(Des)controle: Carolina Dieckmann e o retrato do alcoolismo feminino no cinema brasileiro de 2026
O colapso raramente começa com uma explosão. No cinema — como na vida — ele costuma vir em silêncio, acumulado em gestos pequenos, justificáveis, quase invisíveis. Em (Des)controle, Rosane Svartman transforma uma taça de vinho em sintoma de algo maior: o esgotamento da mulher que aprendeu a funcionar mesmo quando já não aguenta.
Kátia Klein (Carolina Dieckmann) parece ter tudo sob controle. Carreira, filhos, reconhecimento. O filme de Rosane Svartman e Carol Minêm começa exatamente aí — nessa superfície organizada — porque sabe que o mais perturbador não é a queda em si, mas o quanto ela já estava acontecendo sem que ninguém olhasse.
Quinze anos de sobriedade. Um bloqueio criativo. Um casamento se desfazendo aos poucos. Uma taça de vinho que parece razoável. O (Des)controle da vida de Kátia não chega como explosão — chega como acúmulo. E essa é a tese do filme.
O Alcoolismo Feminino da Televisão ao Cinema
Lançado em 5 de fevereiro de 2026 — coincidindo com a Semana do Cinema e às vésperas do Carnaval —, o longa chega num contexto cultural preciso. O Brasil acabou de assistir ao retorno de Heleninha Roitman na refilmagem de Vale Tudo, personagem-ícone que popularizou o alcoolismo feminino na televisão nacional.
(Des)controle não é Vale Tudo. É algo mais sutil e, por isso, mais ambicioso. Produzido pela Midgal Filmes com Sony Pictures e Elo Studios, o projeto estreou na mostra Hors Concours do 27º Festival do Rio em outubro de 2025 antes de chegar ao circuito comercial, carregando desde lá a reputação de obra que incomoda com intenção.
Svartman — autora televisiva conhecida por Vai na Fé e Dona de Mim — assina seu primeiro longa ao lado de Carol Minêm, com roteiro construído a partir de histórias reais. A origem documental importa: ela ancora o filme numa experiência vivida, não num arquétipo.
A Encenação da Contenção
O filme recusa o melodrama fácil. A câmera não invade — testemunha. Essa escolha encenativa de Svartman define o tom inteiro: há uma contenção formal que amplifica a tensão em vez de dissipá-la.
Os espaços domésticos funcionam como extensões do estado psíquico de Kátia. A casa deixa de ser refúgio e passa a operar como território de vigilância — silêncios constrangidos, afetos que perderam a linguagem. O quarto-escritório concentra a fratura mais profunda: é lá que se materializa a dualidade da protagonista, o alter ego que ela criou para seus livros infantis e que agora retorna como voz da compulsão.
A câmera fechada, os closes prolongados, o isolamento dentro do coletivo — alguém cercada de pessoas, mas cada vez mais inacessível. A gramática visual do filme é a de quem está observando alguém se afogar em câmera lenta e não consegue intervir.
Uma das escolhas formais mais inventivas envolve essa segunda personalidade: a personagem fictícia que Kátia criou para seus leitores infantis passa a existir como figura da tentação. O recurso flerta com o surreal sem perder o ancoramento no psicológico. É a infantilização do vício — a regressão como mecanismo de fuga.
O Privilégio da Queda: Quando o Vício tem Rede
(Des)controle tem uma fissura estrutural que merece ser nomeada. Há um subplot rico — o filho mais novo se prepara para o Bar Mitzvah — que o filme toca mas não desenvolve com profundidade suficiente.
A preparação para o rito de passagem judaico, os ensaios dos cânticos, a disciplina espiritual que exige do menino responsabilidade simbólica precisamente quando a mãe regride ao descontrole: esse paralelismo é potente. O filho que avança em maturidade enquanto a mãe recua. Mas o filme apenas tangencia essa fricção, deixando escapar um dos seus veios mais densos.
Há também a questão de classe. Kátia é escritora de sucesso, mora bem, tem rede de apoio. O alcoolismo feminino que o filme retrata é o de uma mulher com recursos — o que é legítimo e necessário de ser mostrado, mas que limita o alcance ideológico da obra. A exaustão que o filme diagnostica tem endereço social específico, e o roteiro não problematiza isso de forma direta.
O que o longa oculta, no fundo, é o alcoolismo sem rede. O colapso sem família estruturada por perto. A dependência química nas margens que não têm Caco Ciocler à mesa esperando.
Exaustão como diagnóstico coletivo
(Des)controle chega num momento em que a exaustão feminina finalmente ganhou vocabulário cultural. O esgotamento da mulher que “dá conta de tudo” — profissional, mãe, filha, esposa — não é mais tema de autoajuda: é diagnóstico coletivo.
O filme dialoga com esse zeitgeist sem explorar a retórica do feminismo de superfície. Não há discurso. Há uma mulher desmoronando em tela, e essa imagem é suficientemente honesta para gerar identificação sem precisar nomear sua própria política.
Num país onde o consumo de álcool cresceu de forma consistente após a pandemia — e onde mulheres lideram esse crescimento na faixa dos 35 aos 55 anos —, Kátia Klein não é personagem. É espelho.
Não é sobre Redenção
Para quem busca drama psicológico com ancoragem no real e interesse em atuação como disciplina, o filme é obrigatório. Carolina Dieckmann entrega uma performance sem artifícios — contida onde é necessário, fraturada onde precisa ser, e nunca em busca de aprovação fácil do espectador.
Para quem espera uma narrativa linear sobre reabilitação, com arco de superação bem-resolvido, o filme pode decepcionar. (Des)controle não oferece catarse confortável. Ele termina com a sensação de algo ainda aberto — e é exatamente aí que reside sua honestidade.
Funciona melhor para quem está disposto a ser desconfortado. Não é entretenimento que alivia. É cinema que confronta.
O Colapso Silencioso
(Des)controle não oferece redenção nem punição exemplar. Oferece continuidade. E talvez essa seja sua escolha mais honesta.
O filme entende que vício e exaustão não são interrupções da vida — são formas de suportá-la quando ela já excedeu a capacidade de quem a vive. Ao terminar sem espetáculo, Svartman recusa transformar sofrimento em catarse consumível.
O que permanece é a sensação incômoda de que o colapso raramente começa quando percebemos — ele já estava em curso.
