Simone de Beauvoir e O Segundo Sexo: a invenção permanente do feminino

Retrato artístico de Simone de Beauvoir, autora de O Segundo Sexo.

Como o clássico de 1949 revelou que a feminilidade é uma construção histórica.

Há livros que chegam ao mundo como diagnósticos. O Segundo Sexo, publicado por Simone de Beauvoir em 1949, foi — e continua sendo — um desses casos raros em que uma obra inaugura, simultaneamente, um vocabulário e uma ferida. 

Beauvoir não apenas descreveu a condição da mulher na sociedade ocidental moderna: ela nomeou o mecanismo pelo qual essa condição era produzida, naturalizada e perpetuada. E ao nomeá-lo, tornou mais difícil ignorá-lo.

A frase que se tornaria o centro gravitacional do livro — “Não se nasce mulher, torna-se” — não é apenas uma provocação filosófica. É um programa analítico completo. Ela desloca a feminilidade do domínio da biologia para o da cultura, da natureza para a história, da essência para o processo. Se a mulher é sempre um devir, então o feminino não é um dado — é uma construção. 

E toda construção, por definição, pode ser desconstruída.

A Alteridade como Estrutura

A operação intelectual central de Beauvoir não começa pela mulher. Começa pelo outro. Tomando emprestado o aparato conceitual de Hegel e Sartre — o reconhecimento, a consciência-de-si, a relação sujeito-objeto — ela formula uma hipótese perturbadora: a mulher, na civilização ocidental, foi sistematicamente constituída como o Outro absoluto. Não um outro relativo, que pode tornar-se sujeito pela reciprocidade, mas um outro fixo, definido em função do homem, sem jamais ser definida a partir de si mesma.

Isso não é mera retórica. É uma estrutura. A linguagem que usamos confirma isso: o “homem” designa tanto o ser humano genérico quanto o macho da espécie. A mulher precisa ser especificada; o homem já está contido no universal. Na gramática do pensamento ocidental, o masculino é neutro — e esse pretenso neutro carrega, dissimulado, um ponto de vista particular. Beauvoir foi uma das primeiras pensadoras a identificar nessa gramática não uma inocência linguística, mas um dispositivo de poder.

A mulher foi constituída como o Outro absoluto — não um outro relativo que pode tornar-se sujeito, mas um outro fixo, definido sempre em função de outro.

O que torna a análise de Beauvoir ainda mais sofisticada é seu diagnóstico da cumplicidade. A mulher não é apenas vítima passiva dessa estrutura — ela frequentemente a reproduz, a interioriza, a deseja. A feminilidade enquanto performance, enquanto conjunto de gestos aprendidos e papéis incorporados, oferece também recompensas: proteção, pertencimento, identidade. Beauvoir descreve com precisão cirúrgica o que chamaria de “má-fé” existencial — a escolha de negar a própria liberdade em troca de segurança ontológica.

O Mito e Sua Maquinaria

Uma das seções mais brilhantes — e menos citadas — de O Segundo Sexo é a análise do mito da feminilidade. Beauvoir percorre a literatura, a religião, a psicanálise e a publicidade para demonstrar como a mulher foi codificada como símbolo antes de ser reconhecida como pessoa. Ela é a Virgem e a Femme Fatale, a Mãe Terra e a Sedutora, a Musa e a Bruxa — categorias que dizem tudo sobre os medos e desejos masculinos e quase nada sobre a experiência feminina real.

Essa análise antecipa, com décadas de antecedência, o que Roland Barthes chamaria de “mitologia” na cultura de massa — a naturalização do contingente, a transformação de construções históricas em evidências eternas. Quando a publicidade dos anos 1950 vendia eletrodomésticos à “dona de casa realizada” ou quando o cinema de Hollywood reduzia a mulher ao papel de coadjuvante luminosa do herói masculino, estava produzindo precisamente o tipo de mito que Beauvoir dissecava. O feminino, ali, não era representado — era fabricado.

O que torna esse argumento ainda mais incisivo em 2025 é sua resistência à obsolescência. Os mitos mudaram de roupagem — hoje a feminilidade ideal oscila entre o empoderamento performático das redes sociais e a nostalgia regressiva do “tradwife” — mas a maquinaria continua funcionando. Em ambos os casos, o feminino é ainda definido por sua relação com o olhar externo: seja o olhar que admira a guerreira independente, seja o que celebra a mulher que abdica da independência. O sujeito que define continua sendo outro.

A Liberdade como Tarefa

Seria um equívoco ler Beauvoir apenas como crítica. O Segundo Sexo é também um projeto. Sua aposta filosófica central — herdada do existencialismo sartreano, mas significativamente transformada — é que a liberdade não é um estado, mas uma prática. Não se trata de descobrir quem se é, mas de decidir o que se quer ser. A condição feminina não é um destino: é um ponto de partida sobre o qual é possível agir.

Essa perspectiva gerou críticas legítimas. Pensadoras como Luce Irigaray e Judith Butler apontariam, décadas depois, que o sujeito universal pressuposto por Beauvoir ainda era masculino — que sua ideia de emancipação tendia a equiparar liberdade com a aquisição de características historicamente masculinas: autonomia, produtividade, racionalidade. A mulher livre beauvoiriana corria o risco de ser simplesmente um homem sem pênis. A crítica é justa, mas não invalida o projeto: ela o complexifica.

Butler, em Problemas de Gênero (1990), levaria a intuição de Beauvoir a consequências que a própria autora talvez não antecipasse — transformando o “tornar-se” em “performar”, e o gênero em uma citação reiterável de normas culturais. Mas essa genealogia só é possível porque Beauvoir abriu o terreno. Sem a tese da construção histórica do feminino, não há teoria da performatividade de gênero. Sem a operação de 1949, muito do vocabulário contemporâneo sobre identidade simplesmente não existe.

Há algo estruturalmente poderoso no fato de que O Segundo Sexo permanece controverso — e não apenas entre conservadores. Ele incomoda porque recusa confortos fáceis: não romantiza o feminino, não inverte a hierarquia, não propõe uma essência alternativa. Propõe, em vez disso, o mais difícil de todos os projetos: a liberdade concreta, encarnada, obtida não por decreto filosófico, mas pela transformação das condições materiais e simbólicas que tornam essa liberdade possível ou impossível.

Setenta e seis anos depois de sua publicação, O Segundo Sexo continua sendo lido porque seu problema central continua irresoluto. A pergunta que Beauvoir formulou — o que significa existir como mulher em uma sociedade que define o feminino antes que a mulher possa defini-lo a si mesma? — não é uma pergunta do passado. É uma pergunta que cada geração precisa responder de novo, em novos contextos, com novas linguagens. E livros que continuam fazendo perguntas são, talvez, os únicos que jamais envelhecem de verdade.

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