Love Story: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette — Glamour, Mito e o Peso de Ser Kennedy
Love Story: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette (História de Amor) não é apenas mais um drama biográfico de Ryan Murphy. A série do FX — distribuída internacionalmente pelo Disney+ — transforma um dos casais mais mitificados da cultura americana em objeto de análise sobre fama, imagem e tragédia. Antes mesmo que a narrativa comece, existe uma fotografia que já conta parte dessa história.
Existe uma fotografia gravada na memória coletiva americana: um menino de três anos, de terno escuro, ergue a mão e saúda o caixão do pai. Essa imagem não é mostrada em Love Story: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette — e não precisa ser. Ela habita cada cena da série como um espectro silencioso, lembrando ao espectador que John F. Kennedy Jr. nasceu sendo personagem antes de ser pessoa.
A série de Ryan Murphy para o FX parte exatamente desse ponto de impossibilidade: contar a história de dois seres humanos que o mundo insistiu em transformar em símbolos.
A Obra e Seu Momento
Love Story chega como a abertura de uma nova antologia de Murphy, batizada inicialmente de American Love Story, antes de perder o prefixo. O movimento não é só de rebranding — é de pretensão global. Murphy e o roteirista Connor Hines adaptam o livro de Elizabeth Beller sobre Carolyn Bessette-Kennedy e escolhem um casal que, fora dos Estados Unidos, carrega peso simbólico menor do que Diana e Charles, alternativa considerada e descartada justamente pelo excesso de cobertura recente.
O cenário de produção explica parte das escolhas estéticas: a recriação dos anos 1990 é precisa, quase arqueológica — as roupas da Calvin Klein, os flashbulbs dos paparazzi analógicos, a trilha sonora que parece retirada de uma gaveta esquecida da época. Murphy aposta na nostalgia como cola emocional quando a narrativa vacila.
A Gramática Visual e o Custo do Glamour
Há uma linguagem clara operando em Love Story: o glamour como armadilha. Carolyn Bessette, interpretada por Sarah Pidgeon com precisão que o roteiro nem sempre merece, é introduzida como mulher de agência própria — ela recusa buquês, ri dos paparazzi, negocia seu espaço num universo que quer reduzí-la a acessório. Cada escolha de figurino funciona como sinal duplo: a mesma elegância que Calvin Klein (Alessandro Nivola, numa recriação convincente) celebra é a que a mídia vai usar para reduzi-la.
Paul Anthony Kelly, em seu primeiro papel de destaque, carrega uma semelhança física com JFK Jr. que beira o desconcertante. A gestualidade, a postura, o sorriso calculado para parecer espontâneo — tudo isso constrói um personagem preso entre a herança e o desejo de existir fora dela. Quando os dois atores dividem o quadro, a série encontra sua melhor versão: a química não é ornamental, é narrativamente funcional, porque é exatamente ela que torna compreensível por que Carolyn entrou naquele furacão.
O problema é que Murphy frequentemente troca análise por inventário. A câmera registra momentos em vez de interpretá-los.
Onde a Série Racha
A crítica mais justa a Love Story não é que ela seja ruim — é que ela é irregular de maneira custosa. Os diálogos oscilam entre o revelador e o patético. Linhas como “entre sua linhagem e sua herança você é como o garoto-propaganda da evitação emocional” não apenas soam falsas: elas destroem a ilusão que os atores constroem em silêncio.
Há também a questão ideológica mais profunda. A série quer contar a história de Carolyn Bessette — a mulher comum devorada pela máquina Kennedy — mas frequentemente a usa como espelho para refletir John. Sua agência própria, seu trabalho, suas amizades, sua relação com o próprio corpo e com a fama aparecem como notas de rodapé da narrativa principal. O livro de Beller prometia centralizar Carolyn; a série centraliza o casal, que é diferente.
Naomi Watts como Jackie Onassis entrega cenas de real força dramática, especialmente nas sequências que retratam o declínio de saúde da ex-primeira-dama. Mas Dree Hemingway como Daryl Hannah é um equívoco evidente — a personagem é retratada com uma superficialidade que, no mínimo, levanta questões éticas sobre dramatizações de pessoas vivas.
Ecos Contemporâneos
Love Story estreia num momento em que o fascínio pela celebridade como tragédia nunca foi tão codificado em forma serial. De The Crown a Pam & Tommy, a indústria desenvolveu um gênero próprio: o biopic emocional, que usa a intimidade fabricada para criar empatia por figuras que já existem no imaginário público.
O que distingue Love Story nesse panorama é o fato de que seus protagonistas morreram jovens, em circunstância brutal, sem deixar versão própria da história. Não há memórias publicadas, entrevistas tardias, reconciliações públicas. A série preenche esse silêncio — e isso é ao mesmo tempo sua força e sua responsabilidade mais delicada. Num tempo em que privacidade e espetáculo estão em colapso permanente, recontar essa história é também uma decisão política sobre quem tem direito de narrar.
Love Story Vale a Pena? A Série Funciona? Vale a Pena Assistir?
Para quem já tem alguma familiaridade com o universo Kennedy e interesse em dramas de época bem produzidos, a resposta é sim — com reservas. A série funciona melhor nos primeiros episódios, quando a tensão do encontro ainda carrega energia, e nos momentos em que Pidgeon tem espaço para construir Carolyn além do relacionamento.
Para o espectador sem conexão afetiva prévia com os Kennedy, a série exige paciência considerável. Os episódios centrais se arrastam com uma fidelidade cronológica que confunde documentação com drama. São nove episódios que poderiam ser seis.
Quem aprecia o trabalho anterior de Murphy encontrará aqui uma versão mais contida, menos estilizada, e nem sempre isso é vantagem.
O Que Fica
Como drama biográfico, Love Story oscila entre reconstrução histórica e interpretação dramática. Como objeto cultural, revela algo mais interessante: a permanência da mitologia Kennedy como máquina narrativa inesgotável.
Love Story é uma série sobre o custo de ser amado em público. Carolyn Bessette entrou num relacionamento e encontrou uma instituição. John Kennedy Jr. tentou ser homem e carregou um mausoléu. Murphy capta essa tensão nos melhores momentos da série — e a desperdiça nos piores.
O que permanece, quando os créditos fecham e a trilha dos anos 90 para, é a imagem de dois corpos que o mundo transformou em superfície de projeção. A série não resolve esse problema. Mas, nas cenas certas, ao menos o nomeia.
