Água Sobre Ruínas: Quem Realmente é Responsável pelas Enchentes em Minas Gerais?
Defendo aqui que as enchentes em Minas Gerais não são desastres naturais — são desastres políticos com roupagem climática.
A natureza fornece a chuva. O Estado fornece o caos.
Em fevereiro de 2026, chuvas intensas voltaram a castigar o Vale do Jequitinhonha, o Norte de Minas e a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Casas desabaram. Famílias foram desalojadas. E, como todo ano, as imagens de lama e destroços percorreram os noticiários por 72 horas antes de desaparecerem — levando junto qualquer senso de urgência coletiva. O ciclo se repete.
A pergunta permanece sem resposta honesta: de quem é a culpa?
Este texto não vai apontar um único réu. Vai mostrar que a responsabilidade pelas enchentes mineiras é uma construção de décadas — feita de omissão municipal, incompetência estadual, indiferença federal e uma cultura política que trata tragédia como força maior quando, na verdade, ela é produto de escolhas.
O Chão Que Cedeu Muito Antes da Chuva
Minas Gerais tem o maior número de municípios em situação de risco hidrológico do Brasil. Segundo levantamentos da Defesa Civil estadual, mais de 350 municípios possuem áreas classificadas como de alta vulnerabilidade a deslizamentos e inundações. Esse número não surgiu com as mudanças climáticas — ele foi construído ao longo de cinquenta anos de urbanização sem planejamento.
A ocupação irregular de encostas e fundos de vale não aconteceu por acidente.
Aconteceu porque o Estado permitiu, porque a especulação imobiliária empurrou os mais pobres para as margens geográficas e sociais, e porque nenhuma administração municipal teve coragem política de fazer o que precisa ser feito: remover, compensar e reconstruir com critério. É mais barato deixar a favela crescer no morro do que instalar infraestrutura em área segura.
O resultado é que, quando chove acima da média — o que, com as mudanças climáticas, acontece cada vez com mais frequência —, não é só a água que desce. Desce tudo que foi construído sobre uma base de negligência.
O Estado Apaga Incêndio com Balde Furado
A Defesa Civil de Minas Gerais é uma das estruturas mais complexas do país. Tem sistema de monitoramento, alertas, protocolos. No papel, funciona. Na prática, enfrenta um problema estrutural que nenhum decreto resolve: falta de continuidade.
Cada novo governo estadual trata a política de prevenção como herança descartável. Programas de contenção de encostas iniciados numa gestão são abandonados na seguinte. Contratos com municípios para drenagem urbana ficam sem repasse. O Instituto Mineiro de Gestão das Águas — o Igam — opera com equipes reduzidas e orçamento enxugado ano após ano.
Não é incompetência técnica. É escolha orçamentária.
O sociólogo Charles Perrow, em seu conceito de acidentes normais, argumentou que certos sistemas são tão mal projetados que o desastre não é possibilidade — é destino. O sistema de gestão de riscos em Minas se encaixa nessa categoria. Não porque as pessoas que trabalham nele sejam incompetentes, mas porque o sistema foi desenhado para reagir, nunca para prevenir.
O contraponto existe: municípios como Contagem e Uberlândia avançaram em planos diretores com zoneamento de risco real. A diferença de impacto entre essas cidades e outras da mesma região, nas mesmas chuvas, é visível.
Prevenção funciona. Ela só precisa ser prioridade antes do desastre, não depois.
Brasília Também Tem Lama nas Mãos
A União não é espectadora inocente. O Fundo Nacional para Calamidades Públicas existe, mas sua liberação depende de declaração formal de emergência pelos municípios — um processo burocrático que, em muitos casos, leva mais tempo do que a própria crise. Cidades pequenas do interior mineiro, sem estrutura administrativa, perdem prazos. Recursos não chegam. A reconstrução fica para quando der.
O Programa Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres, lançado com força simbólica após as tragédias de Mariana e Brumadinho, nunca recebeu o financiamento necessário para operar em escala. Brumadinho matou 270 pessoas em 2019. Seis anos depois, comunidades do mesmo estado continuam morrendo por ausência das mesmas políticas que a tragédia deveria ter acelerado.
Existe aqui uma responsabilidade que transcende partido e mandato. É sistêmica. E sistemas só mudam quando há pressão suficiente para tornar a mudança mais barata que a omissão.
Quando a Tragédia Vira Rotina, o Crime É Coletivo
Há uma frase que precisa ser dita sem eufemismo: no Brasil, enchente de pobre não é notícia — é paisagem.
Enquanto uma ruptura de barragem mobiliza CPI e comoção nacional, a morte de uma família em Teófilo Otoni ou Governador Valadares por deslizamento em área de risco conhecida há anos gera, no máximo, uma nota de pesar do prefeito no Instagram. A hierarquia do luto é política. E ela diz muito sobre quem este país decide proteger.
A responsabilidade pelas enchentes em Minas Gerais é distribuída — mas não igualmente. Os municípios que ignoraram planos diretores têm sua parte. Os governos estaduais que trataram prevenção como gasto supérfluo têm a sua. O governo federal que nunca priorizou o financiamento de resiliência urbana tem a sua. E uma sociedade que aceita o ciclo de tragédia e esquecimento sem exigir ruptura também carrega um peso.
O que nos falta não é tecnologia, não é conhecimento técnico, não é sequer dinheiro — em termos absolutos. O que nos falta é a decisão política de tratar a vida nas periferias mineiras como algo que vale ser protegido antes de ser perdido.
Enquanto isso não mudar, a próxima enchente já está sendo construída. Tijolo por tijolo. Omissão por omissão.
Eventos extremos pertencem à natureza. Catástrofes recorrentes pertencem à política.
