A Promessa da Guerra: O Que Bruno Gabriel Foi Buscar na Ucrânia — e o Que Encontrou

Container militar na neve em cenário de guerra na Ucrânia, atmosfera fria e melancólica
A guerra raramente chega como mentira. Ela chega como promessa.

A promessa da guerra raramente chega como mentira.
Ela chega como imagem, pertencimento e sentido — e cobra seu preço em silêncio.

Bruno Gabriel Leal da Silva tinha 28 anos. Vinha de Pernambuco. Queria ir para a guerra.
Em 29 de dezembro de 2025, seu corpo foi encontrado na neve, do lado de fora de um contêiner, em Kyiv — marcas de corda nos pulsos, hematomas no torso, nenhum contrato assinado, nenhuma identidade militar formal, nenhum passaporte em mãos. Quatro dias antes de morrer, pediu para ir embora. Ninguém o deixou.

Este texto defende que Bruno Gabriel não foi apenas vítima de uma unidade corrupta. Foi vítima de um imaginário cultural que transforma a guerra em promessa — de pertencimento, de virilidade, de sentido — e que recruta corpos antes mesmo que qualquer contrato exista.

A pergunta não é apenas quem matou Bruno. A pergunta é: o que o levou até lá.


A Guerra Que Se Vende Antes de Começar

Existe uma guerra que acontece nos campos de batalha. E existe outra que acontece antes: nos vídeos do YouTube, nas redes sociais, nos grupos de Telegram, nos imaginários de homens que sentem que a vida civil não lhes oferece nada à altura do que imaginam ser.

Essa segunda guerra é um produto cultural. Ela tem estética — as botas, os coletes, a névoa do alvorecer sobre uma trincheira. Tem narrativa — o homem que abandona uma vida medíocre para defender algo maior que si mesmo. Tem mercado — cartas de convite, agências de recrutamento informal, figuras carismáticas que prometem entrada em unidades de elite.

A Advanced Company, unidade brasileira que operava sob a inteligência militar ucraniana, sabia vender essa guerra. Tinha redes sociais. Tinha apelo. E tinha um líder que comunicava força e pertencimento. Para jovens sem perspectiva, sem experiência militar, vindo de periferias onde o Estado nunca foi promessa de nada, a proposta soava como elevação.

Bruno Gabriel não tinha experiência militar. Ainda não havia assinado contrato. E já havia decidido que queria voltar para casa.


O Produto e Seus Custos Ocultos

O filósofo Guy Debord descreveu o espetáculo não como um conjunto de imagens, mas como uma relação social mediada por imagens. A guerra contemporânea é, em parte, espetáculo: ela se apresenta como experiência transformadora antes de ser experiência real. E como todo produto bem embalado, esconde os custos no miúdo do contrato — quando existe contrato.

O que a investigação do Kyiv Independent revelou sobre a Advanced é perturbador não apenas pelos atos descritos — torturas, confinamento, passaportes confiscados, sessões de espancamento coletivo — mas pela lógica que os sustentava. “Era sobre poder”, disse um ex-soldado. “Te amarrar e te bater, te humilhar.”

Isso não é guerra. É dominação organizada sob estética militar.

E aqui está o nó: o mesmo imaginário que recrutou Bruno Gabriel — a ideia de que a guerra forja homens, que a disciplina extrema é prova de virilidade, que sofrer em silêncio é virtude — foi o imaginário que tornou o abuso invisível por dentro. Quem poderia reclamar sem parecer fraco? Quem poderia fugir sem parecer traidor de uma causa que escolheu?

Bruno tentou. Enviou um e-mail ao consulado brasileiro quatro dias antes de morrer. Disse que estava sendo maltratado. Que tinham tomado seu passaporte. O consulado respondeu que ele deveria levar a queixa ao comando da própria unidade.

Não havia saída pelo mapa que lhe entregaram.


O Corpo Como Fronteira Entre o Símbolo e o Real

Há um momento em todo conflito armado em que o símbolo encontra o corpo — e o corpo perde. É o instante em que a narrativa de heroísmo se depara com a fadiga real, com o medo real, com a violência que não tem câmera e não vai para o Instagram.

Para Bruno Gabriel, esse momento foi a noite de 28 de dezembro. Ele tinha saído da base, bebido, voltado tarde. Foi punido com uma sessão de boxe — ainda de pé, ainda brincando, segundo testemunhas. Depois, foi levado para o contêiner. Os outros recrutas ouviram os gritos por quarenta minutos e não puderam fazer nada.

“Bruno era um cara humilde do Brasil, de Pernambuco”, disse um soldado ao Kyiv Independent.

“A única coisa que ele queria era ir para casa.”

Essa frase é o colapso de toda promessa. O homem que foi buscar significado na guerra descobriu que a guerra não precisava de seu significado — precisava de seu corpo. E quando o corpo tentou recuar, foi retido.

Não é coincidência que ele nunca tivesse assinado o contrato. Na prática, já estava dentro. O recrutamento simbólico antecede — e às vezes substitui — o recrutamento formal.


O Que Fica Quando a Promessa Termina

Investigações foram abertas na Ucrânia. O Itamaraty emitiu alertas. A história circulou em portais internacionais. Leanderson Paulino, o líder da unidade, leu as mensagens dos jornalistas e não respondeu.

Enquanto isso, outros brasileiros seguem na Ucrânia, em outras unidades. Alguns porque acreditam na causa. Outros porque não têm como sair. A distinção entre esses dois grupos é mais difícil de fazer do que parece.

O caso Bruno Gabriel não é apenas sobre tortura numa unidade irregular. É sobre o que acontece quando um país periférico, com altas taxas de violência, baixo acesso a perspectivas reais e um imaginário cultural saturado de masculinidade bélica, exporta seus jovens para conflitos que mal conhecem — e os entrega a estruturas de poder sem supervisão, sem proteção consular efetiva, sem contrato válido.

A guerra não prometeu nada por escrito. Prometeu em vídeo, em stories, em narrativas de virilidade que circulam onde circulam os desesperançados.

A promessa da guerra raramente chega como mentira. Ela chega como glamour — e cobra o preço em carne.

Bruno Gabriel foi buscar um sentido que a vida comum não lhe oferecia. Encontrou um contêiner, quarenta minutos de gritos, e neve na madrugada de Kyiv. O que falhou não foi apenas uma unidade militar. Foi o sistema inteiro que converte sonhos de pertencimento em mercadoria — e deixa os corpos para trás quando a conta chega.

A promessa da guerra raramente chega como mentira. Ela chega como imagem.

E imagens, ao contrário de contratos, não precisam assumir responsabilidade sobre os corpos que convencem.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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