Manual Prático da Vingança Lucrativa: Quando o Crime Vira Entretenimento de Luxo

Poster de Manual Prático da Vingança Lucrativa mostrando Glen Powell diante de uma árvore genealógica marcada por assassinatos
Glen Powell em Manual Prático da Vingança Lucrativa (2026): charme, ambição e mortes calculadas

Manual Prático da Vingança Lucrativa (2026), dirigido por John Patton Ford, não é apenas mais um thriller sobre herança e assassinato, mas um sintoma cultural: a transformação da violência em commodity estética, onde o espectador torce pelo criminoso porque ele veste bem, fala bonito e tem o rosto certo.

Em tempos de algoritmos que recompensam a polêmica e influencers que monetizam o escândalo, faz sentido que o cinema também abrace a lógica do “crime compensa”. Glen Powell, um dos atores mais carismáticos de Hollywood na atualidade, vive Becket Redfellow, um bastardo que elimina sistematicamente os parentes que o separam de uma fortuna bilionária.

A pergunta que o filme evita, mas que nós precisamos fazer, é: por que achamos isso divertido?

Ao longo deste ensaio, vou mostrar como a obra de John Patton Ford espelha uma sociedade que estetiza a ambição, neutraliza a ética pelo charme do protagonista e transforma a vingança em um manual de autoajuda para o capitalismo selvagem.

O legado que pesa: entre a homenagem e a diluição

Manual Prático da Vingança Lucrativa é uma adaptação livre de As Oito Vítimas (1949), clássico britânico que, por sua vez, bebia no romance Kind Hearts and Coronets (1907), estruturado como as memórias confessionais do ambicioso e homicida Israel Rank. O original era uma sátira farsesca, com Alec Guinness interpretando todos os membros da família assassinada — um recurso que multiplicava o absurdo e a crítica de classe.

Ford, diretor de Emily, A Criminosa (Emily the Criminal, 2022), opta por outra rota: realismo psicológico, montagem ágil e um Glen Powell em modo “psicopata encantador”. A escolha não é neutra. Ao abandonar a multiplicidade de papéis, o filme perde a ironia teatral que sustentava o original e ganha uma gravidade dramática que, paradoxalmente, suaviza o impacto da violência.

O contexto importa: vivemos uma era de “true crime” como entretenimento, podcasts que narram assassinatos com trilha sonora envolvente e séries que humanizam serial killers. O filme chega nesse caldeirão, oferecendo uma vingança higienizada, onde cada morte é um passo calculado rumo ao sucesso — e não uma ruptura moral.

O charme como arma: semiótica do privilégio

Becket Redfellow não é um monstro. É um jovem inteligente, ferido pela rejeição familiar, que usa o carisma como ferramenta de infiltração. Glen Powell, com seu sorriso fácil e timing cômico, encarna perfeitamente essa ambiguidade: é difícil odiar quem nos faz rir, mesmo quando está envenenando tios.

Aqui reside uma leitura simbólica potente: o privilégio do homem branco e rico opera como um escudo narrativo. Becket pode mentir, manipular e matar porque sua aparência e discurso o protegem da suspeita imediata. O filme, sem querer, expõe como a sociedade tende a absolver quem se encaixa num ideal estético e social — uma crítica que poderia ser mais afiada, mas que se perde na admiração pelo protagonista.

Um momento de virada interpretativa acontece quando Becket confessa seus crimes a um padre. A cena não busca redenção, mas cumplicidade: o espectador é convidado a decidir se acredita na versão do narrador. É um recurso inteligente, que transforma a audiência em cúmplice moral — e nos obriga a questionar por que continuamos torcendo por ele.

Entre a farsa e o drama: o que se perde na tradução

A decisão de não escalar Powell para interpretar todos os descendentes, como fazia Guinness no original, retira do filme parte de sua identidade satírica. Patton Ford parece interessado em conferir peso dramático ao que deveria abraçar a galhofa. O resultado é um híbrido que não assume totalmente nenhum dos caminhos: nem comédia ácida, nem thriller psicológico profundo.

Isso reflete uma tendência do cinema contemporâneo: o medo de arriscar na tonalidade. Em um mercado que prioriza o engajamento rápido, obras que flertam com o humor negro muitas vezes recuam diante do desconforto real que poderiam provocar. Como observa a crítica, “o filme se leva a sério demais” para ser uma sátira, mas é leve demais para ser um drama.

Ainda assim, há méritos. A direção de arte transplanta com elegância o universo britânico para os EUA. A montagem ágil mantém o ritmo mesmo quando a trama tropeça em conveniências narrativas. Margaret Qualley, como a femme fatale Julia, adiciona camadas de ambiguidade. Ed Harris, como o avô distante, traz o peso geracional que falta em outros momentos.

Conclusão: o manual que não queremos seguir

Manual Prático da Vingança Lucrativa é um espelho incômodo. Ao transformar a eliminação de parentes em uma jornada de ascensão social, o filme revela o quanto naturalizamos a lógica do “fim justifica os meios” quando o protagonista é carismático e bem-vestido.

A implicação humana é clara: quando estetizamos a violência e neutralizamos a ética pelo charme, corremos o risco de normalizar comportamentos predatórios na vida real. Não é sobre proibir representações, mas sobre perguntar qual o efeito cumulativo de consumir, sem crítica, histórias onde o crime é recompensado com aplausos.

No fim, a frase que fica é esta: uma sociedade que aplaude a vingança lucrativa no cinema está apenas ensaiando para aplaudi-la na vida real.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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