O Que São os Backrooms? Origem, Estética Liminal e o Terror que Redefiniu a Internet
Os Backrooms são um fenômeno de horror digital que surgiu em 2019 a partir de uma imagem anônima publicada no 4chan. O conceito descreve um espaço infinito de corredores amarelados onde alguém pode “noclip” da realidade e ficar preso sem saída.
A Origem dos Backrooms na Internet
Há uma fotografia que circula desde os anos 2000 sem autor conhecido, sem data precisa, sem contexto verificável. Um corredor amarelado, carpete manchado, luz fluorescente piscando sobre o nada. Ninguém sabe de onde veio. Isso, por si só, já é o terror.
Os Backrooms não nasceram de um roteiro, de um estúdio ou de uma franquia. Nasceram de uma imagem sem dono publicada num fórum anônimo em 2019, acompanhada de uma descrição simples: se você noclip da realidade, você cai aqui. E aqui não tem saída.
A força dessa abertura está justamente no que ela omite. Sem monstro, sem protagonista e sem história. Apenas espaço.
Mas afinal, o que são os Backrooms?
Como Kane Pixels Transformou os Backrooms em Linguagem Cinematográfica
Os Backrooms emergem do 4chan em maio de 2019, num thread sobre “imagens perturbadoras”. A fotografia original, provavelmente tirada num escritório vazio ou loja em reforma, ganhou uma legenda que a transformou em mitologia instantânea.
O contexto histórico importa. Em 2019, a internet já vivia saturada de horror convencional, de jumpscare e de narrativa. O público jovem, criado em YouTube e Reddit, buscava algo diferente: um terror que não precisasse se explicar.
Os Backrooms responderam a esse vácuo com uma estética que dispensava narrativa. Eram puro ambiente. Puro lugar. E isso era suficiente para perturbar.
A partir de 2022, Kane Pixels, então com 16 anos, produziu uma série de vídeos no YouTube que recontextualizaram o fenômeno. Adicionou found footage, cronologia, ficção científica analógica. Transformou uma imagem estática numa linguagem cinematográfica. O resultado ultrapassou 50 milhões de visualizações e redefiniu o que o terror amador poderia fazer.
A Estética Liminal e a Gramática do Vazio
O que os Backrooms comunicam esteticamente não é perigo, mas desorientação ontológica.
O carpete amarelado é um signo preciso: remete a escritórios corporativos dos anos 80 e 90, a espaços de transição que nunca foram pensados para ser habitados, apenas atravessados. Quando esse espaço se repete ao infinito, ele deixa de ser cenário e vira argumento.
A luz fluorescente, sempre ligeiramente instável, cria um zumbido visual que Kane Pixels explorou com maestria sonora. O som nos vídeos não é trilha, é textura. Ronco elétrico constante, passos em carpete úmido, distância sem eco. A ausência de reverberação numa sala grande é tecnicamente impossível e perceptualmente aterrorizante.
A arquitetura dos Backrooms viola uma regra básica da experiência espacial: não há orientação. Sem janelas, sem saídas identificáveis, sem diferenciação entre corredor e sala. O espaço produz desorientação não por ser labiríntico, mas por ser monótono. O horror aqui não vem do que aparece. Vem do que nunca muda.
Semioticamente, o espaço funciona como significante de liminaridade. Antropólogos como Victor Turner descrevem espaços liminares como zonas entre estados, onde as regras normais não se aplicam. Os Backrooms são liminaridade pura e permanente. Você está entre mundos, mas o outro mundo nunca chega.
Estética Liminal
Conceito visual que retrata espaços de transição vazios ou deslocados — como corredores, shoppings ou salas abandonadas — gerando sensação de estranhamento e suspensão. Explora o desconforto psicológico de estar “entre” estados, sem pertencimento ou resolução.
O Que os Backrooms Revelam Sobre a Cultura Contemporânea
O sucesso dos Backrooms como fenômeno estético levantou uma questão que a comunidade raramente formula com clareza: por que esse espaço específico é assustador para essa geração específica?
A resposta aponta para algo ideologicamente revelador. Os Backrooms são a estetização do ambiente de trabalho desumanizado. Carpete, luz artificial, corredores sem fim, ausência de natureza ou de humanidade visível. É um escritório sem função, uma empresa sem produto, uma estrutura sem propósito.
Para uma geração que cresceu ouvindo que trabalho remoto, cubículos e open offices seriam o horizonte natural da vida adulta, esse espaço não é apenas perturbador. É familiar. E a familiaridade é o que o torna insuportável.
Há também uma contradição interna no fenômeno. Os Backrooms nasceram da experiência coletiva e anônima da internet, mas rapidamente foram capturados por lógicas de produção de conteúdo individual. Kane Pixels tem canal monetizado, merch, reconhecimento público. O que era experiência compartilhada virou produto. Isso não invalida o trabalho, mas expõe a tensão entre a mitologia do anonimato e as estruturas da atenção digital.
Backrooms, Folclore Digital e Ficção Coletiva
Os Backrooms continuam se expandindo porque tocam em algo que o horror mainstream ainda não soube articular: o medo de não encontrar saída dentro de sistemas que parecem normais.
A estética liminal, da qual os Backrooms são o exemplo mais preciso, proliferou em toda a internet. Piscinas vazias fotografadas de madrugada. Shoppings abandonados. Parques temáticos fora de temporada. Todos operam com a mesma gramática: espaços criados para presença humana esvaziados de humanidade.
Esse olhar diz algo sobre o presente. Numa era de ansiedade crônica, de rotinas automatizadas, de cidades projetadas para fluxo e não para habitação, o medo de ficar preso num corredor sem saída é menos fantasia e mais metáfora funcional.
Os Backrooms também inauguraram uma relação nova entre criador e mitologia. A wiki colaborativa que documenta os “níveis” dos Backrooms é escrita por milhares de pessoas que nunca se encontraram. É ficção coletiva funcionando como folclore digital, com regras, hierarquias e disputas internas. Isso tem precedentes na cultura de fãs, mas raramente com essa coerência estética.
Por Que os Backrooms Funcionam Para Diferentes Públicos?
Para quem cresceu na internet entre 2010 e 2020, os Backrooms funcionam como experiência quase involuntária de reconhecimento. A imagem original provavelmente já foi vista antes, em algum contexto que não se lembra. Isso potencializa o efeito.
Para quem chega pelo trabalho de Kane Pixels, a experiência é mais cinematográfica: found footage com influência de SCP Foundation e da tradição de horror analógico dos anos 90. Funciona como curta de terror bem executado.
Para quem tem interesse em semiótica ou estudos culturais, é um caso raro de fenômeno que surgiu já com sua própria linguagem formada, sem autor central e sem produto original que o legitimasse.
Não funciona para quem precisa de narrativa estruturada ou de resolução. Os Backrooms são, por definição, inconclusos.
Por Que os Backrooms Continuam Assustando?
Os Backrooms provam que o terror mais eficaz do século 21 não depende de monstro nem de roteiro. Depende de reconhecimento.
A imagem de um corredor que nunca termina só assusta porque já sabemos, em algum nível corporal, o que é estar num espaço que não foi feito para nós. O horror funciona porque não é fantástico o suficiente para ser descartado.
O que Kane Pixels fez foi dar a esse reconhecimento uma forma cinematográfica. O que a internet fez foi transformá-lo em linguagem compartilhada. E o que essa linguagem revela, talvez sem intenção, é uma geração que aprendeu a sentir o espaço institucional como ameaça.
Um corredor amarelo nunca mais será apenas um corredor amarelo.
