viver como Tratado Ético
É aqui que Ensina-me a Viver se separa definitivamente da comédia romântica e se aproxima do tratado ético.
A comédia romântica clássica opera por incorporação: duas subjetividades isoladas encontram-se, conflitam, dissolvem suas diferenças e fundem-se numa unidade estável – o casal, o lar, o futuro compartilhado. Harold e Maude não se fundem. Harold incorpora Maude não como parceira, mas como princípio. Ela não se torna sua esposa, namorada, amante. Torna-se sua língua materna.
Quando, na cena final, Harold empurra o Jaguar do penhasco, ele não está ritualizando o luto. Está traduzindo. O carro, a herança, o sobrenome, o patrimônio – tudo isso era o vocabulário do pai, a sintaxe da ordem burguesa, a gramática da perpetuação. Harold, ao desfazer-se do carro, não está apenas rejeitando o pai. Está renunciando à ideia de que a vida se transmite por testamento.
Aprendeu com Maude: a vida não se herda. Inventa-se. Ou não se tem.
Mais um Dia
Há, no entanto, uma sombra que muitos espectadores preferem não nomear. Maude morre. Escolhe morrer. No hospital, quando Harold descobre que ela completará 80 anos no dia seguinte, pergunta o que ela ganhará de presente. A resposta: “Mais um dia.”
Maude não luta contra a morte. Recebe-a como quem recebe uma visita anunciada. Sua serenidade diante do fim é, para Harold, o gesto mais incompreensível de todos. Ele, que passou o filme inteiro encenando mortes falsas, descobre-se desarmado diante de uma morte verdadeira. Não sabe como responder. Sequer há encenação possível. Não há banjo que a interrompa.
É a derradeira lição de Maude: a morte não é o contrário da vida. O contrário da vida é a ausência de desejo.
Maude deseja. Até o último minuto, deseja. Deseja o chá, o banjo, o anel, o rapaz de olhos tristes que aprendeu a sorrir. Seu corpo falha, mas seu desejo não. Ela não morre porque perdeu a vontade de viver. Morre porque a vida, nela, cumpriu seu ciclo – e o ciclo, ao contrário da linha, não pede continuação. Pede encerramento.
Este artigo integra a série especial sobre Ensina-me a Viver (Harold and Maude):
Parte 1 → O Filme Que a América Não Entendeu: Ensina-me a Viver e o Escândalo de 1971
Parte 2 → Morte, Performance e Ausência: Harold em Ensina-me a Viver
Parte 3 → Maude Não É Velha: Tempo, Descarte e a Ética da Presença – Ensina-me a Viver
Parte 4 → O Jaguar Ainda Cai do Penhasco: Por Que Ensina-me a Viver Nunca Envelhece
