White Feather Hawk Tail Deer Hunter: Quando Lana Del Rey Trocou o Épico pelo Doméstico — e o Gesto Mais Radical de Sua Carreira
Uma garagem bagunçada. Uma máquina de neve improvisada no quintal. Um cortador de grama John Deere verde. E Lana Del Rey fazendo jantar para o marido.
Este é o cenário do videoclipe de White Feather Hawk Tail Deer Hunter — e é, deliberadamente, o oposto de tudo que o público esperava. Minha tese é que, ao escolher o lúdico e o cotidiano no lugar do épico e do melancólico, Lana Del Rey faz seu gesto mais radical em anos: ela recusa a própria persona que a tornou famosa.
O que está em jogo aqui não é apenas uma escolha estética. É uma declaração sobre identidade, transformação e o que significa pertencer a alguém — e a um lugar — de verdade.
O clipe que ninguém esperava
Lançada em fevereiro de 2026 como abertura do álbum Stove, a faixa chegou com um título incomum até para os padrões poéticos da artista. White feather, hawk tail, deer hunter: pena branca, cauda de falcão, caçador de cervos. A expectativa era por um vídeo carregado de símbolos, câmera lenta, paisagens imensas.
O que o público encontrou foi outra coisa. Um vídeo em estilo de filmagem caseira, co-produzido por Drew Erickson e Jack Antonoff, coescrito pelo marido Jeremy Dufrene, pelo irmão e pela irmã Caroline ‘Chuck’ Grant. Uma obra feita em família, filmada em família, sobre estar em família.
No clipe, Dufrene aparece em cena. A garagem é real, os dois fogões são reais, a neve artificial que cobre o quintal é real — ou pelo menos tão real quanto qualquer coisa pode ser quando Lana Del Rey está por perto. E isso, por si só, já é uma ruptura.
O cotidiano como provocação
Durante mais de uma década, a figura de Lana Del Rey foi construída sobre uma certa distância. Ela não habitava o mundo comum — ela o observava de um ângulo melancólico, etéreo, sempre à beira de algo que estava prestes a se perder.
Esse distanciamento era parte da sedução. A persona funcionava como uma tela em branco de sofisticação trágica, e o público se projetava nela com entusiasmo.
White Feather Hawk Tail Deer Hunter quebra esse pacto. Aqui, Lana não paira. Ela cozinha, empurra um cortador de grama e grita ‘yoo-hoo, o jantar tá quase pronto’. E ela faz isso com uma leveza que beira a comédia intencional — especialmente quando a letra menciona, sem cerimônia, cocaína e o constrangimento de queimar comida no forno.
Essa mistura de afeto doméstico e confissão desarmante não é ingênua. É um gesto de desmontagem. Como se a artista dissesse: a persona era o espetáculo. Isso aqui é a vida.
O título como mapa emocional
O título, no entanto, não abandonou completamente o território simbólico. Ele apenas o ressignificou.
A pena branca evoca pureza e leveza. A cauda de falcão remete ao predador vigilante. O caçador de cervos traz a lógica da perseguição. Mas na letra, esses elementos não descrevem ameaça — descrevem o marido. Ele é o caçador, a flecha, o ser que está ‘na medula óssea’ dela.
O que parecia vocabulário de perigo se converte em vocabulário de pertencimento. A violência latente dos símbolos é domesticada — no sentido mais preciso do termo — pelo amor cotidiano.
Roland Barthes observou que a imagem raramente fixa um único sentido; ela se abre em camadas. O clipe de Lana parece operar exatamente assim: os signos do título prometem uma coisa, e o vídeo entrega outra — não como traição, mas como deslocamento proposital de expectativa.
O clipe como álbum de família
O elemento mais subversivo do vídeo talvez não seja o tom lúdico em si, mas a presença de pessoas reais. Jeremy Dufrene está ali não como personagem, mas como marido. A produção inclui agradecimentos a Conner, Dillon, Anna e Jeremy pela participação — nomes sem sobrenome, nomes de gente próxima.
Isso transforma o clipe em algo que o videoclipe convencional raramente é: um documento afetivo. Não uma fantasia de amor, mas um registro de amor funcionando.
Os trechos de animação antiga — Koko the Clown em Betty Boop in Snow-White — reforçam essa lógica de acervo pessoal, de memória misturada ao presente. Como se o clipe fosse uma caixa de coisas guardadas: o velho e o novo, o público e o íntimo, o simbólico e o banal.
Não estamos diante de uma estrela. Estamos diante de alguém que decidiu ser vista em casa.
O risco do encolhimento
Essa escolha, é claro, não é isenta de tensão. Para parte do público, o abandono do épico pode parecer uma perda — ou pior, uma capitulação ao ordinário.
Mas talvez o ponto seja exatamente esse. Lana Del Rey passou anos sendo projetada como símbolo de uma certa tristeza glamorosa. White Feather Hawk Tail Deer Hunter sugere que ela pode ter encontrado algo que aquela persona nunca encontrou: um lugar onde ficar.
Conclusão: A radicalidade do ordinário
Em White Feather Hawk Tail Deer Hunter, Lana Del Rey não entrega o que se espera dela — e é precisamente aí que reside o interesse do lançamento. O clipe não é melancólico. Não é contemplativo no sentido cinematográfico elevado. É doméstico, imperfeito, quase intencionalmente descuidado.
E esse descuido é cuidadosamente construído. Porque renunciar à distância épica que sustentou uma carreira inteira é, em si, um ato de coragem — ou de alguém que simplesmente não precisa mais dela.
No fim, o clipe parece dizer algo simples e difícil ao mesmo tempo: às vezes a pessoa mais inesperada chega como uma flecha no coração — e o que vem depois não é uma balada de tristeza. É jantar ficando pronto no fogão.
