Túmulo dos Vagalumes: A Animação Mais Dolorosa Já Feita
Há filmes que contam histórias. E há filmes que se instalam em nós como fantasmas. Quando, em 1988, o Studio Ghibli lançou duas animações em parceria inédita, o público esperava magia e fantasia de “Meu Amigo Totoro”. O que ninguém esperava é que a outra metade da sessão dupla fosse uma bomba emocional que explodiria no colo do espectador e se recusaria a ir embora .
Defendo aqui que “Túmulo dos Vagalumes” não é apenas um filme sobre a guerra — é uma meditação profunda sobre o que significa ser humano quando todas as estruturas que nos sustentam desabam. E é justamente essa pergunta, incômoda e universal, que faz com que a obra de Isao Takahata continue nos assombrando mais de três décadas depois.
O Espanto da Escolha
Por que contar uma história tão brutal através da animação? Esta é a primeira camada do enigma.
A pergunta não é retórica. Em 1988, quando o cinema já tinha recursos para reconstituir a guerra com realismo visceral, Takahata escolheu o traço, a aquarela, o desenho feito à mão. A resposta está na natureza do que ele queria alcançar: não a destruição em si, mas aquilo que a destruição leva consigo .
Quando Setsuko enterra os vagalumes mortos e pergunta ao irmão por que eles morrem tão cedo, não estamos vendo uma criança representada por uma atriz. Estamos vendo a própria inocência personificada fazendo a pergunta que nenhum adulto ousa formular. A animação permite que a metáfora não seja apenas dita, mas vivida .
Os vagalumes, ali, são mais do que insetos. São almas breves, são a mãe que se foi, são a própria Setsuko que definha. A luz que acende e apaga na escuridão é a mesma vida que teima em brilhar mesmo quando tudo ao redor é fome e abandono. E quando amanhece e eles estão mortos, a menina compreende, sem conseguir verbalizar, que a beleza e a dor compartilham o mesmo endereço .
O Inimigo Invisível
Mas há um segundo movimento no filme que talvez seja ainda mais perturbador que a guerra.
Seita e Setsuko perdem a mãe nos bombardeios. Perdem a casa. Perdem a segurança. Mas o que verdadeiramente os mata é outra coisa: a indiferença.
A tia que os acolhe e depois os trata como peso morto. Os agricultores que se recusam a vender comida. Os adultos que cruzam com duas crianças famintas e desviam o olhar. A guerra não é apenas o bombardeio — é o que ela faz com os vivos que continuam vivos .
Quando Seita é humilhado por não “trabalhar pela nação” enquanto tenta proteger a irmã, Takahata escancara a engrenagem perversa do nacionalismo: a mesma sociedade que envia os pais para morrer na frente de batalha abandona os filhos que sobram . Não há heróis aqui. Há apenas sobreviventes que aprenderam a endurecer o coração para suportar o insuportável.
A Lata que Guarda a Infância
Talvez o objeto mais poderoso de toda a simbologia do filme seja a lata de balas.
Ela aparece primeiro como doce, como presente, como memória do pai que partiu. Depois vira recipiente para os vagalumes — a luz que Setsuko tenta preservar. Mais tarde, transforma-se em copo d’água, em último recurso. Quando finalmente está vazia, quando Setsuko a usa para brincar sozinha porque não tem mais forças para levantar, a lata deixou de ser objeto para se tornar o túmulo da infância .
É nesse ponto que o filme opera sua mágica mais terrível: nos faz desejar, contra toda razão, que aquelas crianças tivessem aceitado a humilhação na casa da tia. Porque preferir a dignidade à sobrevivência parece nobre até você ver uma criança de cinco anos morrendo de fome.
O Fantasma que Narra
Há um detalhe estrutural que muitos espectadores percebem apenas no final, quando o choque já tomou conta.
O filme começa com Seita morto. A primeira cena mostra o menino exausto na estação de trem, cercado por indiferença, morrendo ali mesmo enquanto as pessoas passam. Quando sua alma se desprende do corpo e encontra a de Setsuko, entendemos: tudo o que vimos foi memória. Foi o fantasma de um menino revisitando os momentos com a irmã .
Esta escolha narrativa não é apenas um artifício. É a afirmação de que algumas histórias só podem ser contadas do outro lado. Seita não sobreviveu para contar. O Japão do pós-guerra não queria ouvir sobre as crianças esquecidas, sobre a fome silenciosa, sobre os mortos que não caíram em batalha mas definharam em abrigos abandonados.
Para Além do Tempo
E aqui chegamos ao cerne da atemporalidade da obra.
“Túmulo dos Vagalumes” não é um filme sobre a Segunda Guerra Mundial. É um filme sobre o que acontece quando uma sociedade decide que algumas vidas são descartáveis. Sobre o que a fome faz com a dignidade. Sobre como o amor entre dois irmãos pode ser a única luz num mundo que apagou todas as outras.
A pergunta de Setsuko — “Por que os vagalumes morrem tão cedo?” — não encontra resposta porque não há resposta. Algumas luzes simplesmente se apagam antes que possamos aquecer as mãos nelas. O que fica é a memória do brilho.
O que fica, também, é a responsabilidade de quem assiste. Takahata não nos permite o conforto do distanciamento histórico. Ao final, somos todos os transeuntes que passaram por Seita na estação. Todos os que poderiam ter oferecido comida e não ofereceram. Todos os que sobreviveram enquanto outros não.
O Brilho que Persiste
Talvez por isso o filme continue sendo redescoberto por novas gerações. Porque a guerra mudou de nome, de lugar, de tecnologia, mas a indiferença permanece a mesma.
Os vagalumes de 1988 ainda iluminam nosso presente incômodo. Ainda nos perguntam, com a voz de Setsuko, por que algumas luzes precisam se apagar para que outras brilhem . E ainda nos lembram que, no fundo, não há resposta que console.
Apenas o silêncio. E a memória. E a obrigação de não esquecer que, enquanto houver guerra, haverá crianças enterrando vagalumes e perguntando por quê.
