Entre Vaias e Stories: o Sintoma do Desgaste Político

Cidade alagada em Minas Gerais com helicóptero ao fundo, simbolizando desgaste da representação política durante enchentes
A tragédia é maior que qualquer personagem político.

Uma leitura sobre linguagem, polarização e representação no Brasil.

O episódio como símbolo

No último sábado, 28 de fevereiro de 2026, o presidente Lula caminhava por ruas alagadas de Ubá, em Minas Gerais. Seu objetivo era visitar vítimas das enchentes que mataram dezenas no estado. Em vez de solidariedade, parte da recepção foram gritos de “ex-presidiário” e “Lula ladrão” .

No mesmo fim de semana, outro político mineiro também marcou presença nas áreas atingidas: o deputado Nikolas Ferreira. Em vídeos que circulam nas redes, o que se ouve não é exatamente um clamor por sua liderança, mas acusações de que ele estaria ali para “gravar conteúdo” e atrapalhar a assistência, sendo chamado por críticos de “político de TikTok” .

Dois políticos. Duas recepções hostis. Uma pergunta incômoda fica no ar: a população está finalmente “acordando” para a realidade, perdeu completamente a esperança, ou é apenas o velho e conhecido teatro da polarização se repetindo em novo ato?

Antes de discutir quem tem razão, vale observar o fenômeno como linguagem. O que aconteceu em Minas não foi apenas um embate político — foi uma disputa simbólica. Dois rótulos substituindo duas biografias. Dois gritos reduzindo duas trajetórias a caricaturas. Quando a política vira grito, ela deixa de ser debate e passa a ser performance.

Esses dois gritos, aparentemente opostos, podem ser sintoma de um mesmo processo: a erosão simbólica da representação política em um país onde parte significativa da população não se sente representada por nenhum dos lados, mas se vê presa à disputa entre eles.

A confiança não desaparece de uma vez; ela se desgasta em pequenas fraturas acumuladas.

A ilusão da polarização total

Vamos aos fatos. Dependendo da pesquisa que você lê, o Brasil está ou não está polarizado. O Datafolha nos diz que 76% dos brasileiros se identificam como petistas ou bolsonaristas . Parece o retrato de uma nação dividida ao meio.

Mas o DataSenado, no mesmo ano, revela que 40% da população não se considera nem de direita, nem de esquerda, nem de centro . Como explicar essa contradição?

A resposta está em um estudo recente do instituto More in Common em parceria com a Quaest, que fez uma descoberta fundamental: a polarização intensa, aquela que move paixões e domina os algoritmos, se restringe a apenas 11% do eleitorado . São os “Progressistas Militantes” (5%) e os “Patriotas Indignados” (6%).

Do outro lado, existe uma maioria silenciosa e invisível, que corresponde a 54% dos eleitores — cerca de 88 milhões de pessoas. São os “Desengajados” e os “Cautelosos” . Talvez não tenham sido apenas os militantes mais engajados. Talvez ali estivesse também uma parcela da maioria silenciosa — não organizada, não ideológica, mas cansada. O grito, nesse caso, não seria um ato de guerra política, mas um sintoma de desgaste coletivo.

A maioria silenciosa e o desgaste afetivo

Quando um morador de uma região alagada, que perdeu tudo, olha para Lula e vê apenas um “ex-presidiário”, ele não está fazendo uma análise profunda do sistema de Justiça ou da Lava Jato. Ele pode não estar fazendo uma análise jurídica ou parlamentar. Pode apenas estar reagindo a uma imagem já cristalizada no imaginário coletivo.

Em tempos de hiperexposição midiática, a imagem antecede o argumento. E quando esse mesmo morador olha para Nikolas Ferreira e vê um “influenciador de ocasião”, também não está avaliando seu desempenho parlamentar. Ele está expressando a sensação de ser usado como cenário.

O perfil desses 54% de “invisíveis” explica o fenômeno. Segundo a pesquisa, eles são os mais pobres, os menos escolarizados, os que mais passam por insegurança alimentar . Suas preocupações são concretas: emprego, comida, moradia. A política, para eles, é um campo minado dominado por dois times rivais que não resolvem seus problemas.

Quando Lula aparece, ele é automaticamente associado ao time adversário por uma parcela dessa população. Quando Nikolas aparece, é o seu time que entra em campo. Mas ambos são vistos como estranhos. O que une os dois gritos é o mesmo sentimento de que a política é um jogo que não lhes pertence.

Uma pesquisa da Ipsos revela o que essa gente sente: cansaço (17%) e tristeza (19%) . Não é ódio puro. É exaustão. É a percepção de que, enquanto a água sobe e a casa desaba, os políticos continuam fazendo o de sempre: uns discursando para a sua bolha, outros produzindo conteúdo para a sua.

Política, espetáculo e desconfiança

O grito contra Nikolas ser um “político de TikTok” é particularmente revelador. Durante anos, a nova direita aprendeu a dominar a linguagem das redes. Transformou a política em entretenimento de alta performance. O problema é que, para o cidadão comum, entretenimento não enche barriga e não reconstrói casas.

Quando o deputado chega a uma cidade devastada, parte da população já não consegue mais distinguir a visita institucional da gravação de conteúdo. A desconfiança é tanta que a própria presença física do político é interpretada como uma ação de marketing.

O mesmo vale para Lula. O presidente carrega as marcas de mais de uma década de guerra cultural. Para quem vive nos polos, ele é herói ou vilão. Para a maioria silenciosa, ele é apenas mais um político que passou os últimos anos em disputas narrativas enquanto a vida real acontecia — ou desacontecia.

Como aponta a análise da UFPR, a polarização no Brasil se tornou mais “afetiva” do que “ideológica” . Ou seja, não se trata mais de discutir projetos de país, mas de odiar o outro lado.

A população que gritou em Minas não está debatendo propostas econômicas; está reagindo a afetos sedimentados ao longo de anos de disputa simbólica — no caso de Lula, o afeto negativo; no caso de Nikolas, o desgaste de uma imagem associada ao espetáculo.

Quando o grito substitui o argumento

Talvez o mais revelador não seja quem foi vaiado, mas a naturalidade com que a vaia se tornou linguagem padrão. Em vez de perguntas, gritos. Em vez de cobrança objetiva, rótulos. A política contemporânea parece ter desaprendido a falar baixo.

Quando o debate público se reduz a etiquetas — “presidiário”, “político de TikTok” — o que se perde não é apenas o respeito individual, mas a complexidade. Biografias viram caricaturas. Trajetórias viram memes. A crítica deixa de ser argumento e passa a ser slogan.

Entre os gritos de ódio e os stories para as redes, talvez a maioria silenciosa esteja dizendo algo menos ideológico e mais simples: quer ser tratada como cidadã, não como plateia.

No fim, o recado que ecoa das ruas de Minas não é necessariamente partidário. É um sinal de desgaste. A esperança pode não ter morrido — mas já não confia facilmente em quem chega com microfone enquanto a água ainda está subindo.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

Inscrever-se
Notificar de
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários