Zootopia 2: Crítica, Temas Políticos e Por Que a Sequência é Mais Profunda do Que Parece
Há sequências que chegam com desculpas. Zootopia 2 não é uma delas. O filme de Byron Howard e Jared Bush, lançado em novembro de 2025, entra em cena como quem nunca saiu — com a segurança de quem conhece o terreno e a ambição de quem quer redesenhar o mapa. Judy Hopps e Nick Wilde não reaparecem na tela para repetir uma fórmula. Eles reaparecem para testá-la, tensioná-la, e no limite, superá-la.
A tese do filme é simples na superfície e inquieta por dentro: a convivência entre diferentes não é um estado conquistado. É um processo permanentemente negociado, sempre ameaçado, e frequentemente interrompido por quem tem interesse em manter as separações.
Por Que Zootopia 2 Não é Apenas Mais Uma Sequência
O primeiro Zootopia chegou em 2016, um ano de polarização política aguda nos Estados Unidos e no mundo. Não por acaso, a animação tratava de estigmas sociais, vieses inconscientes e a construção narrativa do medo. Ganhou o Oscar de melhor animação e foi rapidamente adotado por educadores e ativistas como material de reflexão.
Quase uma década depois, com o segundo filme anunciado em 2023 pelo CEO Bob Iger e desenvolvido sob a direção de Jared Bush — agora também chefe criativo da Walt Disney Animation —, Zootopia 2 chega em novembro de 2025 em um estúdio ainda se recuperando de uma sequência de tropeços criativos. Após Wish, Mundo Estranho e a discreta Moana 2, o filme precisa provar algo maior do que sua própria qualidade: que a Disney Animation ainda tem razão de existir como instância criativa, não apenas comercial.
Nas bilheterias, a resposta foi imediata. O filme estreou com força nos Estados Unidos e tornou-se um dos maiores êxitos de animação do ano. Mas bilheteria não é argumento crítico. A pergunta relevante é outra: o que Zootopia 2 faz com esse capital simbólico herdado do primeiro?
Os Temas Políticos de Zootopia 2
O universo de Zootopia sempre foi sua maior vantagem competitiva. A cidade-metrópole onde mamíferos convivem em distritos climáticos distintos não é apenas cenário — é uma alegoria arquitetônica. Cada escolha de design carrega implicações políticas. Quem mora onde. Quem foi deixado de fora da planta original.
Zootopia 2 expande esse universo apresentando novos cenários — distritos desérticos, portuários e montanhosos — e a forma como a equipe trabalha esses ambientes junto às espécies que os habitam é notavelmente precisa. Cada novo distrito revela uma lógica ecológica própria que é simultaneamente zoológica e sociológica. O filme entende que worldbuilding é, antes de tudo, um ato político.
A introdução dos répteis é o exemplo mais eloquente. O diário guardado pela víbora carrega a chave de um segredo histórico: os répteis foram expulsos de Zootopia, e seu lar original foi soterrado durante a construção do distrito de Tundralândia. O gesto narrativo é claro — e corajoso para os padrões de um estúdio cada vez mais cauteloso. Soterrar a memória de um povo para erguer a prosperidade de outro não é metáfora abstrata. É história.
A Evolução Visual e Técnica da Animação
A parte técnica da animação evoluiu de forma impressionante. A cena com a dupla molhada é frequentemente citada como uma das mais sofisticadas visualmente, com trabalho notável em água, luz e textura. Mas o mais relevante não é o espetáculo gráfico em si — é que a evolução técnica está a serviço da narrativa. O refinamento visual de personagens molhados, por exemplo, acentua vulnerabilidade. É estética com função semântica.
Os Problemas Narrativos de Zootopia 2
Zootopia 2 tem uma tensão interna que nenhuma crítica elogiosa deveria ignorar. O filme quer dizer muita coisa ao mesmo tempo, e nem sempre consegue sustentar tudo com a mesma solidez.
A reescrita da história oficial da cidade, envolvendo os répteis, é um comentário inteligente sobre revisionismo histórico, apagamento institucional e a necessidade de corrigir injustiças estruturais — mas um pouco apressado. O arco de Gary A’Cobra, a víbora que funciona como catalisador moral da trama, merecia mais tempo. Ele nunca é tratado como vilão visual — é alguém deslocado do ecossistema político da cidade — mas sua resolução narrativa chega rápido demais para ter o impacto emocional que prometia.
O filme também enfrenta críticas por uma recorrência mecânica: a polícia que persegue os protagonistas, mesmo sendo eles próprios policiais, aparece repetidamente como motor de conflito — o que quebra a lógica interna da narrativa. É um recurso de roteiro que prioriza o momentum da ação sobre a coerência do mundo. Em uma animação que se propõe a levar a sério as suas próprias regras, essa escolha revela os limites de uma produção que às vezes corre mais rápido do que consegue pensar.
Ver temas como dominação e devastação de terras e povos dentro de uma Disney cada vez mais restritiva chega a ser inesperado. O que fica implícito nessa observação é também uma tensão real: o quanto esse estúdio, comprometido com sua audiência global e seus acionistas, consegue sustentar uma crítica estrutural sem domesticá-la em fábula palatável? Zootopia 2 vai longe — mas não tão longe quanto poderia.
Ecos Contemporâneos
Em 2025, o debate sobre gentrificação, apagamento histórico e direito ao espaço urbano não é metáfora. É notícia cotidiana. Zootopia 2 escolhe esse terreno com consciência — e o fato de fazê-lo dentro de uma animação infantil não diminui a operação. Pelo contrário, a potencializa.
Zootopia 2 por vezes soa didático, algo natural em uma obra infantil, mas eleva a discussão por meio das imagens, ultrapassando o nível mais básico do debate — e isso por si só justifica sua existência. A distinção é precisa: um filme pode ser didático na superfície e filosoficamente honesto no subtexto. O problema surge quando o didatismo engole o subtexto. Zootopia 2 equilibra isso com mais habilidade do que a maioria de suas concorrentes imediatas.
A amizade entre Judy e Nick continua sendo o coração pulsante de tudo. Não é uma amizade idealizada — é uma amizade que precisa ser renegociada a cada novo desafio, que carrega o peso das diferenças estruturais entre uma coelha-policial-idealista e uma raposa que aprendeu cedo que o sistema não foi feito para ela. Nessa relação, o filme encontra sua inteligência mais duradoura.
Vale a Pena Assistir Zootopia 2?
Para quem amou o primeiro, a resposta é inequívoca: sim. Zootopia 2 respeita a inteligência do espectador adulto sem excluir a criança — equilíbrio raro e cada vez mais raro no cinema animado mainstream.
Para quem nunca viu o original, o segundo filme funciona de forma autônoma, mas perde camadas importantes. Vale assistir ao primeiro antes, não por obrigação narrativa, mas porque o peso emocional de certos momentos depende de uma história compartilhada entre personagens e espectador.
Para o público que busca animação como forma artística — não apenas entretenimento —, Zootopia 2 oferece material genuíno: design político, uso expressivo da linguagem visual, e uma reflexão sobre exclusão histórica que poucas animações da Disney ousaram fazer tão explicitamente.
Zootopia 2 é Melhor Do Que Parece?
Zootopia 2 é imperfeito, ambicioso e por vezes excessivamente carregado, mas ainda encontra momentos de encanto genuíno. É um filme que tenta correr mais longe do que consegue — mas graças ao coração da dupla protagonista e a uma sensibilidade política ainda presente, mantém algo do espírito que fez o primeiro filme tão querido.
O mais honesto que se pode dizer sobre Zootopia 2 é o seguinte: ele é melhor do que o contexto em que chegou exigia, e ligeiramente aquém do que sua própria ambição prometia. Essa distância entre intenção e execução não é fracasso — é o sinal de uma obra que quis mais. Em um mercado de sequências projetadas para não decepcionar, um filme que tenta decepcionar para cima merece reconhecimento.
A cidade de Zootopia sempre soube que a utopia não existe sem o trabalho de sustentá-la. O filme entende isso. E é por isso que ainda importa.
