Calígula (1979): O Filme Que o Cinema Não Consegue Esquecer — Nem Perdoar
Quarenta e cinco anos depois de sua estreia, Calígula ainda provoca o mesmo desconforto que provocou em 1979. Não é nostalgia. É que o filme de Tinto Brass — sequestrado por Bob Guccione, fundador da Penthouse, e reinserido com cenas pornográficas explícitas sem o consentimento do diretor — continua sendo um caso único na história do cinema: uma obra que ninguém sabe exatamente como classificar.
Arte? Exploração? Fracasso genial? As três coisas ao mesmo tempo?
O problema central não é o sexo nem a violência. É que Calígula é, simultaneamente, um filme sério demais para ser pornô e escandaloso demais para ser tomado a sério. Essa posição impossível é o que o torna fascinante.
Este texto defende que Calígula não é um filme que falhou — é um filme que foi destruído por dentro, e que essa destruição diz mais sobre poder, arte e controle do que qualquer coisa que aparece na tela.
O Projeto Que Nunca Deveria Ter Existido Desse Jeito – Os Bastidores de Calígula (1979)
O roteiro era de Gore Vidal, um dos mais brilhantes escritores americanos do século XX. A direção era de Tinto Brass, cineasta italiano com visão estética reconhecida. O elenco incluía Malcolm McDowell, Helen Mirren, Peter O’Toole e John Gielgud — quatro atores de peso real. O orçamento era gigantesco para a época.
Tudo indicava um épico histórico provocador, no espírito do que Pasolini fazia com a Antiguidade: usar Roma como espelho para falar do presente.
Gore Vidal abandonou o projeto antes do fim das filmagens, desgostoso com os rumos da produção. Tinto Brass entregou sua versão e foi impedido de montar o filme. Guccione então inseriu, sem avisar ninguém, cenas de sexo explícito filmadas separadamente com atores diferentes — sequências que os protagonistas principais nunca chegaram a gravar.
O resultado foi um objeto estranho: partes de um filme sério costuradas com pornografia que não pertencia àquele universo. É como se alguém tivesse arrancado páginas de um ensaio de Susan Sontag e colocado fotos de revista no meio.
O Que Sobreviveu à Destruição
Apesar de tudo, algo resiste.
Malcolm McDowell entrega uma performance perturbadora como Calígula — não o tirano caricato do senso comum, mas um homem jovem que recebe poder absoluto antes de ter construído qualquer estrutura interna para suportá-lo. Há cenas em que ele parece genuinamente assustado com o que pode fazer. Esse Calígula não é um monstro nato: é alguém que o poder transformou em monstro diante dos nossos olhos.
Peter O’Toole aparece por poucos minutos como Tibério e rouba cada cena que ocupa — senil, cruel, lúcido o suficiente para perceber que formou um sucessor pior do que ele.
A fotografia de Silvano Ippoliti e a direção de arte criam uma Roma que parece simultaneamente grandiosa e podre. O palácio imperial é belo e sufocante. Nada ali é limpo.
É nesses fragmentos que se vê o filme que Calígula quase foi. E essa tensão — entre o que é e o que poderia ter sido — é onde o filme se torna filosoficamente interessante.
Poder, Arte e a Violência de Controlar uma Obra: O Caso Calígula
Há uma ironia densa no centro de Calígula: um filme sobre o abuso de poder absoluto foi ele mesmo vítima de abuso de poder absoluto.
Guccione tinha os direitos financeiros e os usou para transformar a obra de outros numa extensão da sua marca editorial. Tinto Brass processou. Gore Vidal pediu para retirar seu nome dos créditos. McDowell declarou publicamente que se sentia traído.
Walter Benjamin escreveu sobre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica — sobre como a cópia destrói a aura do original. Calígula vai além: aqui, não foi a cópia que destruiu o original. Foi a adulteração do próprio original por quem detinha o poder econômico sobre ele.
É um caso que toda discussão sobre direitos autorais, controle criativo e mercantilização da arte deveria citar. O que aconteceu com Calígula não foi acidente. Foi uma decisão empresarial. E o resultado é que ninguém, até hoje, conseguiu ver o filme que Tinto Brass fez.
Uma obra pode ser destruída sem ser apagada. Às vezes, deixar existir uma versão corrompida é pior do que proibir.
Conclusão: O Escândalo Como Legado
Nas últimas décadas, houve tentativas de restaurar Calígula. Em 2023 e 2024, uma versão remontada com o corte de Tinto Brass — chamada Caligula: The Ultimate Cut — começou a circular em festivais e plataformas, permitindo que o público finalmente visse algo mais próximo da intenção original.
A recepção foi curiosa: sem o pornô de Guccione, o filme ficou mais sombrio, mais lento, mais perturbador de um jeito diferente. Não mais chocante pelos corpos — mas pelos silêncios, pela lógica do poder se instalando num homem jovem e destruindo tudo ao redor.
O que esse episódio revela sobre nós é o seguinte: durante quarenta anos, discutimos o escândalo e ignoramos a obra. Ficamos tão ocupados com o que foi inserido que não perguntamos o que foi retirado.
Calígula é um monumento ao que o dinheiro pode fazer com a arte quando não há proteção suficiente ao criador. É também um lembrete de que o poder — seja o de um imperador romano ou o de um publisher americano — tem sempre o mesmo impulso: transformar a visão de outro em propriedade sua.
Roma caiu. A Penthouse faliu. O filme ainda existe. Isso, por si só, é uma forma torta de justiça.
