Anônimo 2 e o Problema das Sequências: Quando “Mais Do Mesmo” É a Única Estratégia

Cena de Anônimo (Nobody) ilustrando o arquétipo do homem comum no cinema de ação
Uma imagem que condensa o arquétipo central das franquias modernas: o homem aparentemente banal que sustenta universos replicáveis

Defendo aqui que Anônimo 2 (Nobody 2) é um filme honesto sobre sua própria desonestidade — e que isso, paradoxalmente, é tanto sua maior virtude quanto seu limite mais claro.

Em agosto de 2025, enquanto Hollywood continuava sua cruzada por franquias eternas e universos expandidos, Anônimo 2 chegou às telas com o descaro de quem nunca foi convidado para a festa, mas apareceu assim mesmo. O primeiro filme, lançado em 2021, era um caso estranho de acerto involuntário: um thriller de ação protagonizado por Bob Odenkirk — o Saul Goodman de Better Call Saul, ator de raízes cômicas e dramáticas — que funcionava justamente porque ninguém esperava que funcionasse. Era uma surpresa embalada em papel pardo.

A questão que o segundo filme precisa responder não é se consegue ser bom. É se consegue existir com dignidade. E a resposta é: mais ou menos, dependendo do que você trouxer na bagagem.


O Fardo de Carregar um Efeito Surpresa

Todo segundo capítulo de uma franquia carrega uma maldição silenciosa: o efeito surpresa já foi gasto. No primeiro Anônimo, ver Odenkirk como um pai suburbano comum que se revelava um assassino letal de alto nível tinha algo de revelação. A dissonância entre o ator e o personagem era a própria piada, e a piada era boa.

Em Anônimo 2, Hutch Mansell já é quem ele é. Não há mais véu a ser rasgado, nenhum segredo a desvelar. A narrativa se passa quatro anos após os eventos do original, com Hutch tentando remendar o casamento com Becca (Connie Nielsen) levando a família para férias num resort cafona — tobogãs temáticos, cabanas kitsch, o tipo de lugar que nenhum pai cool admitiria escolher. E inevitavelmente, o resort acaba controlado por criminosos. O roteiro, co-escrito por Derek Kolstad (o mesmo responsável pelos filmes da franquia John Wick), não tenta disfarçar que o cenário é um pretexto.

Isso é, a um tempo, um problema e uma escolha consciente. O filme não tenta enganar ninguém. Sabe que é uma sequência não pedida e assume isso como manifesto estético.

O problema é que a consciência do próprio limite não o resolve. Reconhecer que você está preso numa estrutura não equivale a libertar-se dela.


Tjahjanto e a Ação Como Linguagem Própria

Onde o filme encontra sua melhor versão é exatamente nas sequências de ação, agora sob o comando do diretor indonésio Timo Tjahjanto, conhecido pelo cultuado A Noite Nos Persegue (2018). Tjahjanto substitui Ilya Naishuller — responsável pelo original — e traz consigo um vocabulário cinematográfico diferente: câmera próxima ao corpo, coreografias influenciadas pelo cinema de ação do Sudeste Asiático, ritmo acrobático.

A diferença é perceptível. A ação em Anônimo 2 tem uma qualidade tátil que o primeiro às vezes perdia. Hutch continua vulnerável — ele sangra, tropeça, perde literalmente parte de um dedo — e essa vulnerabilidade é o que separa a franquia dos super-heróis de mármore que dominam as bilheterias. A dor é encenada como dado dramático, não apenas como espetáculo.

Há algo interessante acontecendo aqui do ponto de vista simbólico. O herói de ação contemporâneo oscila entre dois polos: o invulnerável (Thor, Superman) e o demasiado humano (John Wick em seus momentos mais melancólicos). Hutch Mansell habita um meio-termo peculiar — é um homem que sofre de forma cômica, que parece retirado de uma sitcom dos anos 2000 e acaba despedaçando vilões com o que encontra pela frente. O absurdo é deliberado. O riso é parte do contrato com o público.

O elenco de apoio colabora para sustentar esse tom. Sharon Stone entrega uma vilã propositalmente exagerada, cafona e falastrona. Colin Hanks é um capanga de aparência respeitável e atitudes deploráveis. Christopher Lloyd aparece em cenas breves e sai ileso, porque Christopher Lloyd sempre sai ileso. São personagens que existem como funções narrativas, e o filme tem lucidez suficiente para não fingir que são outra coisa.


O Que Fica e o Que Falta

O problema não está no que Anônimo 2 faz. Está no que ele deixa de fazer.

O primeiro filme tinha uma espinha emocional minimamente funcional: um homem que perdeu o fio de si mesmo tentando reatar com algo essencial — a violência como identidade, por mais perturbadora que seja essa equação. Era uma tese simples, mas operava. A ação tinha consequência emocional porque havia algo em jogo além do espetáculo.

Na sequência, o drama familiar — Hutch preocupado que o filho siga seus passos violentos, Becca presa num ciclo de resignação — não chega a ter peso suficiente para ancorar o restante. O começo e o final pagam o preço dessa fragilidade narrativa. O meio, recheado de cenas de ação bem construídas, se sustenta sozinho.

Há uma diferença entre um filme que é “só diversão” e um filme que escolhe ser só diversão porque não sabe ser outra coisa. O primeiro é uma postura estética. O segundo é uma limitação disfarçada de modéstia.

Anônimo 2 flutua entre os dois sem nunca decidir onde fica.


A Franquia Como Destino

O que talvez seja mais revelador sobre Anônimo 2 não é o filme em si, mas o que ele representa como objeto cultural. Ele chega ao mundo com a mentalidade de quem já está planejando o terceiro capítulo. A estrutura é replicável, os personagens secundários têm espaço para expandir (Sharon Stone e Colin Hanks deixam a impressão de que cenas foram cortadas na montagem), e o protagonista saiu do filme de pé — literalmente e metaforicamente.

Essa arquitetura de franquia não é, por si só, um pecado. John Wick construiu quatro filmes sobre uma lógica semelhante. Mas John Wick foi se tornando mais ambicioso à medida que avançava, aprofundando seu mundo mitológico a cada capítulo. Anônimo 2 não demonstra o mesmo apetite pela expansão.

Uma sequência que ninguém pediu pode ainda assim ser necessária — se vier carregada de algo que o original não tinha. Uma perspectiva nova, uma virada de tom, uma aposta formal. Aqui, o que chegou foi uma repetição bem-executada. Competente, honesta sobre seus limites, divertida nos momentos certos.

Mas diversão sem ambição é um teto baixo para um personagem que merecia um teto mais alto.

Um filme que sabe exatamente o que não quer ser, mas ainda não descobriu o que quer ser — essa é, talvez, a definição mais precisa de sequência segura. E a segurança, no cinema como na vida, raramente produz algo memorável.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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