De Volta à Bahia – Quando o Cinema Brasileiro troca a Alma pelo Cartão-Postal

Cena do filme De Volta à Bahia ambientado em Salvador
Cena do filme De Volta à Bahia (2026), comédia romântica ambientada em Salvador.

Há duas maneiras de usar uma cidade no cinema.
A primeira é filmá-la como cartão-postal: o mar azul, o farol contra o pôr do sol, o Pelourinho colorido.
A segunda é deixá-la agir sobre os personagens — tornar o lugar parte da narrativa.

De Volta à Bahia escolhe a primeira.

O filme, dirigido por Eliezer Lipnik e Joana di Carso e lançado nos cinemas brasileiros em março de 2026, chega prometendo uma comédia romântica enraizada em Salvador, mas entrega algo que oscila entre a propaganda turística sofisticada e a novela das seis bem fotografada — sem a profundidade de nenhuma das duas.

O que o Drone não Captura em De Volta à Bahia

Salvador é uma das cidades mais cinematograficamente ricas do Brasil. Sua topografia acidentada, a tensão entre herança colonial e cultura viva, o sincretismo que extravasa para as ruas — tudo isso constitui um material dramático imenso. O cinema brasileiro já soube usar essa matéria-prima. Em Ó Paí, Ó (2007), de Monique Gardenberg, a cidade não é pano de fundo: ela é condição de existência dos personagens, com sua bagunça, seu calor, seu ruído.

De Volta à Bahia parece não confiar nesse potencial. A resposta da direção é cobrir a ausência com volume: planos de drone que sobrevoam o Farol da Barra, imagens aéreas da Igreja do Bonfim, tomadas do Forte São Marcelo. As imagens são tecnicamente competentes e visualmente atraentes. Mas se repetem até o esvaziamento. Chega um ponto em que é difícil saber se estamos assistindo a um filme ou a um vídeo institucional, como observou com precisão a crítica baiana.

Há uma distinção importante aqui: exibir Salvador não é o mesmo que revelar Salvador. O que o drone registra — monumentos, praias, pontos turísticos — é exatamente o que qualquer guia de viagem já oferece. O que o cinema poderia acrescentar — a textura social, o cotidiano da cidade, sua contradição entre beleza e desigualdade — simplesmente não está lá.

A Comédia Romântica e seus Limites Honestos

O gênero da comédia romântica não é refratário à crítica apenas por ser popular. Ele possui uma gramática própria, legítima e historicamente testada: o encontro fortuito, o obstáculo ao amor, o momento em que os personagens precisam escolher entre segurança e desejo. Dentro dessa estrutura existem obras que transcendem o formulaico porque investem em personagens com vida interior genuína.

De Volta à Bahia tem os ingredientes: Maya (Bárbara França) é uma modelo em luto pela mãe, afastada do surfe e do trabalho, carregando um ressentimento antigo pelo pai ausente (Werner Schünemann). Pedro (Lucca Picon) perdeu o pai ainda criança e é criado por uma mãe que teme a repetição do trauma. Os dois se encontram quando ele a salva de um afogamento, o vídeo viraliza, e descobrem que compartilham o mesmo mentor esportivo.

O problema não está nos temas — luto, depressão, ausência paterna, medo de perder —, que são relevantes e poderiam gerar drama genuíno. O embate entre Maya e Thomas poderia ter maior profundidade emocional, mas seus dilemas são resolvidos por meio de conversas simples, como se anos de ressentimento desaparecessem com um toque de mágica. O roteiro de Joana di Carso não confia no tempo. Não deixa os conflitos maturar. Apresenta a ferida e imediatamente trata de fechá-la.

Isso cria uma sensação particular de leveza falsa — não a leveza do romance que encontrou seu equilíbrio, mas a leveza de um filme que simplesmente não quis se deparar com o peso do que propôs.

Arquétipos Higienizados e o Problema do Coach

O elenco de suporte revela outra tensão estrutural do filme. PH (Felipe Roque), mentor dos protagonistas, funciona como uma personificação do discurso de autoajuda contemporâneo: frases sobre o mar como metáfora de vida, reflexões motivacionais que soam extraídas de um perfil de Instagram voltado para a produtividade pessoal. O alívio cômico se limita ao constrangedor no caso de Arthur (Juliano Laham), e o coach motivacional de PH não convence.

Há algo sintomático nessa escolha. O mentor-coach é uma figura que o cinema e as séries contemporâneas têm incorporado sem suficiente distância crítica, como se o vocabulário do wellness e da superação pessoal fosse uma linguagem neutra. Em De Volta à Bahia, esse vocabulário não é questionado — é celebrado, o que torna o filme datado de uma maneira específica, preso ao zeitgeist de um momento cultural que já começa a ser revisado.

A exceção do elenco é Bárbara França. Carismática e sensível, ela sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro não favorece, e sua interpretação amplia a força dramática de Maya. França entrega uma presença que o filme, ao redor dela, não sabe aproveitar completamente.

O Paradoxo da Representatividade

Há um acerto explícito no filme que merece reconhecimento: a produção demonstrou cuidado com a representação da Bahia e de sua população. Foram contratados atores locais, e houve justificativas narrativas para personagens interpretados por artistas de fora do estado — um acerto que, infelizmente, é raramente visto no cinema e na TV.

Essa atenção é real e não deve ser minimizada. Num panorama em que o cinema brasileiro frequentemente trata o Nordeste como exotismo decorativo, a escolha tem peso político e simbólico.

Mas ela convive com uma contradição. O mesmo filme que evita estereótipos no elenco constrói visualmente uma Salvador estereotipada: turística, higienizada, reduzida aos seus cartões-postais mais reconhecíveis. A representatividade no casting não resolve o problema da superficialidade do olhar. Uma cidade não é apenas as pessoas que a habitam — é também a forma como o cinema decide enquadrá-la.

A Estética do Comercial e o que Ela diz sobre o Cinema Nacional

A comparação com o universo publicitário, feita por quase todas as críticas da imprensa especializada, não é casual nem gratuita. Ela aponta para uma tendência mais ampla no cinema comercial brasileiro: a absorção da gramática publicitária como substituto da linguagem cinematográfica.

O comercial tem uma lógica própria e coerente — mostrar o produto em sua melhor luz, associá-lo a emoções positivas, criar desejo sem conflito. Essa lógica funciona para vender viagens a Salvador. Ela não funciona para fazer cinema, porque o cinema — mesmo o mais leve, mesmo a comédia mais despretensiosa — precisa de atrito. Precisa que alguma coisa esteja em risco, que os personagens possam falhar de forma que importe.

A estética publicitária se repete com a exibição constante de pontos turísticos como o Pelourinho e o Farol da Barra, além de referências à cultura local como o acarajé — exaltação tão forçada que produz o efeito oposto. Quando tudo é belo demais, nada emociona.

O que Salvador merecia

De Volta à Bahia não é um filme malicioso. É um filme que claramente ama o que filma, que tem boas intenções e que, em alguns momentos — especialmente quando permite que Bárbara França simplesmente exista em cena — consegue um lampejo do que poderia ter sido.

Mas boas intenções não são suficientes. Salvador, com sua história densa e contraditória, com sua cultura que extrapolou fronteiras nacionais, com sua posição singular na formação do Brasil, merecia um olhar mais exigente. Merecia um cinema que perguntasse o que a cidade tem a dizer sobre os personagens — e não apenas o que os personagens têm a ver com os pontos turísticos da cidade.

O farol que o filme tanto filma está lá para orientar navegantes em meio ao escuro. De Volta à Bahia prefere fotografá-lo ao sol, como atração, sem se perguntar o que ele ilumina.

FABIO BONIFACIO

Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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