A Cinco Passos de Você: O Romance que Proibiu o Toque
A distância como linguagem, o toque como transgressão, o amor como ato político do corpo
O Convite da Obra
Há filmes que usam a doença como cenário. E há filmes que tentam fazer da doença uma gramática. A Cinco Passos de Você, dirigido por Justin Baldoni em 2019, pertence a essa segunda categoria — com resultados desiguais, mas com uma honestidade emocional que não pode ser ignorada.
Stella Grant tem fibrose cística. Will Newman também. A regra clínica é simples e implacável: pacientes com a mesma condição não podem se aproximar a menos de seis pés um do outro, sob risco de infecção cruzada fatal. O filme transforma essa distância física em sua metáfora central. Cinco passos — um a mais do que o protocolo exige — viram o título, o gesto e a tese.
A cena de abertura já é um manifesto. Stella organiza seus medicamentos com precisão quase coreográfica, filma tudo para o YouTube, controla o que pode ser controlado. O quarto hospitalar é um estúdio. A doença é rotina. O amor será o caos.
A Obra e Seu Momento
O filme chegou em 2019, num contexto específico de reconfiguração do drama romântico adolescente para plataformas de streaming e salas de cinema simultâneas. Era o período pós-A Culpa é das Estrelas — adaptação de John Green que redefiniu o subgênero em 2014 — e o mercado buscava variações sobre o mesmo tema: jovens bonitos, doenças reais, amor improvável.
A Cinco Passos foi produzido pela CBS Films e Lions Gate com orçamento modesto, apostando no apelo emocional direto ao público jovem adulto. Cole Sprouse, ex-Disney com base de fãs consolidada, e Haley Lu Richardson, atriz de trajetória mais voltada ao cinema independente, formaram uma dupla de química improvável mas funcional.
O roteiro é de Mikki Daughtry e Tobias Iaconis, e foi desenvolvido a partir de uma história original — não de um livro —, o que lhe confere tanto liberdade quanto a ausência de uma base literária para sustentar suas ambições. O resultado é um filme emocionalmente sincero e industrialmente previsível — duas forças que jamais entram em conflito.
A Gramática Visual
Baldoni trabalha com um vocabulário visual que vale ser lido com atenção. O hospital, ambiente de controle total, é filmado com paleta fria e iluminação clínica nas cenas de rotina. Quando Stella e Will se aproximam — dentro dos limites impossíveis — a fotografia de Brandon Trost aquece levemente, como se o calor humano contaminasse a temperatura da imagem.
A piscina é o símbolo mais elaborado do filme. A cena em que os dois nadam à meia-luz, separados pela água mas conectados pelo olhar, funciona como condensação de todo o argumento estético: o elemento líquido dissolve fronteiras, cria uma geometria de proximidade sem toque. É o erotismo possível dentro do impossível.
Os cinco passos do título são sempre marcados pela câmera com precisão quase ritual. Quando Stella decide roubar um passo a mais — fazer cinco em vez de quatro, reclamar do corpo um centímetro de autonomia —, o gesto é filmado como um ato de resistência política. O corpo como território. A aproximação como manifesto.
Richardson carrega o filme. Sua Stella é compulsiva, brilhante, assustada e exaustivamente humana. Sprouse tem a tarefa mais difícil — fazer do ceticismo algo atraente sem que vire postura — e não resolve completamente. Mas a dinâmica entre os dois tem textura suficiente para sustentar as duas horas.
Tensões da Narrativa
O problema central do filme é sua relação com a própria doença. A fibrose cística é retratada com precisão clínica nos detalhes — os medicamentos, os tratamentos, os protocolos — mas permanece esteticamente segura. Stella e Will são jovens bonitos, articulados, bem-humorados. A doença os torna interessantes, não desfigurantes.
Há uma contradição ideológica embutida aqui que o filme não enfrenta. Ao mesmo tempo em que reivindica autenticidade — com consultoria médica, com a presença de histórias reais de pacientes com FC nas notas de produção —, o roteiro recusa qualquer feiura. A degeneração pulmonar que caracteriza a fibrose cística é narrada, nunca mostrada. O corpo doente é representado com toda a saúde que Hollywood consegue manter.
Isso não destrói o filme — mas delimita com clareza o tipo de verdade que ele está disposto a encenar. A distância obrigatória entre os personagens — o elemento mais autêntico da narrativa — acaba servindo também a uma função estética conveniente: dois corpos que nunca se tocam nunca precisam revelar suas limitações físicas reais.
O terceiro personagem, Poe, amigo de Stella interpretado por Moises Arias, cumpre uma função de alívio cômico que o roteiro não sabe bem como tratar. Sua presença é calorosa, mas seu arco é subordinado. O filme o ama sem lhe dar peso.
Por Que Isso Ainda Importa
Cinco anos depois de seu lançamento, A Cinco Passos de Você continua sendo redescoberto por adolescentes em plataformas de streaming — o que diz algo sobre sua durabilidade emocional, independentemente de seus limites.
A pandemia de Covid-19, que chegou menos de um ano depois do lançamento do filme, reconfigurou involuntariamente toda a sua simbologia. O isolamento compulsório, a distância como protocolo de sobrevivência, o toque como risco — elementos que em 2019 pareciam específicos da experiência de pacientes com doenças pulmonares — tornaram-se experiência universal.
Assistir ao filme hoje é uma experiência ligeiramente deslocada. A metáfora da distância ganhou camadas que o roteiro não planejou. Isso não torna o filme melhor, mas o torna mais complexo do que pretendia ser.
Há também uma ressonância na discussão sobre autonomia corporal que o filme toca sem aprofundar. Stella briga com os médicos, com a mãe, com Will, pelo direito de decidir sobre o próprio corpo — inclusive o direito de se arriscar por amor. Essa negociação entre desejo e protocolo, entre autonomia e proteção, continua sendo um debate cultural vivo.
Vale a Pena Assistir?
Para quem busca cinema de gênero com execução competente e uma performance central de alta qualidade, sim. Haley Lu Richardson justifica o tempo sozinha.
Para quem tem interesse em narrativas sobre doença e corpo, o filme oferece um ponto de entrada acessível — com a consciência de que suas escolhas estéticas priorizam a emoção sobre a complexidade. É um bom objeto para pensar os limites do gênero, não para transcendê-los.
Não é um filme para análise formal exigente. É um filme para sentir, discutir depois, e usar como espelho de como a cultura popular negocia entre a autenticidade que reivindica e o conforto que precisa oferecer para ser assistido.
Funciona melhor com disposição emocional aberta e expectativa calibrada.
O Que Fica
A Cinco Passos de Você é um filme que escolheu sua limitação e a executou com habilidade. Não tenta ser A Culpa é das Estrelas. Não tenta ser cinema de arte sobre enfermidade. Tenta ser um drama romântico honesto sobre corpos que querem se tocar e não podem — e nesse objetivo específico, em vários momentos, ele consegue.
A imagem que permanece não é nenhuma das cenas de crise. É a piscina à meia-luz. Dois corpos separados pela água, pelo risco, pelo protocolo e pelo desejo simultâneo. Uma geometria de amor que o filme construiu com seus melhores recursos.
É o tipo de imagem que um gênero produz quando funciona: simples, precisa, mais inteligente do que parece.
