Paradise (2025): A Série da Disney+ Onde o Apocalipse Vira Privilégio de Elite

Sterling K. Brown em Paradise (2025), série distópica da Disney+ sobre bunker pós-apocalíptico
Paradise (2025): quando a sobrevivência vira privilégio

Paradise (2025): Muito Além de um Thriller Político

Um presidente é assassinado. Um agente do serviço secreto investiga. Até aí, parece mais um thriller político comum. Mas e se o verdadeiro crime não estiver no gatilho, e sim na decisão silenciosa de quem escolheu quem merece sobreviver?

Este texto defende que Paradise (2025) usa a ficção científica para expor uma verdade incômoda: o apocalipse já começou — e ele é administrado como um negócio de família.

Nos primeiros minutos da série do Disney+, criada por Dan Fogelman (This Is Us), o espectador é seduzido por uma trama de conspiração em Washington. Só no final do episódio inicial descobrimos: o mundo acabou. O que resta da humanidade vive em um bunker luxuoso, gerido como uma corporação. A pergunta que fica não é “o que aconteceu?”, mas “quem decidiu que alguns mereciam ser salvos?”.

Ao longo deste ensaio, vou mostrar como Paradise transforma o colapso global em drama íntimo, revelando que o verdadeiro perigo não está nos desastres ambientais, mas na lógica que permite a poucos controlar o destino de muitos. Prepare-se para enxergar a série — e o nosso presente — com outros olhos.

O Bunker em Paradise: A Metáfora Central da Série

O Bunker Como Símbolo de Desigualdade

Lançada em 2025, Paradise chega em um momento de ansiedade climática, ascensão de bilionários com projetos de “fuga planetária” e debates acalorados sobre desigualdade. A série não inventa um futuro distante; ela amplifica tendências já visíveis.

O bunker da trama, comandado pela bilionária Sinatra (Julianne Nicholson), funciona como uma metáfora precisa do que o sociólogo Zygmunt Bauman chamava de “modernidade líquida”: instituições frágeis, laços descartáveis e uma ética substituída pela conveniência.

Enquanto o mundo exterior colapsa, lá dentro o conselho gestor toma decisões com planilhas, não com empatia. A catástrofe deixa de ser um evento coletivo para virar um problema de logística: quem entra, quem fica, quem cala.

A série acerta ao não transformar Sinatra em uma vilã caricata. Sua motivação é compreensível — proteger a filha após uma perda traumática —, mas é exatamente essa humanidade que torna sua postura mais perigosa: ela acredita, sinceramente, que está fazendo o certo.

Paradise e o Apocalipse Seletivo: Quem Merece Sobreviver?

O grande trunfo de Paradise está em ancorar o épico no íntimo. Enquanto o agente Xavier Collins (Sterling K. Brown) desvenda camadas de segredos, o espectador acompanha seu luto, sua raiva e sua busca por justiça. O presidente Cal Bradford (James Marsden), por sua vez, é um retrato da culpa paralisante: sabe que foi conivente com o plano de evacuação seletiva, mas só age quando já é tarde.

Aqui, a série opera uma virada interpretativa crucial: o apocalipse não é um reset moral. Os personagens não se tornam melhores diante do fim; eles repetem, em escala reduzida, as mesmas hierarquias e egoísmos do mundo antigo. Como observa a crítica cultural Susan Sontag, “a imaginação do desastre é sempre, no fundo, uma imaginação do poder”. Paradise ilustra isso ao mostrar que, mesmo sob ameaça de extinção, a lógica do privilégio se reproduz.

Um contraponto necessário: há momentos em que a urgência narrativa atropela a verossimilhança. No desfecho da primeira temporada, decisões de personagens-chave parecem mais guiadas pela necessidade de manter mistério para a segunda temporada do que por coerência interna. Ainda assim, esse “defeito” não anula o acerto maior: a série nos obriga a encarar que bunker nenhum protege da própria consciência.

O paraíso é uma escolha — e uma exclusão

A fotografia de Paradise merece destaque: a luz estourada que invade os ambientes internos do bunker não é apenas estética. Ela sinaliza artificialidade. O “sol” dali é feito de refletores; o “paraíso”, de muros. Até a trilha sonora reforça a crítica: a versão melancólica de Another Day in Paradise, de Phil Collins, ecoa nos corredores como um lembrete irônico. A letra original já falava sobre ignorar o sofrimento alheio; na série, essa omissão vira política de Estado.

Essa escolha simbólica tem uma implicação social direta: Paradise nos pergunta o que fazemos, hoje, com os “de fora” do nosso bunker pessoal. Seja no acesso à saúde, na justiça climática ou na distribuição de tecnologia, a lógica da exclusão seletiva já opera entre nós. A série não oferece respostas fáceis, mas recusa o conforto da neutralidade.

“O verdadeiro apocalipse não é o fim do mundo, mas a normalização da ideia de que alguns merecem ser salvos e outros não.”

Este parágrafo pode ser lido isoladamente: Paradise é mais do que entretenimento; é um dispositivo de reflexão. Ao transformar o bunker em microcosmo do poder, a série expõe como a linguagem da gestão e da eficiência mascara escolhas éticas. Quando Sinatra prioriza o conselho em detrimento da população do bunker, ela não age como exceção — age como regra. E é essa regra que precisamos questionar, dentro e fora da ficção.

O que fica quando a tela apaga

Retomando a tese inicial: Paradise (2025) não é sobre o fim dos tempos, mas sobre como os poderosos já vivem como se o fim tivesse chegado — e usarem isso para consolidar privilégios. A série amarra thriller, drama familiar e crítica social sem perder o ritmo, entregando performances densas e uma construção de mundo que convida à releitura.

A implicação humana é inevitável: se o bunker é uma metáfora, então todos nós estamos, de alguma forma, tomando decisões sobre quem incluímos e quem excluímos em nossos “paraísos” particulares. A renovação para uma segunda temporada abre espaço para explorar se é possível romper essa lógica — ou se o sistema sempre se regenera.

Paradise não oferece redenção fácil, mas cumpre seu papel mais urgente: nos lembrar que, diante do colapso, a pergunta decisiva não é “como sobreviver?”, mas “com quem escolhemos sobreviver?”. E essa, talvez, seja a única questão que ainda pode nos salvar.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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