Para Todos os Garotos que Já Amei: O Romantismo Que Nos Vende Uma Mentira Bonita

Pôster do filme Para Todos os Garotos que Já Amei com Lara Jean cercada por ilustrações românticas
Lara Jean e a estética da fantasia romântica em Para Todos os Garotos que Já Amei

Existe um momento exato em que a fantasia vira armadilha. Você está assistindo a um filme, o coração dispara, e a última coisa que quer fazer é questionar o que está sentindo. É exatamente aí que a narrativa faz seu trabalho mais sofisticado — e mais perigoso.

Para Todos os Garotos que Já Amei, lançado pela Netflix em 2018, é um desses fenômenos. Mais de 80 milhões de lares assistiram ao filme nas primeiras semanas. As redes explodiram. Peter Kavinsky virou meme, símbolo e desejo. Mas por baixo da estética pastel e dos olhares longos, o filme constrói uma gramática afetiva que merece ser lida com mais atenção.

Este texto defende que o filme não é apenas entretenimento romântico — é um manual emocional que codifica expectativas afetivas irreais com a eficiência de um algoritmo, e que isso tem consequências reais para quem o consome, especialmente adolescentes.


O Arquivo dos Sentimentos Guardados

Lara Jean guarda suas declarações de amor em envelopes. Nunca manda. É uma metáfora linda — e clinicamente reveladora.

O gesto diz: sentir é suficiente. O amor não precisa ser arriscado, negociado, exposto ao atrito da realidade. Ele existe em estado puro dentro de uma caixinha cor-de-rosa. É a fantasia do amor sem consequência, sem rejeição, sem o trabalho de ser conhecido de verdade.

Roland Barthes, em Fragmentos de um Discurso Amoroso, escreveu que o apaixonado vive em um estado de suspensão — sempre à beira de dizer algo que nunca diz. Lara Jean transforma isso em estética. O problema é quando o espectador aprende que guardar é mais romântico do que arriscar. Que a intensidade silenciosa vale mais que a conversa real.


Peter Kavinsky e a Perfeição Como Padrão

Defendo aqui que Peter Kavinsky é um personagem construído para ser perfeito de um jeito específico — e essa especificidade é o problema.

Ele é atleta, mas sensível. Popular, mas escolhe você. Protetor, mas não controlador (ou quase). Faz grandes gestos. Aparece na hora certa. Sabe o que você precisa antes de você saber.

Esse perfil não é um personagem. É uma lista de desejos montada em pesquisa de mercado.

O cinema romântico sempre produziu ideais — de Cary Grant a Noah Calhoun, de Um Lugar Chamado Notting Hill a Diário de uma Paixão. Mas o que Para Todos os Garotos faz com mais eficiência é calibrar o personagem ideal para a geração da curadoria digital: alguém esteticamente correto, emocionalmente disponível e narrativamente conveniente. Sem ambiguidade ou falha real. Sem o peso de existir de verdade.

O contraponto existe: há cenas em que Peter mente, se esquiva, prioriza a ex. Mas o roteiro sempre o absolve com rapidez cirúrgica. A narrativa pune levemente e perdoa totalmente. E o espectador aprende: os defeitos dos homens certos são passageiros. Basta esperar.


A Contratualização do Amor

O ponto mais fascinante — e mais sintomático — do filme é o contrato.

Lara Jean e Peter firmam um acordo: fingem namorar para benefício mútuo. É uma convenção do gênero, usada pelo menos desde Jane Austen. Mas aqui ela assume uma dimensão nova: o amor como performance gerenciável, com cláusulas e saídas planejadas.

Num momento histórico em que aplicativos de relacionamento transformaram o afeto em interface e “matches” em transações, o contrato do filme não é só recurso narrativo. É espelho cultural. Ele diz: mesmo o amor pode ter termos e condições.

A virada interpretativa está aqui — o filme critica isso? Superficialmente, sim. O contrato quebra, os sentimentos reais emergem, a autenticidade vence. Mas a estrutura emocional que o filme constrói durante toda a narrativa é a mesma que o contrato representa: o amor como algo que se administra, que tem fases, que evolui conforme os passos certos são dados. A conclusão romântica não desfaz a lógica. Apenas a decora com flores de papel.


O Que Ficou Nos Envelopes

No final, Lara Jean manda as cartas. Arrisca. É um gesto bonito — e o filme merece crédito por valorizar a vulnerabilidade.

Mas o que fica, depois que a tela escurece, é uma gramática afetiva sedimentada: o amor certo chega com boa estética, o sofrimento é provisório, os gestos grandiosos substituem conversas difíceis, e a intensidade do sentimento basta como prova de autenticidade.

A consequência não é abstrata. É a expectativa moldada de quem tem quinze anos e aprende, em noventa minutos de Netflix, o que é suposto sentir, como é suposto parecer e o que deve esperar de outro ser humano.

Nenhum filme tem essa responsabilidade sozinho. Mas quando 80 milhões de lares assistem ao mesmo tempo, o efeito é cumulativo. A ficção vira referência. O ideal vira régua. E a régua, aplicada à vida real, machuca.


A pergunta que o filme nunca faz — e que talvez fosse mais corajosa do que qualquer cena de beijo na pista de neve — é esta: o que acontece quando o amor não tem roteiro?

Essa é a carta que ainda está no envelope.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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